SONIC O FILME – UMA AGRADÁVEL SURPRESA

Dirigido por Jeff Fowler, com roteiro de Pat Casey e Josh Miller, Sonic — O Filme chega aos cinemas hoje, 13 de Fevereiro de 2020 e já vem carregando uma desconfiança gigantesca. Antes mesmo da estreia, a produção quase entrou para a história pelos motivos errados. O primeiro visual de Sonic, apresentado no primeiro trailer de 2019, provocou uma reação extremamente negativa. O personagem possuía proporções humanas, olhos pequenos, pernas musculosas e dentes excessivamente realistas. Diante da rejeição, o estúdio adiou o lançamento e redesenhou completamente o protagonista.

A mudança não resolveu todas as limitações do filme, mas transformou uma possível catástrofe em uma aventura familiar simpática e  comercialmente eficiente. Sonic — O Filme não é uma adaptação ousada nem uma obra particularmente inventiva. Seu roteiro segue uma fórmula conhecida, seus personagens humanos são pouco desenvolvidos e parte do humor envelheceu rapidamente. Entretanto, o carisma do herói, a atuação completamente entregue de Jim Carrey e a simplicidade de sua mensagem fazem a produção funcionar melhor do que seria razoável esperar.

Transformar um personagem de videogame em protagonista de cinema sempre foi uma tarefa arriscada. Durante décadas, Hollywood demonstrou dificuldade para compreender que uma boa adaptação não depende apenas de reproduzir cenários, golpes, criaturas ou objetos reconhecidos pelos jogadores. É necessário traduzir para outra linguagem aquilo que tornou o personagem especial. No caso de Sonic, a dificuldade era ainda maior: como transformar um ouriço azul, veloz, irreverente e criado para atravessar fases em alta velocidade no centro emocional de uma narrativa cinematográfica?

A narrativa apresenta Sonic ainda criança, vivendo em um planeta distante e sendo protegido por Longclaw, uma coruja guerreira que exerce sobre ele uma função quase materna. O pequeno ouriço possui uma velocidade extraordinária e, justamente por isso, torna-se alvo de criaturas interessadas em controlar seu poder. Para salvá-lo, Longclaw entrega a Sonic uma bolsa contendo anéis mágicos capazes de abrir portais para diferentes lugares do universo. O herói é enviado para a Terra e orientado a permanecer escondido. Dez anos depois, Sonic vive clandestinamente nos arredores de Green Hills, uma pequena cidade do estado de Montana. Embora tente convencer a si mesmo de que está satisfeito, Sonic sofre profundamente com a solidão.

Uma das decisões mais importantes do filme foi não tentar reproduzir integralmente a mitologia dos jogos logo na primeira aventura. A produção utiliza alguns elementos clássicos — os anéis, Green Hills, a supervelocidade, Robotnik e as esmeraldas vislumbradas rapidamente —, mas concentra a narrativa na apresentação de Sonic. Essa acertada escolha torna o longa acessível ao público que nunca teve contato com os videogames. Não é necessário conhecer a Sega, as fases originais ou os inúmeros personagens da franquia para compreender a história. O filme funciona como uma narrativa de origem, mostrando como Sonic passou de uma criatura escondida e solitária a um herói disposto a proteger seu novo lar. O filme também apresenta Robotnik antes de ele assumir completamente a aparência clássica do vilão. Ao longo da história, seu visual passa por uma transformação: o cabelo se torna mais descontrolado, o bigode ganha maior destaque e sua sanidade se deteriora. Essa moderação foi inteligente. Em vez de abarrotar o filme com personagens e referências, a produção estabelece as bases de um universo. O resultado é simples, mas funcional.

O maior acerto do roteiro está na maneira como utiliza a solidão para humanizar Sonic. O herói não é apenas rápido. Ele é uma criança emocionalmente reprimida, obrigada a passar anos escondendo quem realmente é. Possui energia quase infinita, mas não tem com quem compartilhá-la. Sua personalidade falante, impulsiva e frequentemente exagerada funciona como mecanismo de defesa. Sonic faz piadas para preencher o silêncio. Conversa sozinho porque passou grande parte da vida sem interlocutores. Inventa apelidos para pessoas desconhecidas porque necessita sentir que pertence a algum lugar. Sua velocidade permite que esteja em toda parte, mas sua condição de fugitivo impede que pertença verdadeiramente a qualquer lugar. A partida de beisebol é a melhor representação visual dessa condição. A sequência começa como uma demonstração divertida dos poderes do personagem. Sonic arremessa, rebate, corre pelas bases e ocupa simultaneamente todas as posições. Porém, quando olha para as arquibancadas vazias, toda a energia da cena desaparece.

James Marsden interpreta Tom como o tradicional homem comum inserido em uma situação extraordinária. O ator já havia desempenhado uma função semelhante em outros filmes que misturam atores reais e personagens digitais. Sua principal qualidade é a capacidade de reagir ao absurdo sem tentar disputar a atenção com os efeitos visuais.

A amizade entre eles nasce da necessidade, mas evolui de maneira convincente. Inicialmente, Tom ajuda Sonic porque se sente responsável pela situação. Depois, passa a enxergá-lo como indivíduo e compreende a dimensão de sua solidão. Sonic, por sua vez, deixa de tratar Tom como uma figura idealizada e passa a conhecê-lo como um amigo real, com dúvidas, medos e contradições.

Tika Sumpter interpreta Maddie Wachowski, esposa de Tom e veterinária. A personagem é inteligente, equilibrada e acolhedora, mas recebe pouco espaço dramático. Sua função principal é apoiar Tom, ajudar Sonic quando ele está ferido e consolidar a ideia de família ao final. Outros personagens secundários existem quase exclusivamente para fornecer humor. Rachel, irmã de Maddie, demonstra uma aversão exagerada por Tom, sem que o filme apresente uma justificativa convincente. A personagem rende algumas situações engraçadas, especialmente quando é amarrada, mas permanece reduzida a uma caricatura.

Jim Carrey é, ao lado de Sonic, o principal responsável pela identidade do filme. Seu Dr. Robotnik não busca realismo, contenção ou sutileza. O ator recupera parte da energia física e facial que marcou suas comédias dos anos 1990, especialmente O Máskara e Ace Ventura. Jim Carrey transforma cada entrada do personagem em uma apresentação. O modo como movimenta o corpo, altera a voz, dança dentro do laboratório e humilha seus subordinados faz de Robotnik uma figura deliberadamente excessiva. O ator não interpreta Robotnik como uma ameaça verdadeiramente assustadora. Ele é perigoso porque possui recursos tecnológicos, inteligência e obsessão, mas também é ridículo, infantil e narcisista.

Nenhuma análise de Sonic — O Filme estaria completa sem abordar a reformulação visual do personagem. O primeiro trailer, divulgado em 2019, apresentou um Sonic que tentava combinar as características do videogame com uma anatomia relativamente realista. O resultado provocou estranhamento. Após a reação negativa, Jeff Fowler anunciou que o personagem seria redesenhado. A estreia, inicialmente prevista para novembro de 2019, foi transferida para fevereiro de 2020. A nova versão recuperou os olhos maiores, as luvas brancas, os braços e pernas mais finos, as proporções cartunescas e a aparência geral associada aos jogos. O redesenho foi fundamental porque devolveu expressividade ao personagem. A nova aparência permite que Sonic seja simultaneamente reconhecível, simpático e emocionalmente legível. Seus olhos grandes e sua estrutura facial ajudam o espectador a compreender medo, entusiasmo, tristeza e afeto. O episódio também levantou discussões importantes. Por um lado, demonstrou que ouvir o público pode impedir um erro de concepção. Por outro, revelou os custos humanos de uma alteração tão grande realizada sob forte pressão e em prazo reduzido. O resultado foi positivo na tela, mas não se deve romantizar a sobrecarga enfrentada pelas equipes de efeitos visuais. Artisticamente, a decisão salvou o filme. É difícil imaginar a mesma conexão emocional com o design original.

Jeff Fowler realiza uma direção segura, embora pouco autoral. O cineasta compreende que o maior desafio é integrar Sonic ao ambiente real e manter a narrativa em movimento. O filme raramente se torna confuso, mesmo nas sequências de perseguição. A velocidade de Sonic é representada de diferentes maneiras. Em alguns momentos, ele surge como um borrão azul. Em outros, o tempo parece parar, permitindo que o espectador acompanhe sua percepção acelerada. A cena no bar utiliza esse recurso de maneira semelhante às sequências do Mercúrio nos filmes dos X-Men: enquanto todos permanecem praticamente imóveis, Sonic reorganiza o espaço, interfere nos movimentos e transforma o caos em uma brincadeira particular.

Com aproximadamente cem minutos, a produção evita tramas excessivamente complicadas. Entretanto, o segundo ato desacelera ao recorrer a situações típicas de comédias de estrada: parada em bar, perseguição policial, conversa dentro do automóvel e elaboração de uma lista de experiências que Sonic deseja viver antes de abandonar a Terra.

Os efeitos visuais cumprem satisfatoriamente sua função, especialmente considerando a reformulação tardia do protagonista. Sonic apresenta textura, iluminação e interação física convincentes na maior parte do tempo. Pequenos detalhes — movimento dos pelos, reflexos nos olhos e contato com objetos — ajudam a integrá-lo aos cenários reais. Naturalmente, existem momentos em que a composição digital se torna mais perceptível. Algumas cenas externas e movimentos muito rápidos revelam a artificialidade do personagem. Nada disso, porém, compromete seriamente a experiência. A batalha final aproveita melhor os anéis e a velocidade. Sonic e Robotnik atravessam diferentes lugares do mundo em poucos segundos, criando uma perseguição dinâmica. A geografia da ação é compreensível e o confronto possui uma conclusão emocional, pois Sonic finalmente deixa de correr apenas para fugir e passa a correr para defender sua comunidade.

A montagem acompanha a energia do protagonista sem transformar todo o filme em uma sucessão frenética de cortes. Nos momentos emocionais, a narrativa sabe diminuir o ritmo. Essa variação é importante, pois um filme permanentemente acelerado acabaria anulando o impacto da própria velocidade.

A trilha instrumental de Tom Holkenborg, também conhecido como Junkie XL, acompanha adequadamente as cenas de ação e aventura, mas não está entre os aspectos mais memoráveis do filme. Ela oferece energia, grandiosidade e alguns momentos emocionais, porém raramente estabelece temas musicais tão marcantes quanto as composições dos jogos. Essa é uma oportunidade parcialmente desperdiçada. A franquia Sonic possui uma história musical riquíssima, e o filme poderia ter incorporado de maneira mais significativa melodias associadas aos games. Algumas referências aparecem, mas são discretas e em sua maioria apenas perceptíveis aos fãs dos jogos.

O humor é voltado principalmente ao público infantil e familiar. Existem piadas físicas, referências à cultura popular, brincadeiras com a velocidade e comentários sobre o comportamento humano. Sonic demonstra fascínio por filmes, quadrinhos e redes sociais, o que o aproxima do espectador contemporâneo. O filme também poderia confiar mais no humor derivado dos personagens. Jim Carrey demonstra que a comédia funciona melhor quando nasce da personalidade e do comportamento, não da citação de uma marca ou tendência passageira.

Por trás de sua estrutura simples, Sonic — O Filme trabalha temas universais com razoável sensibilidade. O principal deles é a necessidade de pertencimento. A família é apresentada como construção afetiva, e não apenas biológica. Tom e Maddie não substituem Longclaw nem apagam a origem de Sonic. Eles oferecem ao personagem uma nova possibilidade de lar. O filme também aborda, ainda que superficialmente, o conflito entre individualidade e controle. Robotnik não deseja compreender Sonic; deseja transformá-lo em fonte de energia. Para o vilão, tudo aquilo que é extraordinário precisa ser dominado, estudado ou convertido em instrumento de poder.

O maior problema está na falta de originalidade estrutural. A narrativa segue uma fórmula muito utilizada por adaptações familiares: uma criatura fantástica chega ao mundo real, conhece um adulto comum, provoca confusões e, depois de uma viagem, encontra uma família. Essa escolha oferece segurança, mas impede que o filme explore plenamente o universo de Sonic. O público recebe apenas breves imagens de mundos fantásticos, enquanto grande parte da ação acontece em estradas, bares, hotéis e cidades norte-americanas. O plano de Robotnik é igualmente básico. Ele deseja capturar Sonic, estudar sua energia e utilizar seu poder, mas suas motivações permanecem limitadas à arrogância e à ambição. Jim Carrey dá personalidade ao vilão, porém o texto não ajuda muito na construção do personagem. Essas incoerências são aceitáveis dentro de uma aventura infantil, embora revelem que o roteiro prioriza conveniência e ritmo em vez de consistência.

A aparição de Tails é o presente mais direto oferecido aos fãs. O personagem chega à Terra através de um portal e utiliza um aparelho para localizar Sonic. A sequência indica que o universo dos jogos começaria a ocupar um espaço maior nas continuações. A escolha de reservar Tails para o final foi acertada. Sua presença não interfere na história principal, mas cria expectativa e demonstra que o primeiro filme era apenas uma introdução. A produção evita utilizar todos os elementos conhecidos de uma só vez e permite que a franquia cresça progressivamente.

Sonic — O Filme recebeu críticas moderadamente positivas, com avaliações geralmente mais entusiasmadas entre o público do que entre os críticos. No Rotten Tomatoes, o filme registra 64% de aprovação da crítica e 93% entre espectadores verificados, diferença que demonstra seu êxito como entretenimento familiar e como adaptação voltada aos fãs. Com orçamento estimado em US$ 85 milhões, a produção arrecadou aproximadamente US$ 319,7 milhões mundialmente — cerca de US$ 149 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 170,7 milhões nos demais mercados. O resultado é especialmente relevante porque a trajetória comercial foi interrompida pela pandemia de Covid-19 e pelo fechamento mundial dos cinemas poucas semanas depois de sua estreia.

A história do filme tornou-se quase tão importante quanto seu conteúdo. A Paramount apresentou um design rejeitado, reconheceu o problema, adiou a estreia e investiu em uma reformulação substancial. O episódio não deve ser interpretado como uma obrigação de que toda produção obedeça às exigências das redes sociais. A arte não pode ser conduzida apenas por pesquisas de aprovação. Entretanto, naquele caso específico, a reação do público identificou um problema real: o personagem havia perdido suas características fundamentais. Além disso, o primeiro filme estabeleceu a fundação de uma franquia capaz de expandir sua mitologia em continuações, séries e derivados. Seu verdadeiro mérito talvez seja justamente esse: compreender que a primeira aventura não precisava ser a maior, mas precisava fazer o público gostar de Sonic.

Sonic — O Filme está longe de ser perfeito. Seu roteiro é previsível, os personagens humanos secundários são superficiais, a colocação de produtos é constrangedora e sua estrutura reproduz fórmulas conhecidas de aventuras familiares com criaturas digitais. A direção é competente, mas raramente ousada, e o universo visual dos videogames permanece subaproveitado. Mesmo assim, o filme possui algo que muitas adaptações mais caras e ambiciosas não conseguem encontrar: simpatia. A produção entende que, antes de apresentar uma mitologia gigantesca, precisava estabelecer uma relação entre o público e o personagem. Quando Sonic finalmente encontra uma casa, um quarto e pessoas que o aceitam, o filme alcança seu objetivo mais importante.

É uma adaptação simples, irregular e excessivamente segura, mas também honesta, engraçada e acolhedora. Não revolucionou o cinema inspirado em videogames, porém ajudou a mostrar que essas histórias poderiam funcionar quando tratadas com afeto, bom humor e respeito por aquilo que os fãs amavam. No final das contas, Sonic chegou aos cinemas quase tropeçando no próprio visual, corrigiu a rota em plena corrida e cruzou a linha de chegada como uma das mais agradáveis surpresas do cinema familiar de 2020.

Sonic – O Filme está disponível no serviço de streaming da Paramount Plus.

Minha nota para esse filme é:

 

Resultado de imagem para sonic o filme 2020 novo poster

 

2 thoughts on “SONIC O FILME – UMA AGRADÁVEL SURPRESA”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *