O Mentiroso - Prime Video

O Mentiroso é frequentemente lembrado como uma comédia física construída para explorar a extraordinária elasticidade corporal e facial de Jim Carrey. Entretanto, por trás das caretas, quedas e explosões verbais, existe uma história sobre ética, responsabilidade paterna, prioridades profissionais e o uso da mentira como ferramenta de adaptação social. Produzido no auge da popularidade de Jim Carrey, O Mentiroso tornou-se um enorme sucesso comercial. O filme arrecadou aproximadamente US$ 181,4 milhões nos Estados Unidos e Canadá, mais US$ 121,3 milhões internacionalmente, chegando a US$ 302,7 milhões mundiais.

O filme parte de uma premissa fantástica extremamente simples: Fletcher Reede, advogado bem-sucedido e mentiroso compulsivo, fica impossibilitado de mentir durante 24 horas depois que seu filho deseja que ele diga apenas a verdade. A resposta oferecida pelo filme não é singularmente moralista. Fletcher sofre não apenas porque deixou de mentir, mas porque perdeu a capacidade de controlar a linguagem. Ele não consegue permanecer em silêncio, suavizar opiniões, omitir informações ou formular respostas diplomáticas. A verdade transforma-se em compulsão. Fletcher não conta apenas mentiras ocasionais. Ele estruturou a personalidade, a carreira e as relações por meio delas. Sua habilidade profissional consiste em reorganizar fatos para produzir versões convenientes. Essa mesma lógica é aplicada à vida pessoal. Ele mente para ex-esposa, para o filho Max, para colegas, para clientes e para si próprio.

O filme poderia assumir uma moral simplista: mentir é ruim e dizer a verdade é bom. Entretanto, seu próprio axioma produz um resultado bem mais interessante. Fletcher diz verdades que humilham pessoas, revelam intimidades e destroem relações profissionais. Isso ocorre porque sinceridade sem empatia pode transformar-se em violência. A honestidade moral exige mais do que declarar tudo o que pensamos. Durante a “maldição”, Fletcher não é exatamente honesto: está apenas privado da capacidade de mentir. A honestidade verdadeira somente aparece no aeroporto, quando já poderia voltar a enganar, mas decide assumir seus erros.

O Mentiroso foi construído para explorar diferentes formas de humor associadas a Jim Carrey. Carrey modifica o rosto de maneira extrema. Olhos, boca e sobrancelhas parecem funcionar de modo independente. Quedas, contorções, golpes e movimentos exagerados transformam o ator em uma figura quase animada. Muitas piadas não dependem do que acontece, mas da resposta física de Fletcher ao perceber que terá de dizer a verdade. A atuação de Jim Carrey é extremamente vasta, mas não completamente descontrolada. O diretor  Tom Shadyac organiza sua energia dentro de objetivos dramáticos precisos.

Entre 1994 e 1997, Jim Carrey tornou-se um dos maiores astros da comédia mundial, com filmes como: Ace Ventura, O Máskara, O pentelho e Debi e Lóide. Em vários desses trabalhos, o ator interpretava figuras excêntricas desde o início. Em O Mentiroso, porém, existe uma transição mais clara entre personagem cômico e homem emocionalmente vulnerável. Fletcher começa como uma figura exagerada, mas o conflito com Max permite que Carrey revele tristeza, culpa e desespero. A produção antecipa a ampliação dramática que se tornaria ainda mais evidente em O Show de Truman, lançado no ano seguinte.

Tom Shadyac já havia dirigido Jim Carrey em Ace Ventura. A parceria permitiu ao cineasta compreender como enquadrar e organizar a energia do ator. Shadyac não busca sofisticação visual. Sua prioridade é clareza, ritmo e desempenho. A câmera raramente compete com Carrey, deixando-o livre para fazer o que ele, a época sabia fazer como ninguém.

O roteiro de Paul Guay e Stephen Mazur funciona muito bem porque eles desenvolvem uma premissa de alto conceito: uma ideia facilmente resumida e capaz de gerar inúmeras situações. A principal fragilidade é a transformação rápida. Um padrão de comportamento construído durante anos parece corrigido em apenas um dia. O filme tenta compensar isso com o epílogo.

A montagem de Don Zimmerman é essencial para o ritmo. O filme possui apenas cerca de 86 minutos e avança rapidamente, sem longas interrupções. Até 95-100 minutos o resultado seria igualmente satisfatório. Mais tempo que isso o filme se tornaria chato e cansativo. A montagem também controla a intensidade física de Carrey. Em vez de fragmentar excessivamente seus movimentos, muitas cenas permanecem tempo suficiente no mesmo enquadramento para demonstrar que é o ator quem executa a performance.

O Mentiroso utiliza uma visão caricatural do sistema jurídico. Fletcher parece acreditar que ser bom advogado significa vencer a qualquer custo. O filme não condena a advocacia em si. Critica a separação entre competência técnica e responsabilidade ética. Ao vencer o processo de Samantha, Fletcher realiza seu melhor desempenho profissional e seu pior ato moral. Essa contradição mostra que eficiência não é sinônimo de justiça. Naturalmente, os procedimentos apresentados são simplificados para fins cômicos. Não se deve interpretar o filme como reprodução fiel do direito de família ou das práticas judiciais.

O Mentiroso está disponível nos streamings da Tele Cine e da Globoplay.

Minha nota para esse filme é: