O Rei Leão é uma das realizações mais importantes do chamado Renascimento da Disney, que foi o período iniciado no final dos anos 1980 em que o estúdio recuperou prestígio artístico e força comercial por meio de animações como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin, Pocahontas e O Corcunda de Notre Dame. A obra, de trama relativamente simples, combina tragédia familiar, aventura de amadurecimento, comédia, musical e fábula filosófica. Sua história acompanha Simba, herdeiro das Terras do Reino, que é manipulado pelo tio Scar e levado a acreditar que provocou a morte do pai. Dominado pela culpa, o jovem leão abandona sua terra e passa anos evitando o passado. Somente quando compreende que fugir não elimina sua responsabilidade, retorna para enfrentar Scar e restaurar o reino.

Mesmo sendo dirigido ao público familiar, O Rei Leão não evita a morte, o abandono, a corrupção política, a destruição ambiental e o trauma infantil. Sua grande conquista é abordar esses assuntos através de imagens e canções suficientemente claras para as crianças, mas complexas o bastante para ganhar novas interpretações quando o espectador amadurece. Poucas aberturas do cinema de animação são tão imediatamente reconhecíveis.

Simba é apresentado como uma criança curiosa, impulsiva e excessivamente confiante. Ele deseja tornar-se rei, mas interpreta o poder como ausência de limites. Mufasa, seu pai, procura ensinar que autoridade não significa posse absoluta. O rei governa temporariamente e está inserido em um sistema maior. Scar, irmão do rei, é introduzido isolado, brincando cruelmente com um rato que pretende devorar. Desde o primeiro momento, demonstra inteligência, ressentimento e o total desprezo pela organização do reino. Ele não possui a força física de Mufasa, mas domina a linguagem. Seu poder está na manipulação.

Scar organiza a debandada de gnus e coloca Simba no desfiladeiro. Mufasa é alertado e consegue salvar o filho, mas fica preso na encosta. Essa cena em particular, é uma das representações mais marcantes da morte no cinema infantil. O que torna ela ainda mais marcante é que estamos falando de uma produção da Disney que não suaviza completamente o acontecimento. Simba encontra o corpo do pai, tenta acordá-lo, pede ajuda e finalmente se deita sob sua pata. Simba não foge apenas por medo de Scar. Foge porque acredita ser indigno.

Simba sabe que estava no desfiladeiro e que Mufasa morreu tentando salvá-lo. Não possui maturidade para compreender a conspiração. Scar ordena que ele fuja e nunca mais volte. Depois, envia as hienas para matá-lo. Scar anuncia que Mufasa e Simba morreram e assume o trono. As hienas são incorporadas ao reino, mas a nova administração produz fome, destruição e desequilíbrio. Sob o comando de Mufasa, a paisagem era verde e iluminada. Sob a batuta de Scar, torna-se seca, escura e improdutiva. O ambiente reflete moralmente a liderança.

Depois de fugir e desmaiar no deserto, Simba é encontrado por Timão e Pumba. Os dois o salvam e o levam para um ambiente exuberante, distante das responsabilidades do reino. O filme acerta ao não tratar Timão e Pumba apenas como bufões. Eles salvam Simba, oferecem companhia e permanecem ao seu lado mesmo quando não compreendem totalmente sua decisão de voltar. Simba cresce fisicamente, mas seu desenvolvimento emocional permanece paralisado no desfiladeiro. Ele vive como adulto, porém reage à lembrança de Mufasa com o medo da criança que fugiu. Sua vida confortável é sustentada pela negação.

Após um período de medo e sem querer voltar para um reino que é por direito seu, Simba decide voltar e encontra uma paisagem irreconhecível. A chuva desapareceu, os alimentos acabaram e os animais deixaram o território. Devemos encarar esse encontro por duas vertentes: Scar concentra poder, silencia oposição e administra através do medo e que exploração sem equilíbrio esgota os recursos. O filme não apresenta detalhes administrativos, mas utiliza a paisagem como representação imediata do fracasso político.

Scar obriga Simba a declarar publicamente que acredita ter causado a morte de Mufasa. O protagonista assume a responsabilidade mesmo sem conhecer a verdade. Esse gesto demonstra amadurecimento: ele retorna disposto a enfrentar consequências. Dramaticamente, o filme transforma a verdade privada em verdade pública. Simba precisa libertar-se da culpa; o reino precisa compreender que foi governado por um assassino e mentiroso.

A famosa ética associada ao Homem-Aranha encontra equivalente em O Rei Leão: posição e poder geram grandes responsabilidades.  Simba inicialmente quer a coroa sem o peso que ela traz. Depois rejeita tanto a coroa quanto a obrigação. Ao final, compreende que liderança não é privilégio nem condenação, mas compromisso. A terra reage simbolicamente ao governante. Mufasa mantém equilíbrio; Scar produz esterilidade; Simba traz a chuva.

Uma trilha sonora excepcional. Hans Zimmer desejava que a trilha possuísse identidade emocional ligada ao continente africano. A colaboração com Lebo M e vozes sul-africanas ampliou a dimensão cultural e coral.

O Rei Leão foi produzido majoritariamente com animação desenhada à mão. Cada personagem recebeu estudos de anatomia, movimento e comportamento animal. Os artistas observaram leões reais levados ao estúdio e analisaram documentários e fotografias. A intenção não era reproduzir animais com realismo absoluto, mas encontrar equilíbrio entre anatomia reconhecível e expressão humana. Os rostos dos leões precisam comunicar culpa, amor, ironia e medo sem perder completamente a aparência animal.

Não podemos falar de Rei Leão sem falar da dublagem brasileira, que na minha opinião é uma obra-prima. Também não posso deixar de destacar, em maiormente, do trabalho do falecido dublador Jorgeh Ramos que conseguiu fazer um Scar melhor que Jeremy Irons, o ator da voz original.

Durante boa parte de sua produção, O Rei Leão era considerado internamente um projeto menos seguro do que Pocahontas. Muitos artistas acreditavam que a adaptação histórica e romântica teria maior prestígio, enquanto uma história original sobre leões poderia ser comercialmente limitada. O resultado contrariou as expectativas. O Rei Leão tornou-se o maior sucesso da Renascença Disney e uma das marcas mais lucrativas da história do entretenimento.

O filme foi divulgado como uma das primeiras grandes animações da Disney baseadas em uma história original, em vez de adaptar diretamente um conto de fadas específico. No entanto, “original” não significa criado por uma única pessoa nem livre de influências. O roteiro nasceu de um longo processo coletivo, com diretores, roteiristas, produtores, artistas de storyboard e compositores. Sua estrutura reúne Shakespeare, textos bíblicos, mitologia, documentários sobre animais e tradições narrativas da Disney.

O Rei Leão foi amplamente elogiado pela animação, música, intensidade dramática e capacidade de comunicar-se com diferentes idades.  A morte de Mufasa tornou-se um dos momentos mais discutidos por pais e educadores, tanto por seu impacto emocional quanto pela maneira direta de apresentar o luto às crianças.

Com orçamento estimado em US$ 45 milhões, O Rei Leão arrecadou aproximadamente: US$ 312,9 milhões nos Estados Unidos e Canadá em seu lançamento original. US$ 458,2 milhões nos mercados internacionais contabilizados. US$ 771 milhões mundialmente na circulação original. O longa retornou aos cinemas várias vezes: Versão IMAX em 2002. Conversão para 3D em 2011. Reexibições comemorativas posteriores. Relançamento pelos 30 anos em 2024. Somando os diferentes lançamentos, o Box Office Mojo registra aproximadamente: US$ 425 milhões nos Estados Unidos e Canadá. US$ 554 milhões internacionalmente. US$ 979 milhões mundialmente.

É fato que O Rei Leão ainda permanece relevante porque sua história não depende apenas das conquistas técnicas de 1994. O filme ensina que crescer não significa deixar de sentir medo ou dor. Significa reconhecer essas emoções e ainda assim agir. E essa é a mensagem central de O Rei Leão: ninguém existe sozinho. Somos formados por quem veio antes, pelas pessoas que encontramos e pelas decisões que tomamos diante daquilo que perdemos. É por isso que O Rei Leão continua emocionando: por trás dos animais, das canções e do espetáculo visual, encontra-se uma história profundamente humana sobre memória, culpa, responsabilidade e a coragem necessária para voltar ao lugar do qual um dia fugimos.

O Rei Leão está disponível no serviço de streaming da Disney+

Minha nota para esse filme é: