Prime Video: A Mosca

Poucos filmes compreenderam tão bem que o verdadeiro terror não está apenas na morte, mas na lenta percepção de que o corpo está deixando de nos pertencer. A Mosca, dirigido por David Cronenberg em 1986, costuma ser lembrado pelos efeitos de maquiagem, pelas deformações físicas e pelas imagens repulsivas da transformação de um cientista em inseto. Tudo isso é importante, mas representa apenas a superfície de uma obra muito mais profunda e aterradora que ainda hoje impressiona.

E um dos motivos principais é que A Mosca consegue ser, acima de tudo, uma história de amor. Mais precisamente, uma tragédia amorosa sobre duas pessoas que se encontram no momento em que uma delas está condenada a desaparecer. David Cronenberg nos faz olhar para o monstruoso sem permitir que esqueçamos o humano. Quatro décadas depois de seu lançamento, A Mosca permanece como uma das maiores obras do terror corporal, uma das melhores refilmagens da história e uma das mais dolorosas tragédias românticas do cinema moderno.

Seth Brundle ( Jeff Goldblum ) é um cientista brilhante, excêntrico e socialmente desajeitado. Durante um evento científico, conhece a jornalista Veronica “Ronnie” Quaife ( Geena Davis ) e a convida para visitar seu laboratório. Ali, revela o projeto ao qual dedicou sua vida: dois dispositivos de teletransporte, chamados telepods, capazes de desintegrar um objeto em uma cabine, transmitir suas informações e reconstruí-lo em outra. Os dois iniciam uma relação profissional que rapidamente se transforma em envolvimento amoroso.

Tomado por ciúmes e insegurança quando Veronica procura seu antigo companheiro e editor, Stathis Borans, Seth decide utilizar a máquina em si mesmo. Embriagado, entra no telepod sem perceber que uma mosca também entrou na cabine. O computador detecta dois organismos e, incapaz de reconstruí-los separadamente, funde os dois em nível genético. Inicialmente, Seth acredita que a experiência foi um sucesso completo. Sente-se mais forte, mais ágil, sexualmente mais intenso e mentalmente mais rápido. Acredita que o teletransporte purificou seu corpo. Pouco a pouco, entretanto, começam as alterações. Pelos incomuns crescem em suas costas, feridas aparecem, suas unhas caem, os dentes se soltam e sua alimentação se transforma. Seth descobre que está sendo geneticamente reorganizado.

Seth Brundle é um dos personagens mais complexos do cinema de ficção científica porque não corresponde ao estereótipo do cientista louco. Ele não quer dominar o mundo, fabricar armas ou alcançar poder político. Seu objetivo inicial é superar uma limitação física: o transporte. Ele deseja eliminar a viagem e fazer com que o corpo simplesmente apareça no destino. Antes da experiência, Seth é socialmente inseguro, mas afetuoso. Possui humor, curiosidade e capacidade de estabelecer intimidade. Sua relação com Veronica humaniza o cientista e oferece ao espectador tempo suficiente para conhecê-lo antes da transformação. Esse desenvolvimento é essencial. Se Seth fosse uma figura desagradável desde o início, sua degradação teria pouco impacto emocional. O horror funciona porque perdemos alguém de quem aprendemos a gostar.

Retro Review | A Mosca (The Fly, 1986)

Embora Seth não seja moralmente perverso, sua queda está relacionada à arrogância. A experiência humana é realizada em um momento de instabilidade emocional. Ele está alcoolizado, enciumado e ansioso para provar algo a si mesmo e a Veronica. Em vez de seguir os procedimentos científicos estabelecidos, transforma o próprio corpo em campo de teste. Seu erro não está em buscar conhecimento. Está em acreditar que sua inteligência o torna imune às consequências da imprudência.

A atuação de Jeff Goldblum é fundamental para o sucesso de A Mosca. O ator precisava interpretar várias versões do mesmo personagem. o cientista excêntrico e tímido; o homem apaixonado; o indivíduo intoxicado pela própria força; o doente tentando compreender os sintomas; o ser híbrido que ainda conserva inteligência e a criatura quase inteiramente destituída de humanidade.                A atuação não depende somente da maquiagem. Jeff Goldblum faz com que o espectador acredite realmente que a mudança ocorre de dentro para fora. Ele deveria, sem a menor sombra de dúvida, ter sido concorrente ao Oscar de melhor ator em 1987. Mas infelizmente o gênero de terror historicamente enfrentou resistência em premiações, e o trabalho de Jeff Goldblum acabou sendo associado mais aos efeitos visuais do que à extraordinária construção dramática do personagem.

 Veronica não é apenas a mulher que observa a transformação do protagonista. Ela é o centro moral e emocional do filme. Geena Davis constrói Veronica como personagem inteligente, ativa e emocionalmente complexa. Ela não abandona Seth imediatamente quando percebe as primeiras mudanças. Tenta compreender, ajudar e preservar o homem que conheceu. A atriz evita transformar a personagem em vítima passiva. Mesmo nos momentos de pânico, Veronica observa, raciocina e toma decisões. Sua reação diante da degradação de Seth mistura repulsa e sofrimento. Ela teme aproximar-se, mas sente culpa por afastar-se. A força da atuação está nessa ambivalência.

Um dos aspectos mais inteligentes do filme é a decisão de apresentar a metamorfose gradualmente. Seth não acorda subitamente como uma mosca gigante. O processo passa por diferentes estágios. Esse desenvolvimento permite que cada fase possua significado psicológico. No começo, a mutação parece vantagem. Depois, torna-se doença. Finalmente, revela-se nascimento de outra criatura.

Metade homem, metade inseto: os bastidores macabros de A Mosca - Macabra.TV

David Cronenberg tornou-se o maior representante do chamado body horror, ou horror corporal. O termo designa obras nas quais o medo nasce da transformação, invasão, deterioração ou perda de controle do corpo. Em A Mosca, o corpo não é uma estrutura segura. Pode ser desmontado, transmitido, reconstruído, combinado e reinterpretado por uma máquina. A tecnologia não produz simplesmente um acidente externo. Modifica Seth em nível genético. Esse é um princípio recorrente no cinema de Cronenberg: a ameaça não vem apenas de fora. Ela entra no organismo e torna-se inseparável dele. O terror nasce da impossibilidade de separar o invasor da vítima.

Desde o lançamento, o filme foi frequentemente interpretado como metáfora da AIDS. Essa leitura é compreensível. Produzido durante a expansão da epidemia, A Mosca apresenta um homem cuja transformação está ligada à intimidade, ao corpo, às secreções e ao medo de contaminar a pessoa amada. Cronenberg, contudo, explicou que concebia a transformação como metáfora mais ampla do envelhecimento e da mortalidade. Para ele, Brundle experimenta de maneira acelerada aquilo que todos enfrentamos: a percepção de que o corpo envelhece, se modifica e finalmente deixa de sustentar a consciência.

A transformação de Seth possui forte dimensão sexual. Depois do teletransporte, ele apresenta aumento da libido, da energia e da confiança. Inicialmente, essa intensidade parece sedutora. Veronica percebe uma versão mais física e ousada do homem. Logo, porém, a sexualidade transforma-se em compulsão e dominação. O filme associa a mutação a uma masculinidade descontrolada. A força física é interpretada como superioridade, e a recusa de Veronica passa a ser vista como obstáculo.

A Mosca apresenta uma questão extremamente dolorosa: até onde vai a obrigação de cuidar de alguém que amamos? Veronica acompanha Seth quando ele ainda consegue comunicar medo e vulnerabilidade. Entretanto, a doença não elimina o perigo. Compreender a origem de uma violência não significa aceitar ser vítima dela. Quando Seth tenta obrigá-la a participar da fusão, ultrapassa definitivamente o limite entre sofrimento e agressão. O filme reconhece que compaixão não exige autodestruição. Veronica pode amar Seth e, ao mesmo tempo, fugir dele.

Em "A Mosca" (1986), a mosca pobre não tem nenhuma fala, e mal aparece no  filme. Em vez disso, o diretor decidiu mostrar um monte de cenas com Jeff  Goldblum e Geena

A Mosca não apresenta a ciência como intrinsecamente maligna. Os telepods funcionam. A descoberta de Seth é extraordinária e poderia transformar a humanidade. O desastre não acontece porque a ciência é proibida ou porque o conhecimento deve permanecer limitado.         A tragédia ocorre por causa da combinação entre tecnologia, falha humana e falta de controle. A máquina obedece àquilo que foi programada para fazer. Ao detectar dois organismos, tenta encontrar uma solução lógica para reconstruí-los. O problema é que lógica computacional e integridade humana não são necessariamente a mesma coisa. O computador não possui conceito moral de indivíduo. Para ele, dois organismos podem ser combinados em um terceiro. A tecnologia realiza com perfeição uma interpretação equivocada.

Cronenberg dirige o filme com notável equilíbrio entre frieza científica e emoção. Cronenberg também demonstra extraordinária disciplina narrativa. Com apenas 96 minutos, o filme constrói personagens, estabelece o romance, explica a tecnologia e desenvolve toda a metamorfose sem parecer apressado. Não existem grandes desvios. Cada cena contribui para o avanço científico, emocional ou físico da história.

O primeiro roteiro foi escrito por Charles Edward Pogue ( Morto Ao Chegar ). Cronenberg posteriormente realizou uma ampla reformulação, preservando a premissa central e acrescentando seus temas pessoais. A estrutura é admiravelmente econômica. Praticamente toda a narrativa concentra-se em três personagens e poucos ambientes. O filme poderia ter seguido o caminho de uma ficção científica grandiosa, mostrando governos, corporações ou militares disputando a invenção. Em vez disso, transforma o teletransporte em centro de um drama íntimo. O texto também combina humor e tragédia. Seth continua fazendo comentários irônicos mesmo enquanto seu corpo se desfaz. Esse humor não reduz o horror; revela seu esforço para manter alguma distância intelectual da própria condição.

Os efeitos de Chris Walas Arachnophobia e A Mosca 2 ) e Stephan Dupuis (  Robocop e O Homem Sem Face )   constituem uma das maiores realizações da história da maquiagem cinematográfica. A transformação foi concebida em estágios. Cada fase precisava preservar elementos de Jeff Goldblum e, ao mesmo tempo, demonstrar que outra criatura estava emergindo. A decisão de utilizar efeitos físicos produz uma sensação de peso e presença que ainda impressionam até hoje. Chris Walas e Stephan Dupuis venceram o Oscar de melhor maquiagem em 1987.

Comentários com Spoilers.

O final é extraordinário porque resolve o conflito sem oferecer vitória. Veronica não salva Seth. Seth não recupera a forma humana. A invenção não é corrigida. A criança permanece cercada de incerteza. Stathis está mutilado. E o único gesto possível é encerrar o sofrimento. Veronica atira porque ainda o ama.

A Mosca foi produzido pela Brooksfilms, companhia ligada a Mel Brooks, um dos gênios da comédia do cinema moderno. Seu nome não recebeu destaque na divulgação, em parte para evitar que o público interpretasse o filme como uma comédia. A produção ofereceu a David Cronenberg recursos para realizar uma obra de maior alcance comercial sem obrigá-lo a abandonar suas obsessões autorais. O resultado é raro: um filme profundamente pessoal que também funciona como entretenimento popular.

O orçamento costuma ser estimado em aproximadamente US$ 15 milhões. O filme estreou nos Estados Unidos em 15 de agosto de 1986 e liderou as bilheterias em seu primeiro fim de semana, arrecadando cerca de US$ 7 milhões. Ao final de sua trajetória comercial, alcançou aproximadamente US$ 40,45 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 60,62 milhões mundialmente. Foi, portanto, um sucesso comercial expressivo, especialmente considerando seu conteúdo grotesco, sua classificação adulta e sua abordagem trágica.

A Mosca recebeu avaliações muito positivas e rapidamente foi reconhecido como uma rara combinação de terror, drama, romance e ficção científica. O Oscar de maquiagem confirmou a excelência técnica, mas o filme merecia reconhecimento mais amplo, especialmente nas categorias de ator, atriz, direção, roteiro adaptado, trilha sonora e design de produção. A resistência das grandes premiações ao terror limitou sua presença naquele circuito. Com o passar do tempo, porém, sua reputação aumentou.

A Mosca é muito mais do que um filme sobre um cientista transformado em inseto. É uma tragédia sobre a consciência aprisionada em um corpo que se modifica contra sua vontade. David Cronenberg transforma uma história clássica de ficção científica em reflexão sobre envelhecimento, doença, sexualidade, dependência, identidade, tecnologia, maternidade e morte. Jeff Goldblum oferece uma atuação extraordinária porque faz de Seth Brundle um homem fascinante antes de torná-lo monstruoso. Geena Davis fornece o centro emocional da narrativa, representando o amor que tenta resistir à degradação, mas precisa reconhecer seus próprios limites. Os efeitos de maquiagem permanecem impressionantes, mas sua verdadeira função não é produzir nojo. Eles materializam o desaparecimento progressivo de uma pessoa.

A Mosca está disponível no serviço de Streaming da Disney +

Minha nota para esse filme é: