“Só pode haver um.” Poucas frases resumem com tamanha eficiência a mitologia de um filme. Lançado em 1986, Highlander – O Guerreiro Imortal foi inicialmente recebido como uma fantasia de ação extravagante, visualmente excessiva e narrativamente confusa. Seu desempenho comercial ficou abaixo das expectativas, e as avaliações da crítica foram bastante divididas. O tempo, porém, fez muito bem ao filme. Aquilo que poderia ter sido apenas mais uma produção fantástica dos anos 1980 tornou-se obra cult, deu origem a continuações, série televisiva, desenhos, livros, histórias em quadrinhos, jogos e uma das mitologias mais reconhecíveis do cinema de fantasia.

A explicação para essa permanência não está apenas nas espadas, nas decapitações ou na trilha extraordinária do Queen. Está na maneira como o filme transforma a imortalidade, frequentemente apresentada como fantasia de poder, numa forma de condenação. Um dos pontos altos desse filme é visto pelo prisma de que Connor MacLeod não teme morrer. Teme amar. Ele já sabe que todas as pessoas que ama envelhecerão e desaparecerão diante dele. Está condenado a continuar vivendo enquanto esposas, amigos, filhos adotivos e gerações inteiras atravessam o tempo. É dessa contradição que nasce a alma de Highlander. A mesma imortalidade que permite ao herói sobreviver a batalhas também o impede de viver plenamente como homem.

O diretor Russell Mulcahy conseguiu amalgamar quase que perfeitamente história, fantasia urbana, videoclipe, romance, ação e tragédia. Nem sempre essas partes se encaixam perfeitamente. O roteiro possui algumas falhas, a mitologia permanece deliberadamente imprecisa e algumas soluções envelheceram. Contudo, o filme tem algo que muitas produções tecnicamente superiores jamais conquistam:  uma personalidade absoluta. Não existe outro filme que se pareça inteiramente com Highlander.

Connor MacLeod nasceu nas Terras Altas da Escócia em 1518. Em 1536, durante uma batalha entre os clãs MacLeod e Fraser, Connor enfrenta um guerreiro gigantesco conhecido como Kurgan. Kurgan fere Connor mortalmente. Levado de volta ao povoado, o guerreiro deveria morrer. Entretanto, recupera-se de forma inexplicável. Seus companheiros interpretam a sobrevivência como manifestação demoníaca. Em vez de celebrar sua cura, acusam-no de possuir ligação com o Diabo. Connor é espancado e expulso de sua própria terra.

Anos depois, vivendo com sua esposa Heather, conhece Juan Sánchez-Villalobos Ramírez, um imortal muito mais antigo que ele. Ramírez explica que Connor pertence a um pequeno grupo de seres humanos que não envelhecem e não podem morrer, exceto quando são decapitados. Esses imortais sentem a presença uns dos outros e, em determinado momento da História, serão conduzidos a uma grande Reunião. Ali, lutarão até que reste apenas um.

O filme é contado por meio de uma narrativa não linear. A história começa na Nova York contemporânea e somente depois retorna à Escócia do século XVI. Ao longo do filme, acontecimentos, objetos, sons e imagens transportam Connor de uma época a outra. Essa estrutura é fundamental porque o espectador não deve conhecer a vida do protagonista como sequência cronológica comum. Precisa experimentá-la como memória. Para um imortal, o passado não está completamente encerrado. Russell Mulcahy utiliza transições visuais extremamente ousadas. Uma imagem contemporânea pode fundir-se com uma paisagem escocesa; o movimento de um objeto atravessa séculos; a câmera parece penetrar num espaço e emergir em outro tempo. Algumas transições chamam mais atenção para a técnica do que para a narrativa. Ainda assim, dão ao filme sua identidade febril. O tempo em Highlander não é uma linha. É uma ferida sempre aberta.

Connor Mcleod começa sua trajetória como um jovem impulsivo, cercado pelo clã, pela família e por uma identidade comunitária. Sua primeira morte destrói tudo isso. Ao sobreviver, ele não é recebido como milagre, mas expulso como aberração. A imortalidade nasce acompanhada pela rejeição. Ao longo dos séculos, ele acumula conhecimento, riqueza, objetos e identidades. Entretanto, permanece emocionalmente preso àquilo que perdeu. Ele não coleciona apenas coisas antigas. Vive cercado por fragmentos da própria vida.

Christopher Lambert oferece uma interpretação frequentemente subestimada. Seu sotaque é irregular — consequência curiosa de um ator francês interpretando um escocês que passou séculos vivendo em diferentes lugares —, mas essa indefinição acaba servindo bem ao personagem. Christopher Lambert possui uma presença melancólica. Mesmo nas cenas de ação, há algo cansado em seu olhar. Ele transmite a impressão de alguém que viu demais. O ator também apresenta vulnerabilidade. Connor é habilidoso e poderoso, mas não parece emocionalmente invencível. Fisicamente, Christopher Lambert convence nos duelos, embora as lutas sejam construídas mais por energia visual e montagem do que por realismo técnico.

Mesmo aparecendo por um tempo relativamente limitado, Sean Connery domina o filme sempre que entra em cena. A escolha é geográfica e linguisticamente absurda: um ator escocês, utilizando praticamente seu sotaque natural, interpreta um egípcio que se apresenta como espanhol e viveu no Japão. Entretanto, Sean Connery é bom mais que o suficiente para fazer tudo funcionar. Seu personagem, Ramírez é teatral, elegante, experiente e divertido. Ele compreende o peso da imortalidade, mas não perdeu inteiramente o prazer de viver.

Clancy Brown realiza uma das interpretações mais memoráveis de sua carreira. O ator possui altura, voz e presença física capazes de tornar Kurgan ameaçador antes mesmo que utilize a espada. Na Escócia, aparece protegido por uma armadura gigantesca e um capacete elaborado, quase como criatura saída de uma lenda medieval. Em Nova York, assume aparência punk: cabeça raspada, cicatrizes, roupas de couro e alfinetes presos ao pescoço. A mudança visual mostra sua capacidade de adaptar-se ao período sem abandonar sua natureza. Clancy Brown também compreende o humor perverso do personagem. Kurgan não é silencioso ou solenemente maligno. Diverte-se com a própria crueldade.

A grande força conceitual de Highlander está na simplicidade de suas regras. Os imortais vivem entre os homens sem conhecer inicialmente a própria condição. Sua natureza se manifesta depois de uma primeira morte violenta. Após despertarem, deixam de envelhecer e recuperam-se de ferimentos. A decapitação é a única morte definitiva. Quando um imortal decapita outro, absorve sua energia por meio do Quickening ( Despertar ), uma descarga violenta que afeta o corpo e o ambiente. Mesmo sendo poderosa, Highlander falha por não explicar quase nada da mitologia de seus personagens imortais. O filme não explica: de onde os imortais vieram; por que alguns seres humanos nascem assim; quem estabeleceu as regras; por que não podem lutar em solo sagrado; como exatamente percebem a proximidade do outro; quem determina o início da Reunião ou por que todos convergem para um único lugar.

Muitas fantasias apresentam a imortalidade como realização do desejo humano de vencer a morte. Highlander pergunta o que aconteceria depois. A imortalidade retira da vida aquilo que lhe dá urgência. Os mortais precisam escolher porque possuem pouco tempo. Connor pode sempre adiar — mas não consegue impedir que o tempo dos outros termine. A cena de Heather responde definitivamente à fantasia: viver para sempre perde o sentido quando não podemos compartilhar esse “para sempre” com alguém.

Antes de Highlander, Russell Mulcahy havia se destacado principalmente como diretor de videoclipes. Essa experiência está presente em cada parte do filme. Russel Mulcahy também demonstra sensibilidade nas sequências escocesas. As paisagens recebem dimensão épica, enquanto os momentos entre Connor e Heather preservam intimidade. O filme alterna grandiosidade e melancolia. Essa combinação, acredito eu, seria muito mais difícil sob uma direção convencional. As transições são uma das maiores assinaturas formais da obra. Russel Mulcahy não utiliza o simples corte acompanhado por uma indicação de data. O passado aflora do presente. Nem todas as transições são sutis, mas quase todas são criativas.

A batalha inicial foi filmada na região de Glencoe. Eilean Donan serve como parte do povoado do qual Connor é expulso, enquanto as cenas de treinamento utilizam paisagens montanhosas da Ilha de Skye. A produção também combinou locações reais de Nova York com espaços filmados em Londres e Hertfordshire.

Os duelos apresentados não procuram mostrar um realismo histórico rigoroso. A espada de cada imortal não é apenas arma. É identidade. Alguns efeitos mostram claramente as limitações tecnológicas de 1986 e o orçamento não muito elevado da produção. A participação do Queen ultrapassa a função de trilha comercial. A banda criou canções diretamente inspiradas em personagens, cenas e ideias do filme. O álbum A Kind of Magic, lançado em 1986, tornou-se quase uma trilha não oficial de Highlander. Brian May escreveu “Who wants to live forever” depois de assistir à sequência em que Heather envelhece e morre enquanto Connor permanece jovem.

Highlander circulou pelo mundo com montagens distintas. A versão exibida nos Estados Unidos foi encurtada e reorganizada, eliminando partes que aprofundavam personagens e a passagem do tempo. A versão europeia ou internacional, normalmente considerada superior, possui aproximadamente 116 minutos e conserva cenas importantes. Entre as diferenças mais significativas está a ampliação da história de Rachel, resgatada por Connor durante a Segunda Guerra Mundial. Para uma experiência mais completa, a versão internacional é a recomendada.

A recepção inicial foi dividida e frequentemente negativa. Críticos apontaram narrativa confusa, mitologia pouco explicada, sotaques inconsistentes e excesso visual. Alguns críticos consideraram a direção próxima demais da linguagem dos videoclipes, como se isso representasse automaticamente superficialidade. Essas críticas possuem fundamento. O filme apresenta lacunas e, em vários momentos, prefere impacto a explicação. Contudo, a passagem do tempo mostrou que a força visual de Russel Mulcahy não era simples decoração. Era parte essencial da identidade da obra. O público doméstico descobriu gradualmente aquilo que a estreia não conseguiu consolidar: uma fantasia melancólica escondida dentro de um filme de ação extravagante.

O orçamento é estimado em aproximadamente US$ 16 milhões. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou cerca de US$ 5,9 milhões. A estimativa mundial registrada por bases especializadas fica em torno de US$ 12,9 milhões, abaixo do custo de produção e muito distante do necessário para cobrir distribuição e publicidade. Comercialmente falando, a estreia foi decepcionante. O desempenho, porém, não encerrou sua história. O mercado doméstico, as locações, a televisão e a circulação internacional construíram uma audiência fiel. Highlander tornou-se um exemplo clássico de filme cuja relevância não pode ser medida apenas pela bilheteria original.

O lançamento em vídeo, DVD e, alguns anos depois, em Bluray foi fundamental para o renascimento da obra. Em casa, os espectadores puderam rever as cenas, compreender melhor a cronologia, ouvir repetidamente as canções e descobrir detalhes da mitologia. A trilha do Queen também ajudou a manter o filme culturalmente vivo.

O primeiro filme encerra sua história de maneira completa. Mesmo assim, o culto gerou continuações. Highlander II – A Ressurreição tentou explicar os imortais como seres originários de outro planeta, provocando enorme rejeição. A explicação retirava o mistério espiritual e transformava a mitologia numa ficção científica confusa. Produções posteriores ignoraram ou reorganizaram acontecimentos, criando diferentes continuidades. A série de televisão, protagonizada por Adrian Paul como Duncan MacLeod, encontrou uma solução mais duradoura. Expandiu o universo, introduziu novos imortais e desenvolveu regras, histórias e conflitos ao longo de várias temporadas.

Resumindo simplificadamente: Highlander – O Guerreiro Imortal é uma obra maior do que suas imperfeições. Sua mitologia é simples, mas profundamente fértil: homens e mulheres que atravessam séculos, escondem espadas sob roupas modernas e sabem que um dia precisarão enfrentar-se até que reste somente um. Russell Mulcahy dirige com excesso, velocidade e invenção. Christopher Lambert dá ao protagonista uma melancolia fundamental. Sean Connery transforma poucos minutos numa presença inesquecível. Clancy Brown cria um dos vilões mais carismáticos dos anos 1980. O filme pode ser confuso, historicamente fantasioso e tecnicamente irregular. Mas possui convicção absoluta em seu próprio universo. Quatro décadas depois, ainda reconhecemos imediatamente suas espadas, seus relâmpagos, suas canções e suas frases.

Highlander – O Guerreiro Imortal está disponível nos seguintes serviços de streamings: Flat HD, Prime Video e Apple TV.

Minha nota para esse filme é: