
Lançado em 2011, Gigantes de Aço poderia ter sido apenas mais uma aventura tecnológica destinada ao público jovem: robôs enormes, lutas espetaculares, efeitos visuais de primeira linha e uma narrativa esportiva construída em torno de um azarão. No entanto, o diretor Shawn Levy de Deadpool e Wolverine compreendeu que nenhum espetáculo mecânico seria suficiente se, por trás do metal, não houvesse uma história genuinamente humana. O resultado é uma obra muito mais emotiva do que sua premissa inicialmente sugere. Gigantes de Aço não é, no seu cerne, um filme sobre robôs que lutam. É uma história sobre um homem derrotado, um menino abandonado e uma máquina descartada. Três personagens que, cada um à sua maneira, foram considerados imprestáveis — e que encontram uns nos outros uma possibilidade de reconstrução.
O filme combina ficção científica, drama familiar, aventura, comédia e cinema esportivo, utilizando a estrutura clássica das histórias de boxe para falar sobre paternidade, fracasso, abandono, responsabilidade, perseverança e redenção. Seu grande mérito está justamente em compreender que o verdadeiro gigante da história não é o robô mais forte, mas aquele que continua de pé depois de receber golpes que pareciam impossíveis de suportar. A história se passa em 2020 — um futuro próximo em relação ao momento em que o filme foi realizado — no qual os seres humanos já não lutam profissionalmente nos ringues. O público passou a exigir combates cada vez mais violentos, e os boxeadores foram substituídos por robôs capazes de destruir uns aos outros sem os limites físicos impostos pelo corpo humano.
Gigantes de Aço foi inspirado no conto Steel, escrito por Richard Matheson e publicado em 1956. Matheson foi um dos autores mais importantes da literatura fantástica e da ficção científica do século XX, responsável também por obras como Eu Sou a Lenda e Em Algum Lugar do Passado. O conto foi adaptado em 1963 para a série Além da Imaginação, em um episódio chamado Steel, protagonizado por Lee Marvin. Na história original, o boxe humano havia sido proibido e substituído por robôs. Quando o robô de um antigo lutador apresenta problemas, o próprio homem se disfarça de máquina para entrar no ringue e receber uma surra brutal.
Os roteiristas Richard Matheson, John Gatins e Dan Gilroy transformam uma diegese pessimista sobre a obsolescência humana em uma história de reconciliação entre pai e filho. O conceito da máquina que toma o lugar do homem continua presente, mas ganha outro significado: no filme, a máquina também oferece ao homem a oportunidade de reencontrar aquilo que havia perdido. O filme preserva a ideia fundamental de um ex-boxeador sobrevivendo em uma modalidade dominada pelas máquinas, mas modifica profundamente o material. Essa mudança foi decisiva. O roteiro transforma uma narrativa derrotista sobre a obsolescência humana em uma história de reconciliação entre pai e filho.

Charlie Kenton, interpretado por Hugh Jackman, foi um boxeador profissional que nunca chegou ao topo. No futuro apresentado pelo filme, os lutadores humanos foram substituídos por robôs, e Charlie passou a controlar máquinas em combates realizados em feiras, arenas clandestinas e pequenos eventos. Sua situação muda radicalmente quando ele descobre que sua antiga companheira morreu e que precisa comparecer a uma audiência para decidir quem ficará com Max, seu filho de 11 anos. Charlie praticamente não conhece o menino e não demonstra interesse em assumir sua criação. Charlie é o personagem mais complexo do filme. Ele não é apresentado como um herói incompreendido, mas como alguém egoísta, irresponsável e emocionalmente covarde.
Gigantes de Aço apresenta uma concepção bastante clara de paternidade. Ser pai não é apenas possuir um vínculo sanguíneo. É permanecer, orientar, proteger, reconhecer os erros e aceitar responsabilidades. Charlie é biologicamente pai de Max desde o nascimento, mas somente se torna verdadeiramente pai durante a convivência com o garoto. A cena em que Charlie devolve Max aos tios representa o momento em que ele finalmente compreende a gravidade de suas ações. Até então, considerava o acordo apenas uma negociação. Depois de criar laços com o menino, percebe que está repetindo o abandono.
A influência dos filmes de boxe, especialmente Rocky: Um Lutador, é evidente. Gigantes de Aço utiliza praticamente todos os elementos fundamentais do drama esportivo clássico. Atom é o equivalente mecânico de Rocky Balboa. Não possui a força, a velocidade ou a tecnologia do campeão, mas tem uma capacidade extraordinária de suportar golpes. Outra escolha bastante interessante feita pelo diretor Shawn Levy é que cada combate do filme cumpre uma função específica no desenvolvimento dos personagens.
Shawn Levy conduz o filme com grande clareza narrativa. Ele não tenta transformar Gigantes de Aço em uma ficção científica excessivamente complexa. O futuro é apresentado de maneira funcional e reconhecível. A decisão de manter o mundo semelhante ao presente foi acertada. Estradas, feiras, academias, cidades e relações sociais continuam familiares. A principal transformação está no esporte e na tecnologia robótica. Isso evita que o universo visual se sobreponha aos personagens. Levy sabe que o centro da história não é explicar como toda a sociedade mudou, mas mostrar como Charlie e Max mudam. Shawn Levy buscou deliberadamente o espírito dos grandes filmes familiares das décadas de 1980 e 1990: aventuras acessíveis, emotivas e sinceras, sem medo de defender valores como perseverança, família e reconciliação.
Um dos grandes acertos técnicos foi combinar robôs construídos em tamanho real com efeitos digitais. As máquinas físicas foram utilizadas em diversas cenas de interação, proporcionando aos atores referências concretas de tamanho, textura e presença. Nas lutas, os efeitos visuais assumem protagonismo. A equipe utilizou técnicas semelhantes às empregadas em produções que combinavam cenários reais e criaturas digitais. Os movimentos dos robôs foram planejados com auxílio de captura de movimento, envolvendo lutadores e especialistas em boxe. O resultado é especialmente convincente porque os robôs parecem possuir peso. Eles não se movimentam como personagens abstratos de animação. Cada golpe produz impacto, deslocamento e dano visível.
A qualidade do trabalho rendeu ao filme uma indicação ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais. A estatueta daquele ano ficou com A Invenção de Hugo Cabret e mesmo anos depois, os efeitos continuam eficientes porque não dependem apenas de brilho ou velocidade. Há boa integração entre iluminação, cenários, danos físicos, poeira, faíscas e movimentos de câmera.
Com aproximadamente 127 minutos, o filme é relativamente longo para uma aventura familiar. Ainda assim, mantém um ritmo agradável na maior parte do tempo. Algumas passagens intermediárias poderiam ser reduzidas, principalmente na transição entre as primeiras lutas. Também há soluções previsíveis no arco de ascensão de Atom. Porém, a progressão é suficientemente envolvente para impedir que a duração se torne um problema grave.
O futuro de Gigantes de Aço parte de uma ideia perturbadora: o público cansou-se dos limites humanos e passou a exigir violência maior. Os robôs permitem combates em que braços são arrancados, cabeças são destruídas e corpos são despedaçados. Como as vítimas são máquinas, a sociedade considera o espetáculo aceitável. Apesar disso, o filme não desenvolve uma crítica profunda a essa cultura. A violência é questionada apenas de maneira indireta, pois o próprio longa utiliza as lutas como principal fonte de entretenimento. Na minha opinião, isso mostra uma contradição interessante. A narrativa sugere que o público se tornou insensível e deseja destruição, mas também convida o espectador a se divertir com essa mesma destruição. A diferença estaria na emoção envolvida. As lutas vazias de significado são apenas espetáculo. Quando Atom entra no ringue, porém, os golpes passam a representar resistência, vínculo e superação. Mesmo assim, o filme poderia ter explorado melhor as consequências sociais da substituição dos atletas humanos e a dimensão ética de máquinas possivelmente conscientes sendo destruídas por entretenimento. O personagem de Hugh Jackman pertence a uma profissão que deixou de existir. Essa condição aproxima o filme de discussões cada vez mais atuais sobre automação e substituição do trabalho humano pela tecnologia.
Gigantes de Aço teve orçamento estimado em aproximadamente US$ 110 milhões. Sua arrecadação mundial chegou a cerca de US$ 299,2 milhões, sendo aproximadamente US$ 85,4 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 213,8 milhões nos mercados internacionais. No Brasil, o filme arrecadou cerca de US$ 8,2 milhões segundo os registros disponíveis. A bilheteria mundial foi respeitável, mas isso não significa necessariamente um lucro gigantesco. Além disso, o desempenho doméstico ficou abaixo do que seria esperado para iniciar imediatamente uma grande franquia. O mercado internacional foi responsável por mais de 70% da arrecadação. O filme, portanto, não foi um fracasso comercial, mas também não se transformou no fenômeno financeiro que seu potencial de franquia sugeria.

Na parte da crítica, a recepção foi mista para positiva. Muitos críticos reconheceram a previsibilidade da história, mas elogiaram a sinceridade emocional, as atuações, a relação entre pai e filho e a qualidade das lutas. A recepção popular foi, em geral, mais calorosa do que a crítica profissional. Com o passar dos anos, o filme conquistou uma base fiel de admiradores e passou a ser lembrado com afeição por pessoas que o assistiram durante a infância ou adolescência.
Gigantes de Aço utiliza uma fórmula conhecida, mas Shawn Levy a executa com competência, sinceridade e grande força emocional. Seu roteiro não é surpreendente em termos estruturais, porém entende perfeitamente como fazer o público se importar com seus personagens. A obra funciona porque não permite que os efeitos visuais substituam o coração da narrativa. Atom impressiona como criação tecnológica, mas só se torna inesquecível por representar algo maior: a possibilidade de que pessoas e sonhos descartados ainda possam encontrar um lugar no mundo. Charlie não vence ao transformar Atom em campeão. Vence quando deixa de tratar o filho como um problema e passa a enxergá-lo como parte de sua vida. Max não vence apenas porque seu robô chega ao campeonato. Vence porque finalmente encontra no pai alguém digno de sua admiração. Atom não vence oficialmente Zeus. Contudo, prova que a resistência pode ser mais inspiradora do que a força e que permanecer de pé, às vezes, constitui uma vitória maior do que receber um troféu.
Gigantes de Aço está disponível nos serviços de streaming da Apple TV e da Prime.
Minha nota para esse filme é:
