
Capitão Fantástico é um filme sobre educação, liberdade, luto, família e radicalismo. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre os riscos de acreditar que existe uma maneira perfeita de criar filhos. Escrito e dirigido por Matt Ross, o longa acompanha Ben Cash, interpretado por Viggo Mortensen, um pai que vive com seus seis filhos em uma floresta no noroeste dos Estados Unidos. Afastados da sociedade de consumo, das escolas tradicionais, da televisão, da religião institucionalizada e de quase todas as estruturas convencionais, eles seguem uma rotina rigorosa de exercícios físicos, sobrevivência, leitura, debates políticos, música, caça e estudo.
Em um primeiro momento, aquela família parece representar uma alternativa fascinante ao mundo moderno. Contudo, à medida que a narrativa avança, o filme começa a desmontar essa imagem idealizada. O método de Ben também produz isolamento, despreparo emocional, dificuldades de socialização e situações de perigo físico. O grande mérito de Capitão Fantástico está justamente em não transformar Ben nem em herói absoluto nem em vilão. Ele é um pai amoroso, dedicado e intelectualmente estimulante, mas também autoritário, vaidoso e, em determinados momentos, irresponsável. Sua maior virtude e seu maior defeito têm a mesma origem: a convicção de que sabe exatamente o que é melhor para os filhos.
A aparente estabilidade familiar, porém, já está comprometida quando o filme começa. Leslie não vive com eles naquele momento: encontra-se internada para tratar um grave transtorno bipolar. Após receberem a notícia do falecimento de Leslie, a família embarca no velho ônibus batizado de “Steve”, iniciando uma viagem que funciona ao mesmo tempo como deslocamento geográfico, rito de passagem e choque com o mundo exterior. A estrutura de road movie permite que cada parada revele uma fissura no projeto educacional de Ben. Ao sair da floresta, a família precisa enfrentar aquilo que estudou apenas teoricamente: religião, dinheiro, consumo, sexualidade, relações sociais, propriedade privada, hierarquias familiares e instituições.
O caminho também revela que os filhos não são uma unidade homogênea. Cada um começa a formular sua própria visão sobre a vida que levam, transformando a viagem não apenas uma simples ida ao funeral da mãe e da esposa, e sim em uma jornada da ruptura completa da autoridade absoluta do pai.

Ben é um dos personagens paternos mais complexos que o cinema mostrou nesses últimos anos. Ele reúne características contraditórias: é carinhoso e severo, libertário e controlador, sincero e manipulador, progressista e autoritário. Seu projeto familiar nasceu de uma crítica legítima à sociedade. Ele rejeita o consumismo, a alimentação industrializada, a passividade intelectual, a desigualdade econômica e a educação baseada apenas em memorização. Ensina os filhos a questionar autoridades e a não aceitar respostas prontas. Contudo, existe uma enorme ironia: Ben ensina os filhos a questionar tudo, menos sua própria autoridade. O título Capitão Fantástico possui, portanto, uma dimensão irônica. Ben parece fantástico porque seus filhos demonstram capacidades extraordinárias. Mas sua imagem grandiosa depende de uma estrutura familiar construída sob seu comando. Quando os filhos desenvolvem autonomia real, sua autoridade começa a desmoronar. Viggo Mortensen sustenta o filme com uma interpretação extraordinariamente equilibrada. Seu Ben é carismático o suficiente para conquistar o espectador, mas incômodo o bastante para jamais ser aceito sem reservas.
Viggo Mortensen evita transformar o personagem numa caricatura. Sua interpretação transmite convicção, inteligência e ternura, mas também orgulho, rigidez e cansaço. Ben acredita verdadeiramente que está protegendo os filhos. Esse convencimento é o que torna suas atitudes tão fascinantes e ao mesmo tempo tão perigosas. Viggo Mortensen foi indicado ao Oscar de melhor ator por esse trabalho, além de receber indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA. A Academia confirmou sua presença entre os cinco indicados ao Oscar de 2017, ao lado de Casey Affleck, Andrew Garfield, Ryan Gosling e Denzel Washington.
Outro ponto que temos a destacar nessa produção são os filhos de Ben que funcionam como variações de uma mesma experiência educacional. Apesar de terem crescido no mesmo ambiente, reagem de maneiras distintas. Cada personagem vive o luto de maneira diferente. Matt Ross conduz o filme com grande equilíbrio tonal. A história transita entre comédia, drama familiar, sátira social e tragédia sem perder completamente sua unidade.
Um ponto interessante em Capitão Fantástico são os figurinos escolhidos pela produção que combinam roupas funcionais, estampas, peças reaproveitadas e cores vivas. A aparência da família reforça sua distância da sociedade convencional. A direção de arte evita apresentar a vida alternativa de forma inteiramente miserável. O acampamento possui livros, instrumentos musicais, ferramentas e objetos pessoais. Há pobreza material relativa, mas riqueza cultural e afetiva.
Toda utopia corre o risco de se tornar autoritária quando depende da certeza de um líder. O filme mostra que uma sociedade perfeita, quando não admite divergência, deixa de ser liberdade e passa a ser doutrina. Livros podem explicar o amor, mas não substituem o risco de amar. Podem descrever a sociedade, mas não ensinam inteiramente a conviver com ela.
Apesar de suas grandes qualidades, Capitão Fantástico não é uma obra sem falhas. A sociedade convencional é por vezes retratada de maneira estereotipada. As crianças “normais” são mostradas como ignorantes, viciadas em tecnologia e incapazes de conversar, enquanto os filhos de Ben apresentam uma erudição quase extraordinária. Essa comparação pode parecer manipuladora.
O filme foi bem recebido pela crítica. Atualmente aparece com 82% de aprovação entre os críticos e 85% entre o público no Rotten Tomatoes, índices que confirmam sua boa permanência junto aos espectadores. Além do prêmio de direção para Matt Ross em Cannes, Viggo Mortensen recebeu indicações ao Oscar, Globo de Ouro e BAFTA. O reconhecimento foi particularmente importante porque o filme era uma produção independente, distante do padrão dos grandes lançamentos comerciais. Em termos financeiros, Capitão Fantástico arrecadou aproximadamente US$ 23,1 milhões mundialmente, sendo cerca de US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 17,2 milhões nos demais mercados. No Brasil, os registros do Box Office Mojo apontam aproximadamente US$ 895 mil acumulados em suas exibições.
Capitão Fantástico é uma obra inteligente porque começa parecendo defender uma utopia e termina defendendo a capacidade de corrigir os próprios erros. O filme reconhece os méritos da educação de Ben. Existe amor verdadeiro naquela família, assim como dedicação e solidariedade. Mas amor e boas intenções não absolvem um pai de suas responsabilidades. Ben confunde proteção com controle, coragem com exposição ao perigo, sinceridade com insensibilidade e pensamento crítico com adesão às suas próprias ideias. O mundo convencional também não é apresentado como solução perfeita. Ele produz alienação, superficialidade, sedentarismo e dependência do consumo. A família dos parentes pode oferecer segurança, mas não necessariamente profundidade intelectual. Por isso, a resposta final está no equilíbrio. As crianças não precisam abandonar tudo o que aprenderam na floresta, mas também não podem permanecer isoladas. Ben não precisa renunciar aos seus princípios, mas deve aceitar que os filhos possuem o direito de construir princípios próprios. O verdadeiro amadurecimento não é apenas o dos filhos. É o do pai.
Ben talvez não seja o “capitão fantástico” sugerido pelo título. É algo muito mais interessante: um pai falho que ama profundamente os filhos e que, depois de quase perdê-los, encontra coragem para admitir que também precisa aprender.
Capitão Fantástico está disponível nos serviços de streaming da Claro TV, Prime e Apple.
Minha nota para esse filme é:
