Existem filmes cuja história termina quando aparecem os créditos finais. Outros carregam uma trajetória externa tão extraordinária que se torna impossível separar a obra daquilo que aconteceu nos bastidores. Coyote vs. Acme pertence definitivamente ao segundo grupo, principalmente quando essa produção poderia ter desaparecido para sempre, literalmente.

Não estamos falando de um projeto que não conseguiu financiamento, ou de um roteiro que jamais saiu do papel ou de uma produção interrompida durante as filmagens. Coyote vs. Acme estava praticamente pronto. A fotografia principal havia sido concluída, a animação realizada, os efeitos produzidos, a trilha composta e o trabalho de centenas de profissionais incorporado ao filme. Mesmo assim, em novembro de 2023, a Warner Bros. Discovery anunciou que não pretendia lançá-lo. O objetivo: utilizar a produção como baixa contábil e obter um benefício fiscal estimado em cerca de US$ 30 milhões. Para um filme orçado em aproximadamente US$ 70 milhões, protagonizado por personagens que fazem parte da própria história da Warner, isso seria tratado não como obra artística, mas como ativo financeiro descartável. Por muito pouco, um bom filme foi literalmente apagado.

A revolta de profissionais, jornalistas, fãs, cineastas e integrantes da equipe obrigou o estúdio a recuar. A produção pôde ser oferecida a outras empresas e, finalmente, foi adquirida pela distribuidora independente Ketchup Entertainment, numa negociação divulgada em torno de US$ 50 milhões. O filme chegou aos cinemas norte-americanos em 28 de agosto de 2026 e ao Brasil no último dia dia 27 de agosto, por intermédio da Paris Filmes.

Essa história seria importante e valeria uma matéria mesmo que o filme fosse medíocre. Mas o verdadeiro escândalo está justamente no fato de que Coyote vs. Acme é muito bom. Não chega a ser uma obra-prima comparável a Uma Cilada para Roger Rabbit, nem revoluciona a linguagem da animação. Contudo, é uma comédia inteligente, carinhosa, visualmente competente e emocionalmente sincera. Respeita os personagens que marcaram a infância de tantas pessoas e, ao mesmo tempo, oferece uma porta de entrada bastante acessível às novas gerações. É exatamente o tipo de produção de que o cinema familiar precisa: não uma exploração preguiçosa da nostalgia, mas uma ponte entre épocas.

Depois de passar décadas sendo esmagado, explodido, queimado, arremessado de precipícios e traído por engenhocas defeituosas, o Coiote finalmente decide fazer aquilo que talvez devesse ter feito desde o começo: processar a fabricante dos produtos. A Acme Corporation construiu seu império vendendo foguetes, catapultas, ímãs, explosivos, armadilhas, patins, molas, alpiste e incontáveis mecanismos que jamais funcionaram como deveriam. Wile E. Coyote, autoproclamado supergênio, utilizou os produtos em suas tentativas de capturar o Papa-Léguas. Todas terminaram em fracasso. A ideia de responsabilizar judicialmente a Acme é tão óbvia que parece surpreendente não ter sido transformada em longa-metragem antes.

O roteiro parte do artigo humorístico “Coyote v. Acme”, publicado por Ian Frazier na revista The New Yorker em 1990. O texto imaginava um processo no qual o Coiote exigiria reparação por danos provocados pelos produtos defeituosos da empresa. No filme, ele procura Kevin Avery, advogado desacreditado e sem grandes perspectivas profissionais, interpretado por Will Forte. Kevin concorda em representar o personagem animado contra a poderosa corporação. O problema é que a defesa da Acme está nas mãos de Buddy Crane, vivido por John Cena, antigo chefe de Kevin e advogado especializado em proteger os interesses empresariais. Forma-se, assim, uma batalha entre dois azarões e uma organização gigantesca.

Wile E. Coyote sempre foi definido pela perseguição. Desde sua primeira aparição ao lado do Papa-Léguas no curta Fast and Furry-ous, de 1949, ele tenta repetidamente capturar o pássaro mais veloz do deserto. O público sabe que fracassará. O Coiote talvez também saiba, em alguma parte de sua consciência. Mesmo assim, acorda, desenha outro plano, faz novo pedido à Acme e começa tudo novamente.

O diretor Dave Green percebe algo essencial: o Coiote não é engraçado somente porque fracassa. É engraçado e comovente porque nunca desiste. Ele é um dos personagens mais perseverantes da história da animação. Seu corpo pode ser esmagado por uma pedra, incendiado por dinamite ou lançado de um desfiladeiro. Poucos segundos depois, ele retorna com outro plano ainda mais absurdo.

Pela primeira vez, acompanhamos o Coiote não como antagonista do Papa-Léguas, mas como protagonista de sua própria história.                  O personagem continua silencioso e se comunicando por placas, desenhos, expressões, gestos e linguagem corporal. Essa fidelidade é fundamental e um dos vários pontos a serem elogiados nessa produção. O filme resiste à tentação de lhe dar uma voz convencional e explicar tudo aquilo que ele sente. A animação precisa construir sua interioridade. Percebemos frustração, vergonha, raiva, esperança e vulnerabilidade sem que o personagem pronuncie um discurso.

Kevin não é apenas o advogado do protagonista. É seu reflexo humano. A escolha do sobrenome Avery funciona como homenagem evidente a Tex Avery, uma das figuras fundamentais na formação da linguagem dos desenhos animados da Warner. Kevin começa a história desanimado. Sua carreira não correspondeu às expectativas, sua confiança está abalada e o confronto com o antigo chefe reabre feridas relacionadas ao fracasso. Pouco a pouco, porém, Kevin compreende que aquela causa absurda representa algo verdadeiro. A Acme comercializou produtos perigosos, lucrou com a esperança de seu cliente e transferiu para ele toda a responsabilidade pelos resultados.

Nos curtas clássicos, a Acme existia principalmente como piada recorrente. Era a empresa capaz de fornecer qualquer produto imaginável, normalmente por correspondência, e quase todos falhavam de forma espetacular. O longa transforma essa piada numa crítica ao poder corporativo. A Acme também representa as organizações que são grandes demais para serem responsabilizadas. Possui dinheiro, advogados, influência e capacidade de controlar a narrativa pública. Buddy Crane é a face humana da defesa da Acme. O personagem é elegante, confiante, fisicamente imponente e plenamente adaptado à cultura corporativa. Ele não precisa acreditar que a empresa está moralmente certa. Precisa apenas vencer.

O encontro entre tribunal e desenho animado é o que há de melhor no filme. O universo jurídico depende de regras, prazos, documentos, provas, linguagem técnica e procedimentos. O mundo dos Looney Tunes depende da violação absoluta das leis da física. Colocar o Coiote dentro de um tribunal significa confrontar dois tipos de lógica. O Coiote possui responsabilidade por suas escolhas. Ao mesmo tempo, a empresa comercializou produtos sabendo para que seriam usados. O roteiro encontra boa parte de sua inteligência nesse espaço entre culpa individual e responsabilidade empresarial.

Coyote vs. Acme funciona porque não tenta modernizar os Looney Tunes por meio de ironia. Os personagens não precisam pedir desculpas por serem antigos. Também não são transformados em versões supostamente descoladas de si mesmos. A estrutura da piada do Coiote quase sempre depende de conhecimento prévio. Vemos o plano, compreendemos por que ele deveria funcionar e aguardamos o momento exato em que se voltará contra o personagem. O filme respeita esse ritmo. Ao mesmo tempo, introduz sátira corporativa, comédia jurídica e referências cinematográficas que podem atingir os adultos. O resultado não divide o humor em “piadas infantis” e “piadas para os pais”. As melhores cenas funcionam em vários níveis.

O maior desafio de qualquer produção baseada em personagens clássicos é encontrar equilíbrio entre preservação e renovação. Se mudar demais, perde a identidade. Se repetir tudo, torna-se museu. Coyote vs. Acme aproxima-se bastante do ponto ideal. O Coiote continua sendo o mesmo personagem obsessivo, engenhoso, orgulhoso e eternamente derrotado. O Papa-Léguas preserva sua função essencial de objeto inalcançável. Pernalonga, Patolino e outros personagens aparecem sem serem descaracterizados.

O diretor explicou que pretendia atualizar os personagens sem descaracterizá-los — como se estivesse pegando emprestado um automóvel clássico e tivesse a obrigação de devolvê-lo intacto. Os Looney Tunes não são moldados para parecer personagens de 2026. O mundo contemporâneo é que precisa abrir espaço para a natureza deles. O filme compreende que nostalgia, sozinha, não garante continuidade cultural. Adultos podem ir ao cinema porque cresceram assistindo aos Looney Tunes. Contudo, se a obra não funcionar para crianças que nunca viram os curtas clássicos, a franquia continuará envelhecendo junto com seu público.

Coyote vs. Acme não exige conhecimento prévio detalhado. Para o público mais velho, cada objeto e aparição carregam memória. Para as novas gerações, funcionam como descoberta. É essa a verdadeira preservação de um personagem clássico. Não basta manter desenhos num catálogo. É preciso criar novas histórias que revelem por que aqueles personagens continuam engraçados. Precisamos de mais filmes assim: produções capazes de respeitar a infância de quem tem quarenta, cinquenta ou sessenta anos e, simultaneamente, oferecer às crianças de hoje uma experiência que possa tornar-se parte da infância delas. A nostalgia somente possui futuro quando consegue gerar novas memórias.

A combinação entre personagens animados e atores reais possui longa tradição no cinema. O grande modelo continua sendo Uma Cilada para Roger Rabbit, que estabeleceu um nível extraordinário de integração física, iluminação, perspectiva e interação. Coyote vs. Acme não alcança o mesmo impacto revolucionário, mas realiza um trabalho maravilhoso. A integração funciona não apenas porque a técnica é competente, mas porque os atores acreditam na presença do personagem. Will Forte ajusta o olhar, o tempo das respostas e os movimentos de acordo com alguém que não estava fisicamente no cenário. John Cena utiliza o próprio corpo como contraponto à elasticidade dos desenhos. Os objetos mudam de mãos, personagens ocupam o mesmo espaço e ações animadas produzem consequências no cenário real.

O diretor Dave Green demonstra compreensão genuína dos personagens. Sua melhor decisão foi tratar o Coiote como indivíduo, não como integrante de uma grande reunião promocional dos Looney Tunes. O próprio diretor descreveu, em uma entrevista a Revista Animation que a diferença de como realizar uma história concentrada em um personagem, em vez de outra versão dos “Vingadores dos Looney Tunes”. A intenção era observar o que Wile E. Coyote deseja, sente e pensa.

A montagem procura reproduzir a precisão dos curtas clássicos. O filme compreende esse mecanismo e, em suas melhores sequências, consegue transportar o ritmo dos curtas para uma narrativa de longa duração. O som também é indispensável para o humor. Explosões, quedas, molas, motores, foguetes, placas, colisões e objetos Acme possuem uma assinatura sonora quase tão importante quanto sua aparência. O filme preserva a clareza sonora das gags clássicas. Não tenta tornar todos os impactos fisicamente realistas. Um som exagerado pode ser mais engraçado do que uma representação precisa.

A decisão de arquivar Coyote vs. Acme precisa ser entendida em toda a sua gravidade: filmes sempre foram cancelados, remontados ou abandonados. Porém, existe uma diferença moral entre interromper um projeto inviável e esconder deliberadamente uma obra praticamente concluída para obter vantagem financeira. Quando um estúdio arquiva definitivamente uma produção como baixa fiscal, o problema não atinge apenas os investidores. Atinge também: roteiristas; atores; animadores; técnicos; compositores; montadores; artistas de efeitos; cenógrafos; figurinistas; profissionais de som; e o próprio público. Centenas de pessoas dedicaram anos a algo que poderia ser proibido de existir publicamente. Isso modifica a própria ideia de preservação cinematográfica. Durante décadas, filmes desapareceram porque cópias foram destruídas, negativos se deterioraram ou arquivos sofreram incêndios. No século XXI, uma obra digitalmente preservável quase desapareceu por decisão contábil. O perigo deixou de ser material e se tornou corporativo.

O anúncio provocou enorme revolta porque ultrapassava a discussão sobre a qualidade específica do filme. Profissionais compreenderam que, se uma produção concluída e bem avaliada em sessões-teste podia desaparecer, qualquer trabalho estava sujeito ao mesmo destino. Will Forte manifestou publicamente orgulho do resultado e rejeitou a ideia de que se tratava de uma obra indigna de lançamento, muito pelo contrário. Dave Green destacou a dedicação da equipe e relacionou a resistência dos realizadores à própria persistência do Coiote. A pressão não garantiu imediatamente a estreia, mas impediu o silêncio.

Em 2025, a Ketchup Entertainment adquiriu os direitos globais de distribuição por um valor divulgado em torno de US$ 50 milhões.              É importante reconhecer que a distribuidora também tomou uma decisão empresarial. Esperava retorno financeiro. Contudo, nesse caso, o interesse econômico coincidiu com a preservação artística. O cinema chegou às salas porque alguém acreditou que o público deveria decidir se o filme merecia viver. Essa deveria ser a regra básica: uma produção realizada para o público precisa, sempre que possível, ser apresentada ao público.

O filme estreou em segundo lugar nos Estados Unidos, arrecadando aproximadamente US$ 15,4 milhões no primeiro fim de semana e cerca de US$ 23,9 milhões mundialmente durante sua abertura. Na atualização seguinte, já acumulava aproximadamente US$ 33,8 milhões, demonstrando desempenho bastante relevante para uma produção que quase não recebeu lançamento algum.

Hollywood afirma constantemente desejar propriedades conhecidas, personagens populares e filmes capazes de atingir várias gerações. Coyote vs. Acme reunia exatamente essas características e mesmo assim, quase foi destruído. Essa contradição revela que os estúdios nem sempre desejam filmes baseados em personagens conhecidos. Muitas vezes desejam produtos previsíveis, facilmente controláveis e compatíveis com estratégias financeiras imediatas. O longa utiliza uma marca clássica, mas possui voz própria. Satiriza corporações, advogados e mecanismos de poder. Concentra-se num perdedor em vez de celebrar um herói invencível.

O cinema familiar vive frequentemente dividido entre dois extremos. De um lado, produções construídas quase inteiramente sobre referências nostálgicas, destinadas a adultos que desejam reencontrar a infância. Do outro, filmes que tratam crianças como público incapaz de compreender ironia, melancolia ou temas mais complexos. Coyote vs. Acme encontra um caminho melhor: ele entende que uma boa história familiar não precisa falar de maneira diferente com cada geração. Pode construir humor e emoção suficientemente ricos para que cada idade encontre algo próprio. Os adultos reconhecem os personagens e percebem a sátira corporativa. As crianças compreendem o azarão, as quedas, as explosões e a amizade. Ambos podem rir da mesma cena por razões diferentes. É assim que uma tradição permanece viva. Personagens clássicos não devem ficar presos em cofres, catálogos ou lembranças. Precisam receber novas histórias produzidas por pessoas que compreendam aquilo que os tornou especiais.

Minha nota para esse filme é: