
A assinatura de Ridley Scott deveria significar alguma coisa. Mesmo quando seus filmes dividem opiniões, espera-se encontrar neles uma concepção visual grandiosa, algum domínio de atmosfera, interesse por conflitos morais e, principalmente, a impressão de que existe um diretor conduzindo aquelas imagens. Ridley Scott pode errar — e já errou muitas vezes —, mas seus melhores trabalhos carregam identidade inequívoca. Alien — O Oitavo Passageiro, Blade Runner, Thelma & Louise, Gladiador, Falcão Negro em Perigo, são produções diferenciadas e possuem vigor cinematográfico. Mesmo produções irregulares como Prometheus, Napoleão, Gladiador 2 e Cruzada apresentam momentos visualmente reconhecíveis como obras de um grande realizador.
Infelizmente nada disso acontece em Ponto Sem Retorno. Estamos diante de um filme surpreendentemente fraco, genérico, arrastado e impessoal. Uma produção que poderia ter sido dirigida por qualquer profissional mediano contratado para cumprir tabela. Se o nome de Ridley Scott desaparecesse dos créditos, dificilmente alguém identificaria sua presença nessa produção. O mais grave não é o filme ser ruim. Grandes cineastas também realizam obras ruins. O problema é sua completa falta de necessidade. Ponto Sem Retorno não apresenta uma ideia nova sobre o fim do mundo, não cria personagens memoráveis, não desenvolve conflitos particularmente profundos e não encontra uma forma original de utilizar sua paisagem pós-apocalíptica.
É uma produção com aparência de cinema, orçamento de cinema e nomes associados ao cinema, mas com espírito de conteúdo descartável. Poderia ter sido lançada diretamente em alguma plataforma de streaming, permanecer alguns dias entre os títulos mais assistidos e desaparecer sem deixar saudades. Não faria falta às salas de exibição. E, depois dos créditos finais, dificilmente fará falta à memória do espectador.
As únicas exceções são a fotografia de Erik Messerschmidt ( O Assassino )e a trilha sonora, especialmente o repertório de tonalidade country. São os dois elementos que ainda tentam oferecer beleza, atmosfera e alguma personalidade a uma narrativa tediosa. O restante é uma sucessão de situações previsíveis, personagens superficialmente construídos e emoções que o filme insiste em anunciar, mas raramente consegue provocar.

O cinema e a televisão exploraram o fim da civilização de todas as maneiras possíveis. Já vimos epidemias, zumbis, guerras nucleares, desastres ambientais, invasões, colapsos tecnológicos e diferentes formas de extinção. Por isso, uma nova produção pós-apocalíptica não precisa necessariamente inventar outro tipo de catástrofe, mas precisa apresentar um olhar próprio e singular. Ponto Sem Retorno não consegue nem isso. As estradas vazias, os prédios abandonados, os veículos destruídos, a vegetação ocupando estruturas humanas, as comunidades armadas e os sobreviventes desconfiados pertencem a um repertório visual e narrativo conhecido. O filme parece reunir fragmentos de vários outras filmes conhecidos: The Walking Dead, Eu Sou a Lenda, e a boa e velha esperança transmitida pelo rádio.
Referências não seriam um problema se Ridley Scott e o roteirista Mark L. Smith conseguissem reorganizá-las dentro de uma visão original. Entretanto, quase tudo parece derivativo. O filme percorre caminhos já conhecidos sem imprimir neles urgência, surpresa ou personalidade. Um de seus inúmeros defeitos é a incapacidade de conferir peso aos acontecimentos. A humanidade praticamente desapareceu, mas o filme raramente transmite a dimensão dessa perda. Os encontros com outros sobreviventes deveriam colocar em questão a confiança, a violência e a possibilidade de reconstrução. Contudo, surgem como etapas previsíveis de um roteiro que parece sempre interessado em chegar à próxima paisagem. Há tiros, perseguições, ameaças e perdas. Ainda assim, quase nada que produza impacto. O mundo terminou, mas o filme parece entediado com o próprio apocalipse.
Jacob Elordi ( O Morro dos Ventos Uivantes ) possui presença física e vem demonstrando capacidade para papéis dramáticos. Porém, em Ponto Sem Retorno, seu desempenho permanece excessivamente contido. O ator procura construir seu personagem por meio de cansaço, olhares distantes e uma postura marcada pelo luto. A intenção é compreensível, mas o resultado frequentemente se aproxima da apatia. Há uma diferença importante entre representar um homem emocionalmente destruído e oferecer uma atuação sem energia. Assim como também Josh Brolin ( Os Goonies, Vingadores – Ultimato )possui experiência e autoridade suficientes para conferir alguma presença ao papel. Mas nem mesmo sua experiência e carisma conseguem escapar inteiramente do caráter esquemático do roteiro.
Margaret Qualley ( Manual Prático da Vingança Lucrativa )interpreta Cima, a jovem que passa a representar a possibilidade de afeto, renovação e futuro para Hig. A personagem deveria oferecer mais do que um interesse amoroso. Ela é uma atriz expressiva, capaz de transmitir intensidade suficiente. Entretanto, o roteiro oferece pouco espaço para que Cima exista além de sua função na trajetória do protagonista.
Ridley Scott sempre demonstrou capacidade para construir mundos. A nave de Alien, a Los Angeles de Blade Runner, a Roma de Gladiador e o planeta de Perdido em Marte possuem atmosfera, geografia e identidade. Em Ponto Sem Retorno, o mundo parece apenas uma coleção de belas locações pós-apocalípticas. Há paisagens, hangares, florestas, estradas e estruturas abandonadas. Contudo, raramente esses espaços formam uma realidade verdadeiramente viva. Falta a sensação de que o diretor pensou profundamente sobre como aquela sociedade entrou em colapso e como seus vestígios contam uma história. Ridley Scott filma com competência de sempre, mas sem paixão aparente. A encenação é correta. Os atores ocupam posições adequadas. As sequências de ação são compreensíveis. Os planos aéreos são bonitos. Entretanto, ele parece estar funcionando no automático.
Entre os dois pontos que ressaltei anteriormente, a fotografia é o grande mérito do filme. Erik Messerschmidt transforma a paisagem em uma presença muito mais interessante do que os personagens. Florestas, montanhas, planícies, céus e estruturas abandonadas recebem um tratamento visual elegante e contemplativo. Os planos aéreos realizados a partir da pequena aeronave oferecem escala e isolamento. A natureza não é apresentada apenas como ameaça. Ela recuperou espaço depois do colapso da civilização. Há beleza no fim do mundo, e essa contradição produz o que de pouco existe de bom nesse longa.
Harry Gregson-Williams ( Cowboys & Aliens ) é responsável pela música original e volta a colaborar com Ridley Scott. A trilha oferece ao filme uma dimensão emocional que as cenas, sozinhas, raramente alcançam. Há melancolia, contemplação e sensação de vastidão. Os elementos associados à música country e ao western combinam perfeitamente com a paisagem e com a ideia de uma América reduzida novamente a territórios, armas, cavalos mecânicos e comunidades isoladas. Violões, timbres secos e melodias criam uma identidade sonora coerente. A música comunica perda sem exagerar no sentimentalismo.
Ridley Scott possui enorme experiência com ação. Mas em Ponto Sem Retorno mesmo as sequências de ação sendo tecnicamente competentes, não passam de apenas beirarem a banalidade. Tiros, invasões, perseguições e ataques parecem surgir como obrigações do roteiro e praticamente nada parece ser novo ou inventivo. O orçamento divulgado tem sido estimado em aproximadamente US$ 110 milhões. E pelo que foi apresentado, tenho quase certeza que não vai chegar nem perto de cobrir seus custos de produção e marketing.
Mesmo não sendo visualmente pobre, Ponto Sem Retorno possui todas as características de uma produção destinada ao consumo doméstico. A experiência não exige participação coletiva. Não produz espanto, tensão ou emoção que se beneficie decisivamente de uma sala cheia. É possível imaginar o filme surgindo discretamente em uma plataforma, sendo assistido por curiosidade por causa do nome Ridley Scott e Jacob Elordi e desaparecendo do catálogo principal na semana seguinte.
Resumindo: Ponto Sem Retorno é uma das obras mais fracas e esquecíveis da longa e brilhante filmografia de Ridley Scott. Não chega a ser um desastre absoluto do ponto de vista técnico. Há belas imagens, paisagens grandiosas e uma trilha sonora envolvente. Mas cinema não se resume a fotografar montanhas enquanto toca uma boa música country. Infelizmente Ridley Scott dirige com eficiência e nenhuma inspiração perceptível. Não há ali a inquietação de Alien, a densidade de Blade Runner, a força de Gladiador, o domínio espacial de Falcão Negro em Perigo ou até mesmo o prazer científico de Perdido em Marte. Há apenas um diretor experiente cumprindo etapas.
Esse filme poderia ter sido comandado por qualquer diretor mediano que o resultado não teria sido diferente. Provavelmente será lembrado apenas pelos admiradores mais dedicados de Scott — e talvez nem por eles durante muito tempo. O restante é patético em sua superficialidade, chato em sua execução e completamente esquecível em suas pretensões.
Minha nota para esse filme é:
