
Meu Pai não é apenas um filme sobre demência. É uma experiência cinematográfica construída para colocar o espectador dentro de uma mente que perdeu a capacidade de organizar tempo, espaço, pessoas e lembranças. Ao invés de de observar Anthony a partir de uma posição externa e segura, o público compartilha sua confusão. Não sabemos com certeza onde ele está, quanto tempo passou, quem fala a verdade ou quais acontecimentos realmente ocorreram. Pessoas mudam de rosto, apartamentos trocam de decoração, conversas repetem-se com pequenas variações e relações familiares são reconstruídas a cada nova cena. O resultado é uma das representações mais perturbadoras e empáticas do declínio cognitivo já realizadas pelo cinema.
Florian Zeller compreende que explicar a demência por meio de diagnósticos e diálogos médicos seria bem menos eficiente e mudaria completamente o resultado final do filme. A montagem, o cenário, o elenco, a fotografia e o som tornam-se extensões da percepção de Anthony. Somos apresentados também ao sofrimento de Anne, filha que ama o pai, mas está sendo emocionalmente destruída pela responsabilidade de cuidar dele. O longa não procura culpados. Anthony não escolheu adoecer e Anne não consegue interromper a própria vida indefinidamente. Meu Pai é, portanto, uma história sobre perda em várias direções. Anthony perde a memória, a independência e a identidade. Anne perde o pai que conhecia, mesmo antes de sua morte, e ambos perdem a possibilidade de manter a relação como ela existiu no passado.
Meu Pai é baseado em Le Père, peça escrita por Florian Zeller e apresentada originalmente em francês. A obra teatral alcançou grande reconhecimento internacional e recebeu montagens em vários países. Zeller adaptou o próprio texto ao cinema com Christopher Hampton, que já havia trabalhado na tradução inglesa da peça. O fluir do filme realmente nos remete a uma peça teatral, pois grande parte da ação ocorre em poucos espaços, os diálogos possuem enorme importância e o elenco é reduzido.
A grande diferença de estarmos testemunhando a peça e vendo o filme é que no teatro, o público observa a desorientação, e no filme, o público passa a experimentá-la, pois o cinema permite ao diretor utilizar recursos exclusivamente cinematográficos — cortes, continuidade visual, substituição de atores, mudanças discretas no cenário e manipulação temporal — para transformar o apartamento em um verdadeiro labirinto mental.
Um dos grandes acertos do diretor nessa produção é colocar a narrativa sob a perspectiva do protagonista. Em uma produção “convencional” sobre a demência, o enfoque seria no sofrimento da filha. Em Meu Pai, essa segurança narrativa desaparece. O espectador recebe as mesmas informações fragmentadas que Anthony. Quando um ator diferente surge no papel da filha, não existe aviso. Quando o apartamento muda, a câmera não destaca a alteração. Quando uma conversa se repete, não sabemos se é outro dia, uma lembrança ou a mesma situação reinterpretada. Isso produz uma inversão moral. Ao invés de pensarmos: “ele está confuso”, sentimos a confusão. Em vez de julgar sua agressividade de fora, compreendemos parcialmente o terror que a provoca. E esse diferencial é fantástico. Para o protagonista, as outras pessoas parecem mentir, invadir sua casa, mudar de rosto e esconder informações. Sua paranoia possui lógica dentro de uma realidade que perdeu continuidade.

O cenário é uma das maiores realizações do filme. Inicialmente, o apartamento parece sólido e reconhecível. Possui móveis elegantes, quadros, portas e uma organização espacial aparentemente clara. Mas, de acordo com o andar do filme, vários detalhes vão mudando: quadros desaparecem, cadeiras são substituídas, as cores das paredes se alteram, móveis mudam de posição, objetos deixam de existir, corredores parecem conduzir a outros lugares. Essas mudanças são paulatinas. O espectador frequentemente percebe que algo está errado sem conseguir identificar imediatamente o quê.
Florian Zeller utiliza diferentes atores para personagens que ocupam a mesma função. Olivia Colman e Olivia Williams aparecem como Anne ou como figuras que Anthony associa à filha. Mark Gatiss e Rufus Sewell surgem como homens ligados a Anne, embora depois assumam identidades diferentes. Para quem está assistindo, essas substituições geram uma certa suspicácia. Passamos a observar cada entrada de personagem com insegurança, reproduzindo a vigilância permanente de Anthony.
Anthony Hopkins realiza uma das maiores, senão a maior, interpretação de sua carreira na minha opinião. O personagem exige transições emocionais extremas. Em poucos minutos, Anthony pode ser charmoso, engraçado, arrogante, assustado, cruel, confuso e infantil. Nem todo ator é capaz de entregar um idoso com demência da forma que Anthony Hopkins conseguiu entregar. Anthony Hopkins evita reduzir a demência a gestos mecânicos ou a uma expressão constante de ausência. Anthony possui momentos de clareza e energia. Sua inteligência continua visível, o que torna a deterioração ainda mais dolorosa. Em outros momentos, Anthony Hopkins utiliza o silêncio. Anthony percebe que o ambiente mudou, mas hesita antes de perguntar. Talvez já tenha compreendido que sua percepção não será validada. A cena final abandona todas as defesas. O homem orgulhoso desaparece, revelando uma criança aterrorizada que deseja a mãe. Anthony Hopkins não interpreta apenas perda de memória. Interpreta o desmonte de uma identidade.
Anthony Hopkins venceu merecidamente o Oscar de melhor ator por esse filme e tornou-se, aos 83 anos, o vencedor mais velho de uma categoria de atuação naquela ocasião. Foi seu segundo Oscar de melhor ator, quase três décadas depois de O Silêncio dos Inocentes. A premiação, porém, não deve ser vista apenas como homenagem à carreira. A interpretação em Meu Pai possui uma complexidade imensa e uma precisão cirúrgica que justificam o reconhecimento. A Academia também premiou Florian Zeller e Christopher Hampton pelo roteiro adaptado.
Não podemos também de deixar de falar sobre Olivia Colman. Pois se Anthony Hopkins representa a experiência da doença, Olivia Colman representa o desgaste de quem permanece ao lado. A filha vive um luto antecipado. O pai está fisicamente presente, mas partes dele já desapareceram. Às vezes ele a reconhece; em outras, trata-a como estranha.
Meu Pai é a estreia de Florian Zeller na direção de um longa-metragem, o que torna sua segurança formal ainda mais impressionante. Zeller conhece profundamente o material, mas entende que a linguagem do cinema é bem diferente da linguagem do teatro. Sua direção evita explicações. Não utiliza letreiros, flashbacks convencionais ou efeitos visuais para anunciar mudanças de percepção.
Mas, toda a experiência pela qual somos apresentados em Meu Pai não seria possível sem a montagem de Yorgos Lamprinos. Os cortes não obedecem sempre à continuidade temporal, mas preservam continuidade emocional. A edição também repete diálogos, gestos e situações com pequenas diferenças. A montagem foi indicada ao Oscar, reconhecimento plenamente justificado. Sem ela, o filme seria apenas uma sequência de cenas sobre confusão. Com ela, torna-se a própria experiência da confusão.
Também temos que dar destaque a direção de arte de Peter Francis que construiu apartamentos semelhantes o bastante para parecerem o mesmo lugar, mas diferentes o suficiente para gerar desconforto. A direção de arte e a decoração também receberam indicação ao Oscar, uma demonstração de como o espaço participa ativamente do roteiro.
Um dos maiores méritos do filme é recusar a ideia de que Anthony deixa de ser pessoa quando perde a memória. Sua dignidade não depende de reconhecer Anne ou saber onde está. Mesmo no estágio mais vulnerável, continua merecendo cuidado, segurança e afeto. A demência compromete sua autonomia, mas não elimina seu valor.
Meu Pai foi amplamente aclamado. A crítica destacou especialmente as atuações, o roteiro, a montagem e a direção de arte. Sua maior conquista foi encontrar uma forma cinematográfica para representar a demência sem reduzir o tema a explicações clínicas. O lançamento comercial foi profundamente afetado pela pandemia de Covid-19. O Box Office Mojo registra aproximadamente US$ 2,1 milhões nos Estados Unidos e Canadá, US$ 21 milhões nos demais territórios e cerca de US$ 23,2 milhões mundialmente. O orçamento é geralmente estimado em aproximadamente US$ 6 milhões.
Meu Pai é uma obra-prima sobre o desaparecimento progressivo de uma pessoa dentro de si mesma. Seu grande mérito está em não falar da demência apenas como assunto. O filme transforma a demência em linguagem cinematográfica. Anthony Hopkins entrega uma atuação de extraordinária coragem. Não protege o personagem da crueldade, da vaidade ou da fragilidade. Permite que vejamos o homem inteiro, não apenas a doença.
Meu Pai está disponível nos serviços de streaming do Tele Cine, da Apple TV e da Prime.
Minha nota para esse filme é:
