Quarenta anos depois de sua estreia, Aliens – O Resgate permanece como uma das raras continuações que não simplesmente preservaram a força do filme original, mas conseguiram ampliar seu universo, modificar seu gênero e encontrar uma identidade própria. James Cameron não tentou repetir a experiência de Ridley Scott. Se Alien– O Oitavo Passageiro era essencialmente uma história de terror claustrofóbico ambientada no espaço, Aliens – O Resgate transformou aquele pesadelo solitário numa guerra de sobrevivência, sem abandonar o suspense, a angústia e o horror corporal que definiam a criação original.

Além de um excelente filme de ficção científica, James Cameron conseguiu amalgamar também entregar um filme de guerra, aventura militar, terror, drama psicológico e também uma diegese sobre maternidade. Por trás dos rifles, explosões e criaturas, existe uma história profundamente humana sobre trauma, perda, reconstrução emocional e a decisão de enfrentar aquilo que nos destruiu.

O primeiro grande acerto de James Cameron foi entender que seria impossível reproduzir o impacto original de Alien– O Oitavo Passageiro apenas acrescentando outra criatura dentro de outra nave. O público já conhecia o monstro, sabia como ele nascia, como atacava e qual era sua aparência. O mistério havia sido parcialmente desfeito. James Cameron resolveu esse problema com uma escolha ao que tudo indica bastante simples, e também extremamente inteligente: se um único alienígena aterrorizou sete tripulantes, o que aconteceria quando dezenas deles enfrentassem um grupo de soldados fortemente armados?

Todavia, não se trata apenas de multiplicar monstros e armas. Ridley Scott trabalhou com a impotência: pessoas comuns eram caçadas por algo incompreensível. James Cameron começa com a ilusão de poder. Os fuzileiros coloniais chegam a LV-426 convencidos de que possuem treinamento, armamento e experiência suficientes para dominar qualquer situação. A arrogância militar é destruída logo no primeiro confronto.

Sigourney Weaver retorna como Ellen Ripley totalmente devastada pelos acontecimentos do primeiro filme. Ela desperta da hibernação traumatizada, desorientada e socialmente deslocada. Sofre pesadelos, revive mentalmente os acontecimentos da Nostromo e não consegue convencer ninguém da gravidade da ameaça. Essa abordagem é fundamentalmente essencial. Ela não retorna ao planeta porque deixou de sentir medo. Ela retorna apesar do medo. O verdadeiro heroísmo de Ripley está em sua capacidade de agir mesmo emocionalmente fragilizada. Em Alien– O Oitavo Passageiro Ripley sobrevive principalmente por inteligência, prudência e disciplina. Em Aliens – O Resgate , essas características permanecem, mas são acompanhadas por uma dimensão afetiva. Ela se transforma em líder porque consegue observar a realidade com mais clareza que os militares e porque coloca a sobrevivência humana acima de hierarquias e interesses corporativos. Sua autoridade é conquistada de forma progressiva. Quando os fuzileiros entram em pânico no primeiro ataque, é Ripley quem assume o controle do veículo e os resgata. Quando Gorman não sabe comandar, ela toma decisões. Quando Newt é capturada, Ripley não aceita abandoná-la. Sua liderança nasce da responsabilidade, não da patente.

Outro ponto a ser louvado em Aliens – O Resgate é a relação entre Ripley e a única sobrevivente encontrada no Planeta LV-426, a jovem Newt. O vínculo entre Ripley e Newt constitui o centro emocional da narrativa. Ambas sobreviveram ao contato com o monstro, perderam suas famílias e foram desacreditadas ou incompreendidas pelos adultos.

A equipe dos fuzileiros é outro show aparte em Aliens – O Resgate.Eles são apresentados como uma força de elite: barulhentos, armados, confiantes e habituados à guerra. Hudson, Vasquez, Hicks, Apone e os demais parecem inicialmente invencíveis. James Cameron utiliza de forma adrede referências de filmes sobre a Guerra do Vietnã. Uma potência tecnológica chega a um território desconhecido acreditando que seu poder de fogo garantirá a vitória. O inimigo, porém, domina o ambiente, ataca de posições invisíveis e destrói a vantagem militar. O primeiro confronto sob o processador atmosférico é um aviltamento estratégico. Os soldados entram num espaço onde não podem utilizar suas armas principais, perdem o controle da formação e são atacados de todos os lados. A tecnologia “de ponta” que deveria protegê-los torna-se inútil.

Mais um acerto de James Cameron: A mudança de foco no comportamento do Androide. Lance Henriksen constrói uma figura serena, educada e levemente estranha. O espectador permanece desconfiado porque Cameron explora nossa memória do filme anterior. Bishop é artificial, mas demonstra lealdade, coragem e senso de dever.

James Cameron conduz o filme por meio de uma escalada extremamente calculada. Durante quase uma hora, os alienígenas aparecem pouco. O diretor permite que o público conheça a equipe, explore a colônia abandonada e perceba os sinais da tragédia. A tensão nasce da espera. Portas abertas, corredores vazios, objetos infantis, barricadas destruídas e marcas de ácido contam o que aconteceu sem a necessidade de longas explicações. James Cameron também utiliza o espaço com precisão. O espectador entende onde estão as portas, os corredores, as torres automáticas e os pontos de acesso. Essa clareza geográfica torna o suspense mais eficiente, pois sabemos de onde o perigo pode chegar.

A fotografia de Adrian Biddle utiliza miniaturas, retroprojeções, animatrônicos, cenários físicos e composição óptica que continuam impressionantes porque foram fotografados com atenção à escala e à iluminação. James Cameron sabia que o espectador não precisava ver tudo claramente. Movimento, fumaça, cortes rápidos e luz intermitente completam a ilusão. As filmagens foram realizadas principalmente na Inglaterra e enfrentaram dificuldades significativas. A produção passou por tensões entre Cameron e parte da equipe britânica, além da substituição de James Remar por Michael Biehn no papel de Hicks.

A Rainha Alien foi uma das grandes realizações práticas do cinema dos anos 1980. Concebida por James Cameron e realizada pela equipe de Stan Winston, a criatura combinava mecanismo, operadores internos, cabos e manipulação externa. A grandeza do efeito prático está na presença física. Sigourney Weaver realmente contracena com uma estrutura em tamanho real. A luz incide sobre superfícies concretas, os movimentos deslocam o ar e a criatura ocupa o mesmo espaço dos atores. Isso concede ao confronto final uma materialidade que muitos efeitos digitais posteriores até hoje não conseguem reproduzir.

James Horner compôs a trilha sob condições difíceis e com pouco tempo, o que provocou conflitos com James Cameron. Ainda assim, a música tornou-se marcante, combinando percussão militar, metais, suspense eletrônico e passagens emocionais. O filme venceu o Oscar de Edição de Efeitos Sonoros e também o de Efeitos Visuais. Ao todo, recebeu sete indicações, incluindo Melhor Atriz para Sigourney Weaver, montagem, direção de arte, trilha sonora e som. A nomeação de Sigourney Weaver foi particularmente relevante porque atuações em filmes de ação, terror e ficção científica raramente eram reconhecidas nas categorias principais.

Como foi lançado há 40 anos, existem algumas divergências sobre os custos de produção e arrecadação dessa produção, precipuamente sobre o mercado internacional. O orçamento é geralmente estimado entre US$ 17 milhões e US$ 18,5 milhões. Nos Estados Unidos e Canadá, o filme arrecadou aproximadamente US$ 85,1 milhões. As estimativas mundiais variam de cerca de US$ 131 milhões a US$ 183,3 milhões, dependendo da fonte e da contabilização dos mercados internacionais. O site The Numbers registra orçamento de US$ 17 milhões e arrecadação mundial próxima de US$ 183,3 milhões.

Não podemos evitar comparações e argumentos sobre qual dos dois filmes é melhor: Alien – O Oitavo Passageiro ou Aliens – O Resgate. Isso vai depender da experiência cinematográfica procurada pelo espectador. Alien – O Oitavo Passageiro é mais elegante, misterioso e aterrorizante. Aliens – O Resgate é mais emocional, expansivo e eletrizante. O primeiro aperfeiçoa o terror; o segundo aperfeiçoa a aventura de ação sob pressão.

A influência de Aliens – O Resgate atravessa o cinema, a televisão e o mundo dos games. A ideia de soldados futuristas entrando numa instalação abandonada, encontrando sinais de massacre e sendo atacados por criaturas influenciou diretamente títulos como Doom, Halo, Gears of War, StarCraft e inúmeros jogos de ação e sobrevivência.

Em resumo: Aliens – O Resgate é uma obra-prima porque une espetáculo e humanidade. Suas sequências de ação são exemplares, seus efeitos resistiram ao tempo e sua construção de suspense continua sendo estudada, mas o filme sobreviveria muito menos se não existisse a relação entre Ripley e Newt. E quarenta anos depois, Aliens – O Resgate continua sendo um dos maiores filmes de ação e ficção científica já realizados — uma continuação que respeita o original sem viver à sua sombra, um espetáculo que possui ideias e um filme de guerra cujo coração é a história de duas pessoas feridas que decidem formar uma família.

Aliens – O Resgateestá disponível nos seguintes serviços de streaming: Disney+ e HBO Max.

Minha nota para esse filme não poderia ser outra senão: