
Quatro anos após Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, Homem-Aranha: Um Novo Dia assume uma missão difícil: continuar uma história que havia terminado com uma das decisões mais dolorosas da trajetória cinematográfica de Peter Parker. No encerramento de Sem Volta para Casa, o mundo esqueceu a existência de Peter Parker. MJ e Ned permaneceram vivos, mas todas as lembranças que possuíam do amigo foram apagadas. Tia May morreu, Happy Hogan deixou de reconhecê-lo e o jovem terminou sozinho em um pequeno apartamento, confeccionando o próprio uniforme e tentando reconstruir a vida. Essa nova aventura compreende que esse desfecho não poderia ser tratado como simples ponto de partida para outra aventura. O esquecimento coletivo não foi apenas uma alteração mágica na continuidade: foi a destruição social de Peter Parker.
Destin Daniel Cretton substitui Jon Watts na direção e procura amadurecer o personagem. O Peter que encontramos já não é o adolescente deslumbrado com os Vingadores. É um homem que transformou o heroísmo em ocupação integral porque não sabe mais como viver fora da máscara. Cretton também dedica mais tempo ao rosto de Peter. A máscara continua central, mas o diretor compreende que a história depende da solidão visível de Tom Holland.O resultado é uma produção ambiciosa e emocionalmente consistente, ainda que prejudicada pelo excesso de personagens, pela duração elevada e pela obrigação de preparar diferentes setores do Universo Cinematográfico Marvel. Quando se concentra na solidão de Peter, na relação interrompida com MJ e Ned e no conflito ideológico com o Justiceiro, o filme encontra sua identidade, mas quando tenta estabelecer simultaneamente os mutantes, o futuro do Controle de Danos e as próximas crises cósmicas, aproxima-se novamente da saturação característica das produções mais inchadas do MCU.
O título pode ser traduzido como “um novo dia”, indicando recomeço, reconstrução e possibilidade de mudança. Entretanto, o título possui um caráter deliberadamente irônico. Para Peter, um novo dia não começa com esperança, mas com apagamento. Ele possui lembranças de pessoas que não sabem quem ele é. O título também remete a uma fase controversa das histórias em quadrinhos iniciada depois de One More Day (Um dia a mais). Nesse arco de história, aspectos fundamentais da vida de Peter, principalmente seu casamento com Mary Jane, foram alterados magicamente. Um Novo Dia apresentou então uma nova condição para o herói, novamente solteiro e com sua identidade secreta restaurada. O filme não adapta diretamente essas histórias, utiliza uma ideia semelhante: Peter precisa viver dentro de uma realidade reorganizada por magia, na qual suas relações anteriores foram apagadas ou modificadas.

Quatro anos se passaram desde o feitiço do Doutor Estranho. Essa passagem temporal permite que Tom Holland deixe definitivamente para trás a interpretação adolescente e apresenta sua interpretação mais madura de Peter Parker. Seu Peter está mais forte, habilidoso e disciplinado, mas também emocionalmente exausto. A energia juvenil continua presente em momentos de humor e ação, mas agora existe um peso emocional maior. Peter movimenta-se como alguém experiente quando está mascarado e como alguém deslocado quando precisa interagir sem o uniforme. Ele tomou uma decisão difícil e radical: em vez de reconstruir a vida pessoal, passou a existir apenas como Homem-Aranha. A máscara tornou-se refúgio, identidade e justificativa para o isolamento. Essa escolha parece a principio, altruísta. Peter acredita que, permanecendo distante, protegerá MJ e Ned dos perigos associados a ele. Entretanto, a narrativa demonstra que também existe covardia nessa decisão. Ele teme ser rejeitado, teme descobrir que os amigos construíram uma vida melhor sem ele e, principalmente, teme sofrer outra perda. Ser o Homem-Aranha converteu-se em mecanismo de fuga. Salvar desconhecidos é mais fácil do que bater à porta de MJ e explicar que os dois já se amaram.
Enquanto combate o crime em tempo integral, Peter começa a experimentar transformações físicas inesperadas. Seus sentidos tornam-se mais intensos, sua força aumenta, o sentido de aranha alcança novos níveis e seu organismo passa a produzir teias orgânicas. A evolução não é inicialmente apresentada como vantagem. Peter teme perder o controle e utiliza um chip inibidor para conter as novas capacidades.
Um dos principais acertos da produção é recuperar Nova York como parte ativa da história. Depois do multiverso, das viagens internacionais e das grandes alianças cósmicas, Peter volta a atuar principalmente nas ruas. O filme apresenta perseguições, crimes urbanos, organizações criminosas e a presença cada vez mais agressiva do Departamento de Controle de Danos. Esse retorno às ruas não significa que a narrativa permaneça pequena. Ainda assim, a relação entre o Homem-Aranha e os moradores de Nova York volta a ocupar posição central. A cidade conhece o herói, mas não conhece o homem.
Jon Bernthal volta como Justiceiro em uma participação essencial a trama. O ponto interessante é que Peter e Frank desejam proteger pessoas, mas possuem concepções opostas de justiça. A relação entre os dois funciona tanto dramaticamente quanto no humor. Peter considera Frank brutal e moralmente inflexível. Frank enxerga Peter como um idealista que não compreende completamente a violência das ruas. Mark Ruffalo retorna como Bruce Banner/Hulk, mas sua participação é relativamente breve e se não tivesse ocorrido, não faria falta nenhuma a trama.
As melhores sequências são as que combinam efeitos digitais com elementos físicos. O confronto contra o Tentáculo beneficia-se da coreografia marcial. A luta contra Hulk utiliza escala e destruição, enquanto os confrontos com indivíduos controlados por Jean exploram imprevisibilidade. Mas com quase 150 minutos de duração, Um Novo Dia é um filme longo. Algumas participações poderiam ser reduzidas sem prejuízo. Concordo com o site Rotten Tomatoes quando ele diz que a duração excessiva e a sensação de trama sobrecarregada apareceram entre as principais ressalvas dessa produção. Outro fator que, ao meu ver prejudicou um pouco o filme foi utilizar elementos de diferentes fases das histórias do Homem-Aranha, sem adaptar integralmente nenhuma delas. A recepção inicial foi bastante positiva, com aprovação próxima de 91% a 92% no Rotten Tomatoes. Contudo, vamos esperar pelos números da segunda semana em cartaz, para vermos se a queda vai ser pequena, média ou preocupante.
Como o filme estreou mundialmente enquanto essa matéria ainda estava sendo preparada, ainda é cedo para afirmarmos se Um Novo Dia poderá ser comparado aos filmes predecessores da cinessérie. De volta ao Lar faturou US$ 880 milhões. Longe de Casa arrecadou US$ 1,13 bilhão e Sem Volta Para Casa conseguiu faturar impressionantes US$ 1,92 bilhão. Acredito que os 200 milhões gastos na produção e mais 100 milhões em marketing e distribuição irão retornar para o cofre dos produtores.
Mesmo com Destin Daniel Cretton entregando um filme de ação forte, boa fotografia e uma interpretação mais adulta do personagem, Sem Volta Para Casa não escapa dos problemas do UCM. É longo, excessivamente conectado e interessado em preparar diferentes caminhos futuros. Sua promessa de retornar ao básico é cumprida apenas parcialmente.
Minha nota para esse filme é:
