
Existem filmes que procuram conquistar o público por meio da lógica, da verossimilhança e de uma narrativa rigorosamente organizada. Outros preferem abraçar o absurdo, aumentar progressivamente a escala dos acontecimentos e convidar o espectador a embarcar em uma experiência na qual a imaginação importa mais do que qualquer compromisso com o realismo. O Fim da Rua pertence claramente ao segundo grupo.
A produção dirigida e escrita pelo pouco conhecido e talentoso David Robert Mitchell (O Mistério de Silver Lake) em seu 4º trabalho para os cinemas, começa com elementos relativamente conhecidos: uma família norte-americana vivendo nos anos 1980, um casamento atravessando dificuldades, dois filhos adolescentes e uma vizinhança suburbana aparentemente tranquila. Entretanto, essa normalidade é violentamente interrompida quando um fenômeno inexplicável arranca Oak Street de sua realidade e transporta toda a rua para um território dominado por criaturas pré-históricas. A partir dessa premissa, o filme reúne drama familiar, ficção científica, aventura de sobrevivência, suspense, ação, humor e monstros gigantes. É uma mistura arriscada, exagerada e assumidamente fantasiosa. Justamente por isso, não deverá provocar reações moderadas. Quem exigir explicações científicas minuciosas, absoluta coerência física ou uma narrativa permanentemente séria poderá rejeitá-lo. Quem aceitar o pacto proposto pelo diretor encontrará uma aventura extremamente divertida, inventiva e cheia de personalidade. Eu pertenço ao segundo grupo.
O Fim da Rua me conquistou porque não demonstra vergonha da própria extravagância. Ele sabe que sua premissa é absurda e transforma esse absurdo em energia cinematográfica. Em vez de pedir desculpas pela mistura de gêneros, mergulha completamente nela. Essa é a primeira característica marcante de O Fim da Rua: sua natureza híbrida. A obra parece reunir influências de diferentes tradições do cinema popular: aventura familiar dos anos 1980; os filmes de viagem no tempo; o cinema de sobrevivência e, evidentemente, as aventuras com dinossauros. Essa mistura poderia resultar em uma obra desorganizada. Em muitos momentos, o filme realmente caminha próximo do excesso. Entretanto, é justamente essa instabilidade que lhe confere personalidade. David Robert Mitchell não deseja realizar apenas outro filme sobre dinossauros. Também não pretende entregar um drama doméstico convencional com criaturas pré-históricas utilizadas como decoração. Sua proposta é fazer com que o fantástico invada completamente o cotidiano.
A imagem de uma rua suburbana dos anos 1980, com suas casas, automóveis e objetos banais, lançada em meio a uma paisagem pré-histórica sintetiza a essência do longa. Dois mundos incompatíveis são obrigados a ocupar o mesmo espaço. É dessa albaroação entre esses universos que surge a diversão. A escolha da década de 1980 não é meramente estética. Ela permite que o filme dialogue com uma tradição específica do cinema norte-americano: histórias nas quais acontecimentos extraordinários invadem bairros aparentemente comuns. O Fim da Rua recupera esse espírito de aventura. Sua ambientação remete a uma época na qual os personagens não podiam recorrer a telefones celulares, internet, satélites particulares ou pesquisas instantâneas. Diante do inexplicável, eles precisam observar, improvisar, discutir e principalmente, correr.

A limitação tecnológica aumenta o sentimento de isolamento. Mesmo que os personagens compreendam que foram deslocados de sua realidade, não existe um aplicativo capaz de indicar onde estão ou como poderão retornar. Ao mesmo tempo, o filme não pretende apenas imitar as produções dos anos 1980. Ele utiliza a nostalgia como ponto de partida, mas combina aquele espírito de aventura com recursos técnicos contemporâneos, uma escala visual muito maior e uma sensibilidade moderna em relação aos conflitos familiares. O título O Fim da Rua possui, assim, um sentido que vai além da localização geográfica. É o fim de uma normalidade. É o ponto em que a civilização conhecida termina e começa o território do imprevisível.
Anne Hathaway ocupa uma posição central na obra. Denise não é apenas a mãe assustada colocada em perigo para ser resgatada. Ela participa ativamente da compreensão da ameaça e da proteção da família. A atriz possui uma qualidade especialmente útil para esse tipo de produção: consegue transitar entre emoção, humor, incredulidade e ação sem parecer pertencer a filmes diferentes. Hathaway entende o tom da obra. Ela não trata a premissa como uma piada permanente, mas também não tenta conferir solenidade artificial a cada situação. Anne Hathaway transmite a transformação da personagem por meio da postura, da expressão e da energia física. A mulher inicialmente presa às frustrações do cotidiano precisa responder rapidamente a uma realidade que não admite hesitação. E o mais interessante é que a personagem conserva sua humanidade. Denise sente medo, comete erros e não possui respostas prontas.
Ewan McGregor é um ator naturalmente carismático e encontra em Greg, seu personagem, um papel adequado à sua capacidade de combinar vulnerabilidade, humor e heroísmo. Greg não é apresentado como um herói de ação tradicional. Ele é um pai e marido em crise, obrigado a enfrentar uma situação para a qual nenhum adulto comum estaria preparado. Essa inadequação produz parte do humor do filme. Ewan McGregor evita transformar Greg em caricatura, mesmo quando a situação se torna deliberadamente absurda.
É inevitável que qualquer nova produção envolvendo dinossauros seja comparada a Jurassic Park. O clássico de Steven Spielberg estabeleceu um padrão técnico, narrativo e emocional que continua influenciando o gênero. O Fim da Rua, entretanto, parte de uma lógica diferente. Em Jurassic Park, os seres humanos recriam os dinossauros por meio da tecnologia e sofrem as consequências de sua arrogância. Em O Fim da Rua, é a civilização humana que invade — ainda que involuntariamente — o território pré-histórico. Essa inversão é essencial a trama. Os animais não são monstros criados em laboratório nem vilões conscientes. São organismos agindo de acordo com a própria natureza. Os intrusos são os habitantes de Oak Street.
Embora a ficção científica, a ação e o suspense estejam muito presentes, O Fim da Rua é, acima de tudo, divertidíssimo. O humor nasce principalmente do choque entre a normalidade doméstica e a situação impossível. Objetos comuns precisam adquirir novas funções. Hábitos suburbanos tornam-se inúteis. Discussões familiares são interrompidas por ameaças gigantescas. O humor não depende apenas de piadas verbais. Ela surge da montagem, das reações, do contraste visual e do comportamento dos personagens diante do absurdo.
David Robert Mitchell infere uma nova ótica a uma produção de escala muito maior do que os prévios filmes dirigidos por ele. O diretor começa pela estranheza suburbana, passa pelo fenômeno cósmico e finalmente mergulha na aventura pré-histórica. A geografia visual ajuda o público a compreender o tamanho do deslocamento. J. J. Abrams atua como produtor, não como diretor. E mesmo assim, sua presença pode ser percebida na estrutura conceitual do projeto. J. J. Abrams construiu grande parte de sua carreira ao redor de mistérios, eventos inexplicáveis, famílias submetidas ao extraordinário e personagens comuns confrontados por fenômenos de grande escala. Há também uma clara afinidade com a aventura de espírito juvenil e com o cinema fantástico dos anos 1980.
A fotografia de Michael Gioulakis tem papel decisivo na construção do contraste entre o subúrbio e o mundo pré-histórico. A produção foi concebida para exibição em IMAX, o que indica a intenção de explorar dimensões, profundidade de campo e impacto visual. O formato faz sentido porque a premissa depende da percepção de grandeza: não basta mostrar um dinossauro; é necessário fazer o público sentir o tamanho dele em relação à fragilidade dos personagens. Não sei se haverá alguma sessão nesse formato, devido ao sucesso de A Odisseia de Christopher Nolan que está ocupando quase todas as salas nesse formato. Tive o privilégio e a sorte de poder comparecer a cabine exibida nesse formato.
Outro ponto que não pode ser esquecido é a montagem de John Axelrad que consegue equilibrar aventura familiar, mistério, ação, humor e espetáculo. O filme não pode revelar a ameaça cedo demais, mas também não pode prolongar indefinidamente a preparação. Precisa estabelecer os conflitos familiares, provocar estranheza, apresentar o evento cósmico e acelerar a narrativa depois do deslocamento.
O Fim da Rua não tem meio-termo porque exige a aceitação de uma combinação muito particular de camadas. Em um momento, estamos diante de uma crise conjugal. Em outro, de um mistério cósmico. Pouco depois, acompanhamos dinossauros, perseguições, humor doméstico e aventura familiar. Acredito que alguns espectadores poderão considerar essa mistura empolgante. Outros a interpretarão como falta de unidade.
O orçamento tem sido estimado em aproximadamente US$ 85 milhões, valor considerável para uma aventura original que não deriva diretamente de uma franquia estabelecida. Acredito que O Fim da Rua não irá gerar o lucro esperado. Assim como também não deverá terminar sua carreira tanto doméstica quanto internacional gerando prejuízo. Assim espero.
Mesmo tendo adorado o filme, é possível reconhecer pontos que poderão afastar parte do público: o primeiro é o excesso. Há muitas ideias, gêneros e mudanças de tom. Nem todas necessariamente possuirão o mesmo desenvolvimento. O segundo é a inevitável comparação com Jurassic Park. Qualquer obra com dinossauros realistas enfrentará esse fantasma, mesmo quando sua proposta for diferente. O terceiro é a simplicidade do arco familiar. A ideia de uma família em crise que precisa unir-se diante do perigo é conhecida e poderá ser considerada previsível. O quarto é o funcionamento do mistério. Espectadores atraídos pelas perguntas talvez exijam respostas mais detalhadas do que o filme pretende oferecer. Essas fragilidades não anulam a experiência. Pelo contrário, ajudam a explicar por que não haverá consenso.
O Fim da Rua é uma aventura assumidamente absurda, grandiosa, nostálgica e extremamente divertida. O filme mistura crise conjugal, drama familiar, ficção científica, viagem temporal, suspense, humor e dinossauros sem demonstrar qualquer receio de parecer exagerado. David Robert Mitchell utiliza uma premissa espetacular para falar sobre algo bastante simples: uma família que precisa reaprender a permanecer unida. Não considero O Fim da Rua uma produção destinada a agradar indistintamente. O filme possui uma identidade muito específica, uma combinação arriscada de gêneros e uma disposição quase infantil — no melhor sentido — para transformar o impossível em espetáculo.
Quem resistir à premissa talvez rejeite tudo. Quem aceitar o convite poderá encontrar uma das aventuras mais deliciosamente extravagantes do ano. Eu aceitei. E adorei. O Fim da Rua não procura ser discreto, realista ou consensual. Procura proporcionar aventura, surpresa, emoção e diversão. Nesse objetivo, para mim, acerta plenamente.
Minha nota para esse filme é:
