Quase três décadas depois de Da Magia à Sedução, lançado em 1998, Sandra Bullock e Nicole Kidman voltam a interpretar as irmãs Sally e Gillian Owens. Esse reencontro possui, evidentemente, enorme apelo emocional. O primeiro filme jamais foi uma unanimidade crítica ou um grande acontecimento de bilheteria, mas encontrou uma segunda vida por meio do VHS, da televisão, do streaming e, sobretudo, da identificação de sucessivas gerações de mulheres com a história da família Owens. Ao longo do tempo, Da Magia à Sedução deixou de ser apenas uma fantasia romântica dos anos 1990 e tornou-se um filme cult. Sua combinação particular de magia, romance, humor, melancolia, feminilidade, irmandade e tradição familiar construiu uma relação afetiva extremamente forte com o público. Era natural, portanto, que Hollywood tentasse regressar àquele universo.

O problema de Da Magia à Sedução 2 não está na decisão de retornar. O universo criado por Alice Hoffman possui histórias, personagens e gerações suficientes para justificar uma continuação. O problema está naquilo que o filme faz com essa oportunidade. Apesar do talento de Susanne Bier, do carisma intacto de Sandra Bullock e Nicole Kidman e da força emocional associada à família Owens, o segundo filme deixa muito a desejar. É uma produção longa demais, narrativamente dispersa, excessivamente dependente da nostalgia e incapaz de apresentar uma ideia verdadeiramente nova. A continuação parece acreditar que reencontrar personagens queridos é suficiente para justificar sua existência. Não é.

O público pode sentir aquele prazer nostálgico ao rever Sally, Gillian, Frances e Jet. Pode também reconhecer objetos, rituais, ambientes e referências do original. Pode ainda emocionar-se com a passagem do tempo e com a presença das novas gerações. Entretanto, depois que o impacto do reencontro diminui, resta uma história muito familiar, sustentada por conflitos que repetem aquilo que a primeira produção já havia desenvolvido de maneira mais espontânea, íntima e eficiente. O resultado não chega a ser um desastre. Há beleza visual, atrizes carismáticas, bons momentos de interação familiar e uma mensagem válida sobre herança, luto e amor. Mas é um filme acomodado, inchado e surpreendentemente pouco mágico.

A nova história volta a acompanhar Sally e Gillian Owens, agora mulheres maduras, marcadas pelas experiências do passado e pelas responsabilidades adquiridas ao longo das décadas. O tempo passou para as personagens, para as atrizes e para o público.

A trama coloca novamente a família Owens diante de uma ameaça relacionada à antiga maldição de sua linhagem. O perigo não atinge apenas indivíduos, mas a própria continuidade familiar. As irmãs precisam reunir diferentes gerações, revisitar segredos, recuperar conhecimentos ancestrais e confrontar aspectos do passado que não foram completamente resolvidos. O filme oficializa, portanto, aquilo que o original já mostrou: a magia das Owens não pertence apenas a uma pessoa. É uma herança coletiva, transmitida entre mulheres por meio de sangue, memória, histórias e rituais.

Da Magia à Sedução 2 é claramente construído para provocar reconhecimento. O filme sabe que boa parte do público não deseja apenas uma nova aventura. Deseja encontrar a lembrança de uma casa onde mulheres de diferentes gerações viviam juntas; dos feitiços realizados na cozinha; das poções; das velas; das ervas; das histórias transmitidas oralmente; da cumplicidade entre irmãs; e da mistura de humor, romance e perigo sobrenatural.

Uma continuação realizada quase trinta anos depois precisa reconhecer a relação afetiva entre os espectadores e a obra original. Ignorar completamente esse vínculo seria igualmente equivocado. O problema começa quando o reconhecimento substitui a criação. O novo filme repete situações, atmosferas, movimentos dramáticos e símbolos como se a simples presença deles fosse suficiente para reproduzir o encanto de 1998. Existe uma diferença fundamental entre recuperar um elemento e atribuir-lhe novo significado. Em diversas passagens, a sequência não oferece uma reinterpretação. Oferece apenas uma lembrança. É como se dissesse continuamente ao espectador: “Você se recorda disso?” Sim, nós nos recordamos. Mas o que a continuação pretende acrescentar? Essa pergunta permanece sem uma resposta verdadeiramente satisfatória.

Sandra Bullock mantém o enorme poder de comunicação que sempre marcou sua carreira. Mesmo quando o roteiro oferece diálogos excessivamente explicativos, a atriz encontra pequenos gestos que dão humanidade a Sally. Sua presença traz imediatamente a lembrança do filme anterior sem que precise imitar a interpretação de 1998. A atriz também preserva o talento para a comédia física e para reações aparentemente espontâneas. Contudo, o filme utiliza esse aspecto com moderação e nem sempre encontra o equilíbrio ideal entre humor e drama. Já Gillian sempre foi o oposto complementar de Sally e Nicole Kidman interpreta a personagem com elegância e consciência do tempo decorrido. Gillian já não possui a mesma impulsividade juvenil, mas continua sendo a irmã que se move primeiro e pensa depois.

A química com Sandra Bullock ainda continua sendo o maior patrimônio da franquia. As duas não precisam de grandes discursos para convencer como irmãs. Pequenas interrupções, olhares e discordâncias carregam a intimidade de pessoas que se conhecem profundamente.  Os melhores momentos do filme acontecem quando a narrativa diminui o espetáculo e simplesmente permite que Sandra Bullock e Nicole Kidman contracenem.

A volta de Dianne Wiest e Stockard Channing como as tias Frances e Jet possui grande força nostálgica. As personagens eram fundamentais no filme original. Representavam uma forma de vida alternativa, livre das convenções impostas às mulheres da comunidade. A presença das atrizes traz humor e calor humano, mas também evidencia uma das limitações do roteiro.

Joey King e Maisie Williams representam a geração mais jovem da família. A escolha de atrizes conhecidas indica que a produção pretende expandir o universo e talvez preparar sua continuidade para além de Sally e Gillian. Elas estão presentes apenas porque a maldição precisa alcançar uma nova geração e porque Sally e Gillian precisam ser confrontadas com as consequências de suas decisões. Joey King oferece energia e vulnerabilidade. Maisie Williams imprime inteligência e inquietação. A nova geração chega, mas o filme continua emocionalmente dependente da anterior.

A maior fragilidade de Da Magia à Sedução 2 é a ausência de novidade. Não se trata de exigir que a continuação abandone tudo aquilo que caracterizava o original. O problema está em recuperar os mesmos elementos sem aprofundá-los ou reorganizá-los de maneira inesperada. O filme fala sobre quebrar ciclos, mas ele próprio não consegue romper o ciclo narrativo da franquia. Essa contradição é particularmente frustrante. Depois de quase trinta anos, seria razoável esperar uma reflexão nova sobre as mulheres Owens. Em vez disso, recebemos uma versão mais longa, mais cara e menos espontânea de conflitos que já conhecíamos.

O segundo problema mais evidente é a duração. Independentemente do tempo indicado no relógio, 130 longos minutos, o filme parece longo porque sua progressão dramática é irregular. Uma produção pode ultrapassar duas horas e manter o espectador completamente envolvido. O problema não é apenas quantos minutos existem, mas como eles são utilizados. O primeiro ato precisa reapresentar o universo, atualizar as personagens e introduzir a nova geração. Essa tarefa é compreensível, mas o roteiro não encontra uma forma orgânica de realizá-la. A parte intermediária alterna investigação, conflitos familiares, romance e manifestações sobrenaturais. Falta uma linha de tensão suficientemente forte para unir tudo. Quando o terceiro ato finalmente chega, o espectador já compreendeu a natureza geral do conflito, mas o filme continua insistindo em explicar aquilo que deveria estar tentando resolver.

Susanne Bier é uma diretora experiente, especialmente habilidosa na condução de dramas familiares e conflitos emocionais. Sua filmografia demonstra interesse por luto, culpa, relações fragilizadas e pessoas obrigadas a reavaliar aquilo que acreditavam conhecer. Essas qualidades deveriam torná-la uma escolha adequada para Da Magia à Sedução 2. O primeiro filme, dirigido por Griffin Dunne, possuía uma instabilidade tonal que recebeu críticas, mas também lhe dava personalidade. Era romance, comédia, drama doméstico, fantasia, história de irmandade e quase filme de terror. A continuação é tecnicamente mais controlada, porém bem menos viva. Susanne Bier organiza o material com competência, mas raramente produz encantamento. A direção é elegante, por vezes bonita, mas também excessivamente formal.

O primeiro Da Magia à Sedução relacionava magia e amor de forma direta. Sally desejava um homem impossível para evitar apaixonar-se de verdade. A maldição transformava o amor em ameaça. Gillian confundia paixão com liberdade e acabava presa numa relação abusiva.     O novo filme tenta atualizar essas questões por meio de diferentes gerações.

O humor sempre foi parte importante de Da Magia à Sedução. A família Owens enfrenta morte, maldição e violência, mas preserva uma forma particular de irreverência. Na continuação, o humor surge principalmente da convivência entre gerações e das reações diante de situações sobrenaturais. Algumas cenas funcionam graças ao talento de Sandra Bullock, Dianne Wiest e Stockard Channing. Há momentos em que a simples maneira de olhar ou responder produz a comicidade necessária. Porém, o filme é mais solene do que o original. A direção parece preocupada em conferir importância emocional ao reencontro e, por isso, nem sempre permite que a narrativa se torne verdadeiramente divertida.

O primeiro filme não era perfeito. Seu tom variava drasticamente, alguns efeitos envelheceram e o roteiro misturava gêneros sem completa harmonia. Mas havia personalidade. A continuação é tecnicamente mais controlada e talvez mais consciente de seus temas. Ainda assim, possui menos surpresa e menos vida. Isto posto, podemos concluir que Da Magia à Sedução 2 não é uma continuação ofensiva. É algo talvez mais frustrante: uma continuação desnecessariamente acomodada que não possui razão narrativa suficientemente forte para existir.

Minha nota para esse filme é: