
Existe um ditado muito repetido no futebol segundo o qual não se deve mexer em time que está ganhando. No cinema, essa máxima precisa ser empregada com cautela, pois simplesmente repetir uma fórmula pode produzir uma sequência preguiçosa, incapaz de justificar sua existência. Mas há uma diferença fundamental entre repetir mecanicamente e compreender aquilo que funcionou para, em seguida, aperfeiçoá-lo. Foi exatamente isso que Halder Gomes fez em O Shaolin do Sertão 2.
Dez anos depois do lançamento do primeiro longa, o diretor retorna ao universo de Aluízio Li sem negar sua origem, modificar artificialmente sua identidade ou tentar transformar a franquia em alguma coisa que ela nunca pretendeu ser. Halder Gomes sabe o que o público deseja encontrar: o humor cearense, a oralidade regional, os tipos populares, as artes marciais reinterpretadas pelo imaginário sertanejo, a ingenuidade de Aluízio e o contraste permanente entre seus grandes sonhos e sua realidade muito mais modesta.
Ao mesmo tempo, a sequência não vive exclusivamente da nostalgia. Há maior domínio da linguagem cinematográfica, escala mais ambiciosa, melhor aproveitamento dos personagens, ação mais elaborada e uma compreensão ainda mais precisa do tempo da comédia. O resultado é uma continuação que preserva o coração do original, mas apresenta maior segurança técnica e narrativa. Halder Gomes não desmontou o time vencedor. Treinou-o melhor, reforçou algumas posições e colocou-o novamente em campo com mais experiência.
O filme passa-se aproximadamente dez anos depois dos acontecimentos da primeira produção. A história acompanha Aluízio Li em uma situação muito diferente daquela em que o público o deixou. A vitória sobre Toni Tora Pleura e o reconhecimento conquistado no primeiro longa não se transformaram em felicidade permanente. O tempo passou e foi cruel com o antigo “Dragão do Sertão”. Sua academia entrou em decadência, os alunos desapareceram, as dívidas aumentaram e sua vida afetiva também desmoronou. Em vez de simplesmente repetir a escalada do primeiro filme, a continuação apresenta um homem que já experimentou o sucesso, perdeu quase tudo e precisa descobrir se sua grande vitória foi apenas um acidente ou se realmente possui alguma força interior.

O cinema geralmente encerra suas histórias no instante da vitória. O protagonista derrota o adversário, conquista o respeito da comunidade, encontra o amor e caminha em direção a um futuro aparentemente perfeito. O Shaolin do Sertão 2 retorna justamente depois desse final feliz. Aluízio descobre que uma grande conquista não resolve a vida inteira. O prestígio desaparece, o dinheiro acaba, as relações se desgastam e o cotidiano cobra responsabilidades que nenhuma voadora consegue eliminar. Aluízio é um dos personagens mais carismáticos do cinema cearense porque reúne ingenuidade, persistência, imaginação e completo descabimento. E é justamente esse descabimento que o torna admirável. Aluízio fracassa, é enganado, cai, passa vergonha e continua acreditando que pode transformar a própria história.
Edmilson Filho nasceu para interpretar Aluízio Li. É difícil separar completamente o personagem do ator porque Edmilson empresta ao papel sua fisicalidade, seu domínio da comédia, sua experiência com artes marciais e, principalmente, seu conhecimento do ritmo da fala cearense. A atuação física permanece fundamental. O humor não está somente nas palavras; encontra-se na maneira de andar, reagir, lutar, cair, olhar e tentar preservar a dignidade depois de situações desastrosas. Se Edmilson Filho tratasse o personagem como caricatura, o público manteria distância. O ator, porém, protege a humanidade de Aluízio. Mesmo nas situações mais absurdas, sentimos que existe uma pessoa verdadeira por trás da fantasia.
O primeiro O Shaolin do Sertão, lançado em 2016, já possuía enorme carisma. Sua mistura entre filmes de kung fu, comédia regional e cultura popular produziu uma identidade imediatamente reconhecível. A continuação, porém, beneficia-se do amadurecimento de Halder Gomes como cineasta. Entre os dois filmes, o diretor adquiriu ainda mais experiência na administração de produções maiores, na construção de cenas de ação, na direção de elencos numerosos e na utilização do Ceará como espaço cinematográfico. O segundo filme parece mais seguro. Ele conhece sua proposta desde o início e não precisa gastar tanto tempo apresentando seu universo. Os personagens, o vocabulário e as regras daquele mundo já foram estabelecidos. Com isso, a narrativa pode partir diretamente para a decadência de Aluízio, os novos trambiques, os novos adversários e a jornada em busca de suas raízes.
Halder Gomes desenvolveu uma linguagem própria dentro do cinema brasileiro. Seus filmes possuem uma relação profunda com a cultura cearense, mas não tratam essa cultura como curiosidade exótica destinada ao olhar de fora. Ele filma o Ceará a partir do Ceará. Essa diferença é fundamental. O sotaque, as expressões, os costumes, os nomes e os tipos populares não aparecem como elementos folclóricos acrescentados artificialmente ao roteiro. Eles constituem a própria matéria do filme. Em O Shaolin do Sertão 2, o diretor demonstra também maior domínio da escala. Apesar do crescimento, o filme não perde sua personalidade regional. Isso representa o verdadeiro acerto de Halder: aumentar a dimensão da produção sem diminuir sua identidade. Halder Gomes entende que o sertanejo não aparece somente como objeto da comédia. Ele é também o autor da piada, o observador irônico da realidade e o sujeito capaz de rir dos próprios problemas.
L. G. Bayão, responsável também pelo roteiro do primeiro filme, conhece profundamente os personagens e o universo criado ao lado de Halder Gomes. O roteiro utiliza a passagem do tempo como elemento narrativo real, não apenas como justificativa para o envelhecimento dos atores. A decadência do protagonista devolve movimento à história. Os personagens antigos retornam porque ainda possuem função dramática e cômica, não apenas para provocar reconhecimento.
Halder Gomes construiu uma filmografia imediatamente reconhecível. Em muitas produções brasileiras, o Nordeste aparece como cenário exótico, espaço de pobreza ou depósito de estereótipos. No cinema de Halder Gomes, os personagens nordestinos ocupam o centro da narrativa. Possuem desejos, defeitos, vaidades, ambições, contradições e capacidade de rir de si mesmos. O diretor trabalha com o humor popular sem tentar torná-lo artificialmente sofisticado para obter aprovação externa. Ao mesmo tempo, não trata seu público como incapaz de compreender referências cinematográficas. O filme compreende uma regra importante: para que uma luta cômica funcione, o público precisa entender o que está acontecendo. Se a montagem for confusa, perde-se tanto a ação quanto a piada.
O Shaolin do Sertão 2 mistura cultura regional, paródia, ação, melodrama, humor físico e referências aos filmes orientais. Essa combinação só funciona porque Halder conhece tanto o universo que retrata quanto o cinema que homenageia. O filme funciona porque seu humor possui identidade. Não estamos diante de uma produção que poderia ser transferida para qualquer região brasileira apenas trocando o sotaque dos atores. As situações, expressões, relações e reações pertencem ao ambiente cultural cearense.
Uma comédia de conjunto depende da capacidade de cada ator compreender o tom da obra. O elenco de O Shaolin do Sertão 2 reúne intérpretes com experiências muito diferentes, mas todos parecem aceitar o universo proposto por Halder Gomes. Comédia depende de tempo. Um corte realizado cedo ou tarde demais pode destruir uma piada. A montagem de O Shaolin do Sertão 2 demonstra maior segurança no controle do ritmo. As cenas de diálogo encontram pausas adequadas, enquanto as sequências de luta mantêm energia.
O longa de 2016 possuía a força da descoberta. Apresentava um universo novo, um personagem extremamente carismático e uma combinação cultural pouco vista no cinema brasileiro. A continuação não consegue repetir o impacto da novidade, mas compensa essa ausência com maior maturidade.
O Shaolin do Sertão 2 é importante não apenas como comédia, mas como demonstração da capacidade industrial e criativa do audiovisual cearense. A produção gera empregos, movimenta equipes locais, utiliza cidades do estado como locações e fortalece uma identidade cinematográfica própria. O primeiro filme tornou-se fenômeno regional antes de alcançar o restante do país. Em sua estreia no Ceará, chegou a levar aproximadamente 45 mil pessoas aos cinemas durante o primeiro fim de semana, demonstrando a existência de um público interessado em reconhecer sua cultura nas telas.
Mesmo sendo superior ao primeiro filme e extremamente divertido, O Shaolin do Sertão 2 continua com um humor muito específico e depende de ritmo, linguagem e referências regionais. Quem não aceitar essa proposta poderá considerar determinados personagens exagerados. Mas, ainda sim, confirma Halder Gomes como um dos realizadores mais importantes da comédia popular brasileira contemporânea. O diretor compreendeu que não precisava reinventar completamente seu cinema. Precisava apenas aprimorá-lo.
Como afirmei anteriormente: em time que está ganhando não se mexe — mas se treina, fortalece e organiza. Foi isso que Halder fez. Preservou Edmilson Filho, a linguagem regional, o humor, o sertão, o kung fu e a ingenuidade de Aluízio. Ao mesmo tempo, melhorou a produção, a ação, a construção visual e a dimensão emocional. A continuação respeita o filme de 2016 sem viver exclusivamente de sua memória. Reconhece que dez anos se passaram, permite que o protagonista envelheça, fracasse e recomece. O primeiro longa apresentou Aluízio Li ao Brasil. O segundo confirma que ainda havia muito a contar sobre ele.
Minha nota para esse filme é:
