Filme da semana: "Paternidade", estrelado por Kevin Hart, é a comédia  baseada em fatos reais que vai te fazer chorar - Glamurama

Paternidade é um drama sobre luto, responsabilidade, amadurecimento e reconstrução familiar. Sua premissa é simples, mas emocionalmente poderosa: depois da morte repentina da esposa, um homem precisa criar sozinho a filha recém-nascida. O filme não apresenta a paternidade como uma sequência de atos extraordinários. Concentra-se, principalmente, nas tarefas que costumam permanecer invisíveis: alimentar, trocar fraldas, acalmar o choro, conciliar trabalho e família, estabelecer regras, frequentar reuniões escolares, administrar medos e acompanhar o crescimento de uma criança. A produção também confronta uma concepção ainda bastante presente na sociedade: a ideia de que o cuidado seria uma habilidade naturalmente feminina, enquanto o homem serviria apenas como provedor financeiro. Matt precisa provar que pode criar Maddy, mas o filme progressivamente demonstra que esse julgamento já parte de uma visão limitada. Ele não precisa substituir a mãe da menina. Precisa exercer plenamente sua função de pai.

Paternidade tem como base o livro autobiográfico Two Kisses for Maddy: A Memoir of Loss & Love, publicado por Matthew Logelin em 2011. O filme conserva o núcleo da história — a morte de Liz logo após o nascimento de Maddy e o esforço de Matt para criar a filha —, mas altera lugares, personagens, acontecimentos e conflitos. É uma adaptação dramatizada, não uma reprodução rigorosa. A escolha de Kevin Hart também muda a identidade racial do protagonista. Essa mudança permite que a produção apresente um homem negro como pai carinhoso, responsável e emocionalmente disponível, contrariando estereótipos históricos de abandono paterno frequentemente associados a personagens negros no audiovisual norte-americano.

Kevin Hart interpreta Matt Logelin, um pai amoroso, inteligente e determinado, mas também inseguro, teimoso e por vezes impulsivo. Sua principal característica é a decisão de permanecer. Ele poderia aceitar que a sogra assumisse a criação de Maddy ou transferir para outras pessoas grande parte das responsabilidades. Em vez disso, insiste em exercer a paternidade. O diretor Paul Weitz foi muito feliz ao escolher Kevin Hart como protagonista dessa produção. Kevin Hart é conhecido principalmente por personagens falantes, inquietos e exagerados. Paternidade utiliza parte dessa energia, mas permite que o ator desenvolva uma interpretação dramática mais contida. O humor verbal e corporal continua presente. Mas Kevin Hart mostra que consegue sair da zona de conforto e entregar um bom trabalho provando sua pluralidade interpretativa. Em Paternidade, ele mostra que a vulnerabilidade masculina não precisa ser tratada como fraqueza. Matt chora, admite insegurança e necessita de outras pessoas. É justamente sua capacidade de reconhecer essas emoções que permite seu crescimento.

Matt começa acreditando que paternidade significa impedir que algo aconteça com a filha. Depois, percebe que também significa prepará-la para enfrentar aquilo que inevitavelmente acontecerá. A relação entre Matt e sua filha é construída por meio de pequenos momentos. O filme entende que uma família não é definida apenas pelos grandes sacrifícios, mas pelas rotinas compartilhadas. Paternidade defende que criar uma criança não significa monopolizar seus afetos. Matt continua sendo o responsável principal, mas precisa permitir que Maddy construa relações com os avós e com a história materna.

O filme questiona expectativas sociais sobre homens e mulheres. Quando uma mulher cuida sozinha de uma criança, seu esforço costuma ser tratado como obrigação. Quando um homem realiza as mesmas tarefas, frequentemente recebe elogios extraordinários ou é visto com desconfiança. A produção precisa evitar uma armadilha: celebrar um homem por tarefas que milhões de mulheres desempenham diariamente sem reconhecimento. Ele não se torna “pai e mãe”. Detesto essa expressão, embora comumente usada, reforçaria a ideia de que o afeto e o cuidado pertencem à maternidade. Matt é pai — e a paternidade pode incluir ternura, proteção, educação, rotina doméstica e disponibilidade emocional.

Matt precisa aceitar que nenhum responsável consegue eliminar todos os perigos. Amar uma criança significa conviver com sua vulnerabilidade. Ela poderá adoecer, cair, sofrer rejeições, cometer erros e experimentar perdas. Ao afastar-se de Maddy para supostamente protegê-la, Matt cria uma separação emocional real. A menina não necessita de um pai capaz de controlar o mundo. Necessita de alguém que permaneça ao lado dela quando o mundo se mostrar imprevisível. Essa é uma das ideias mais maduras do filme: a função dos pais não é garantir uma vida sem dor, mas oferecer segurança emocional para que os filhos aprendam a enfrentá-la.

Paul Weitz possui experiência em histórias que misturam humor, amadurecimento e relações familiares, como fez em  Um Grande Garoto e Em Boa Companhia. Um grande acerto foi permitir que Kevin Hart conserve parte de sua natureza cômica. O luto não transforma Matt em alguém completamente diferente. Pessoas enlutadas continuam capazes de fazer piadas, sentir alegria e viver momentos cotidianos. O diretor também tende a resolver conflitos de maneira acolhedora. Isso torna o filme acessível.

O roteiro de Dana Stevens e Paul Weitz utiliza uma estrutura bastante convencional. A previsibilidade não impede o envolvimento porque a força está menos nos acontecimentos e mais nas atuações. A montagem de Jonathan Corn acompanha as diferentes etapas da paternidade. Um bom pai não é alguém que nunca erra. É alguém que reconhece os erros e permanece disposto a corrigi-los. Proteger uma criança não significa impedir seu crescimento. O amor paterno precisa preparar a separação futura, não criar dependência permanente.       A produção não transforma a questão racial no centro da narrativa. Essa escolha possui valor porque permite que uma família negra participe de uma história universal sem ser definida exclusivamente pelo racismo.

Mesmo apresentando um bom roteiro, atuação e direção competentes, Paternidade apresenta algumas falhas: o filme aborda pouco a dimensão financeira da criação de uma criança, a dor permanece presente, mas suas contradições são organizadas de forma conveniente para a narrativa e principalmente o arco da separação entre Matt e Maddy possui grande impacto, mas é resolvida com relativa facilidade.

A recepção foi moderadamente positiva. As atuações de Kevin Hart, Melody Hurd e Alfre Woodard receberam destaque. Os críticos favoráveis elogiaram a sinceridade, o tema familiar e a capacidade de Hart de assumir um papel mais dramático. As avaliações negativas ou medianas apontaram previsibilidade, sentimentalismo e tratamento superficial de alguns conflitos. O filme registrou aproximadamente 67% de aprovação entre os críticos no Rotten Tomatoes e 53 pontos em 100 no Metacritic, indicando avaliações mistas ou medianas.

Como Paternidade teve lançamento prioritariamente digital, não existe uma bilheteria tradicional relevante que permita comparar arrecadação e orçamento. O custo oficial de produção não foi divulgado. Também não foram tornados públicos o valor pago pela Netflix pelos direitos nem as receitas geradas individualmente pelo filme. Na época, a plataforma estimou que cerca de 74 milhões de contas assistiriam à produção durante as primeiras quatro semanas. Esse número exige uma ressalva importante: em 2021, a Netflix contabilizava como visualização qualquer conta que assistisse a pelo menos dois minutos. Portanto, 74 milhões não significa que todas essas pessoas tenham concluído o filme.

Paternidade está disponível no streaming da Netflix.

Minha nota para esse filme é: