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Os Descendentes é um filme sobre morte, infidelidade, paternidade, ressentimento, herança e reconciliação. Entretanto, reduzir a obra a qualquer um desses temas seria insuficiente. Alexander Payne constrói um drama no qual diferentes tipos de perda acontecem simultaneamente: um homem está prestes a perder a esposa; duas meninas perderão a mãe; uma família pode desfazer-se emocionalmente; e uma extensa área de terra herdada por gerações corre o risco de ser entregue à exploração imobiliária.

A grande intelectualidade do filme está justamente na maneira como essas perdas se manifestam umas nas outras. A propriedade ancestral e a família de Matt King (George Clooney) encontram-se sob ameaça ao mesmo tempo. Ambas foram negligenciadas. Ambas foram herdadas. Ambas carregam uma história maior do que o presente. E ambas exigem que Matt deixe de ser apenas um administrador distante para se transformar em alguém verdadeiramente responsável pelo que recebeu.

Alexander Payne conseguiu entregar um filme profundamente humano porque não apresenta personagens idealizados. A esposa em coma não é transformada automaticamente em santa; o marido traído também precisa reconhecer suas falhas; as filhas não se comportam como modelos de maturidade; e até o amante, inicialmente tratado como vilão, revela-se um homem medroso, contraditório e vulnerável. O resultado disso é um dos dramas familiares mais sensíveis do cinema norte-americano desses últimos 15 anos.

Os Descendentes já começa acertando quando desmonta uma imagem culturalmente consagrada do Havaí. Na narração, Matt King rejeita a ideia de que todos os habitantes do arquipélago vivem permanentemente em férias, cercados por praias paradisíacas, bebidas tropicais e mulheres de biquíni. Ele lembra que no Havaí também existem doenças, dificuldades financeiras, conflitos conjugais, morte e sofrimento. O Havaí pode até parecer um paraíso, mas Matt atravessa o momento mais doloroso de sua vida. Elizabeth, sua esposa, está em coma após sofrer um acidente de lancha. Sua sobrevivência é praticamente impossível. Enquanto o cenário externo oferece sol, mar e vegetação exuberante, o universo emocional dos personagens encontra-se em ruínas.

Alexander Payne utiliza muito bem esse contraste para evitar a representação turística e superficial do arquipélago. A beleza é natural, mas não elimina a tragédia; a torna ainda mais estranha. A morte não acontece em um ambiente sombrio ou chuvoso, mas em meio à luminosidade tropical. Os Descendentes sugere, portanto, que não existem lugares imunes à dor, pois o sofrimento humano não respeita cartões-postais.

George Clooney (Michael Clayton) é Matt King, um marido e pai emocionalmente ausente. Ele próprio reconhece que era uma espécie de “pai reserva”, alguém que deixava para Elizabeth as decisões, os conflitos e as responsabilidades cotidianas. Sua ausência não era necessariamente resultado de maldade. Matt parecia acreditar que trabalhar, preservar o patrimônio e garantir estabilidade material eram formas suficientes de cumprir seu papel. O acidente de sua esposa revela o equívoco dessa concepção. Quando sua esposa Elizabeth entra em coma, Matt percebe que não conhece verdadeiramente suas filhas. Não sabe lidar com Scottie, desconhece a profundidade da revolta de Alexandra e não compreende o que estava acontecendo dentro do próprio casamento. Sua jornada é, portanto, menos a de um homem que assume o controle e mais a de alguém que descobre o quanto estava desconectado de tudo.

ATENÇÃO: ESSE PRÓXIMO PARÁGRAFO CONTÉM SPOILERS (Mesmo sendo contra essa prática, é parte essencial e tem que fazer parte dessa crítica.)

O monólogo de Matt diante de Elizabeth no hospital é o clímax emocional do filme. Ele consegue expressar raiva, amor, ressentimento e gratidão quase ao mesmo tempo. Não há separação organizada entre esses sentimentos porque o luto real raramente é organizado. Matt acusa Elizabeth, questiona suas escolhas e reconhece a dor que ela lhe causou. Depois, permite que o amor sobreviva à raiva. Sua despedida não absolve tudo, mas também não reduz o casamento unicamente ao adultério. Esse momento é uma das maiores demonstrações da maturidade do roteiro. Perdoar não significa fingir que a traição não aconteceu. Significa impedir que ela seja a única definição possível de uma vida compartilhada. Quando Matt beija Elizabeth e se despede, está enterrando mais do que uma pessoa. Despede-se da esposa que conhecia, da mulher que descobriu tarde demais, do casamento que poderia ter sido reconstruído e das respostas que jamais receberá.

A trama da venda das terras poderia parecer secundária, mas é essencialmente indispensável. Ela funciona como espelho do drama doméstico. Matt herdou a terra, mas manteve-se emocionalmente distante dela. Da mesma maneira, recebeu uma família, porém delegou a Elizabeth quase toda a vida cotidiana. Em ambos os casos, ele administrava sem verdadeiramente participar.

Talvez o assunto mais importante de Os Descendentes seja a diferença entre sustentar uma família e estar presente nela. O pai Matt acreditava cumprir seu dever porque trabalhava, preservava o patrimônio e evitava gastar excessivamente a fortuna herdada. Entretanto, não conhecia os conflitos das filhas nem a infelicidade da esposa. O filme não condena simplesmente o trabalho ou a disciplina financeira. Critica a ideia de que responsabilidade material possa substituir intimidade emocional. A presença verdadeira começa quando Matt admite sua incompetência e decide aprender. Os Descendentes apresenta o luto como processo contraditório. Matt ama Elizabeth e sente raiva dela. Alexandra quer abraçar a mãe e, ao mesmo tempo, condená-la. Os familiares choram uma mulher cuja existência real conheciam apenas parcialmente.

Essa ambiguidade confere autenticidade à diegese. Pessoas falecidas não deixam de ter defeitos, e os sobreviventes nem sempre conseguem despedir-se em paz. O perdão apresentado pelo filme não é religioso, jurídico nem sentimental. É um ato de sobrevivência. Matt precisa perdoar, porque a alternativa seria permitir que a traição continuasse controlando sua vida e a relação com as filhas. Mas, o mais importante é que ele precisa perdoar a si mesmo. Seu distanciamento contribuiu para a deterioração do casamento, embora não o torne responsável pela escolha de Elizabeth. O roteiro trabalha muito bem essa questão: compreender as causas de uma ação não significa justificá-la.

Alexander Payne é especialista em encontrar humor dentro de situações dolorosas. O filme não trata a morte como piada, mas reconhece que a vida continua produzindo momentos absurdos mesmo durante uma tragédia. A comédia também torna a dor mais crível. Famílias reais não permanecem em solenidade permanente durante o luto. Há discussões banais, constrangimentos, falas erradas e risos involuntários. O humor de Alexander Payne é quase sempre desconfortável. Rimos e logo percebemos que a situação é trágica. Essa oscilação produz uma sensação mais próxima da experiência humana.

Alexander Payne entrega uma direção discreta e segura. Ele evita grandes discursos explicativos e manipulação emocional excessiva. Seu interesse está nas reações dos personagens. Muitas cenas são construídas em torno de silêncios, hesitações e mudanças de expressão. O diretor permite que o espectador observe o instante em que uma informação é compreendida. Eu, particularmente, gosto muito quando um diretor trabalha dessa forma. O filme é baseado no romance de Kaui Hart Hemmings. O roteiro de Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash preserva a combinação entre tragédia familiar, ironia e identidade havaiana. O roteiro também trabalha habilmente com informações progressivas. Primeiro sabemos do acidente; depois, do estado irreversível; em seguida, da traição; finalmente, da ligação entre Brian e a possível venda das terras. Cada uma dessas revelações reorganiza o significado da anterior. A história não depende de reviravoltas artificiais, mas do aprofundamento gradual de uma realidade familiar. Um roteiro tão bem trabalhado que foi o ganhador na categoria de roteiro adaptado nos Oscars de 2012. Também concorreu aos prêmios de filme, direção, ator para George Clooney e montagem. George Clooney entrega uma das melhores atuações de sua carreira. O papel desconstrói sua imagem habitual de homem elegante, confiante e sedutor.  Um trabalho especialmente forte porque não transforma Matt em vítima absoluta. Mesmo traído, o personagem sabe que também falhou. Clooney preserva simultaneamente sua dignidade, sua raiva e sua culpa.

A fotografia de Phedon Papamichael evita transformar o Havaí em propaganda turística. Evidentemente, há paisagens deslumbrantes, mas elas coexistem com corredores hospitalares, bairros residenciais e ambientes cotidianos. A luz natural contribui para o realismo.            A indicação ao Oscar de melhor montagem demonstra que o trabalho vai além da invisibilidade técnica. O equilíbrio entre comédia e tragédia depende do tempo exato das reações, pausas e cortes.

Uma das escolhas mais ímpares do filme é a utilização predominante de músicas havaianas, incluindo gravações tradicionais e composições associadas à cultura das ilhas. Não há uma trilha sinfônica convencional conduzindo o espectador a emoções predeterminadas. O som do oceano, dos carros, dos hospitais e da vida cotidiana mantém a história ancorada na realidade. A música não cria outro mundo; parece aflorar do próprio lugar.

Mesmo com todos esses louvores, Os Descendentes não é uma obra isenta de problemas. A principal limitação é a abordagem da questão havaiana. O filme fala sobre ancestralidade, terra e preservação, mas permanece centrado na consciência de um homem branco e rico. Personagens nativos parecem não fazer muito parte da narrativa. Os Descendentes foi amplamente elogiado pela crítica, sobretudo pelo roteiro, pela direção e pela atuação de George Clooney.

Financeiramente, foi um grande sucesso para um drama adulto de orçamento moderado. A produção teria custado aproximadamente US$ 20 milhões e arrecadou cerca de US$ 175,5 milhões mundialmente, sendo aproximadamente US$ 82,6 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 92,9 milhões nos demais mercados. Isso representa uma arrecadação mundial próxima de nove vezes o orçamento de produção.

Resumo da ópera: Os Descendentes é uma obra sobre pessoas que descobrem tarde demais que estavam vivendo distantes umas das outras. A grandeza do filme está na recusa das soluções fáceis. Todos são seres humanos imperfeitos tentando reorganizar a vida diante de uma ausência definitiva. É um drama sensível, inteligente e dolorosamente verdadeiro, sustentado por um roteiro extraordinário, pela direção contida de Alexander Payne e por uma das atuações mais humanas de George Clooney.

Os Descendentes está disponível no serviço de streaming da Disney +.

Minha nota para esse filme é: