
Quando Toy Story chegou aos cinemas em 1995, revolucionou a animação mundial e apresentou ao público uma premissa bem simples, mas poderosa: os brinquedos ganham vida quando os humanos não estão olhando. Mais do que uma aventura infantil, a obra criada pela Pixar sempre foi uma reflexão sobre crescimento, amizade, pertencimento e as mudanças inelutáveis da vida. Agora, mais de três décadas depois do lançamento do primeiro filme, Toy Story 5 promete trazer um dos temas mais atuais e delicados da sociedade contemporânea: o impacto das telas digitais na infância e na adolescência.
A nova produção coloca Woody, Buzz , Jessie e seus amigos diante de um desafio que nenhum vilão do passado conseguiu representar: a concorrência insidiosa dos tablets, smartphones, videogames e aplicativos que passaram a ocupar o centro da atenção das novas gerações. Os jogos dos videogames de hoje, em sua grande maioria, não são mais feitos para divertir, são elaborados com o intuito de viciar e alienar os jovens, crianças , adolescentes e até mesmo os adultos.
Se nos filmes anteriores os brinquedos precisavam lidar com o abandono, a troca de donos ou a chegada de novos personagens, agora o problema é ainda mais complexo. As crianças simplesmente não brincam como antes. Nessas últimas duas décadas, o avanço tecnológico transformou radicalmente a maneira como meninos e meninas se divertem, aprendem e interagem com o mundo. Celulares e tablets passaram a oferecer entretenimento instantâneo, vídeos curtos, jogos online, redes sociais e uma infinidade de estímulos capazes de capturar a atenção durante horas. Nesse cenário, os brinquedos físicos enfrentam uma concorrência praticamente impossível de ganhar.
A proposta de Toy Story 5 parte exatamente dessa triste realidade: o que acontece quando uma criança prefere olhar para uma tela em vez de brincar com seus brinquedos? Nessa nova aventura, os brinquedos terão de enfrentar uma situação inédita: a perda gradual de espaço na vida das crianças. O vilão aqui, foge completamente do tradicionalismo cinematográfico, pois ele trabalha com a mudança de comportamento. Enquanto Woody e Buzz sempre acreditaram que sua missão era trazer alegria, imaginação e companhia aos pequenos, eles agora precisam compreender por que estão sendo deixados de lado.
Os roteiristas Andrew Stanton (Toy Story 3 e 4) e Mckeena Harris em sua primeira contribuição para o cinema, acertaram em cheio ao explorar o sentimento de inutilidade e deslocamento dos brinquedos diante de uma geração que cresce conectada desde os primeiros anos de vida. Toy Story 5 também acerta quando entrega um tema que preocupa pais, educadores e psicólogos em todo o mundo. Quando todos pensavam que ia ser apenas “mais um” filme com o único intuito de arrecadar, a pixar surpreende a todos com uma produção voltada, acredito eu, mais para os pais do que para as próprias crianças.

É inegável que a tecnologia oferece inúmeras vantagens, desde que utilizada de forma equilibrada, é o excesso de seu uso sem limites que tem despertado preocupação crescente. Ao abordar esse assunto, a Pixar demonstra que pretende transformar Toy Story 5 em algo mais profundo do que uma simples aventura infantil.
Um dos aspectos mais interessantes da franquia sempre foi sua defesa do ato de brincar. Brincar nunca foi apenas diversão. É por meio do brincar que as crianças desenvolvem: a imaginação, a empatia, a capacidade de resolver problemas, inúmeras habilidades sociais, e também, autonomia emocional. Quando uma criança cria histórias com bonecos, carrinhos ou pelúcias, ela está exercitando a criatividade de forma ativa. Já diante de uma tela, grande parte, ou a totalidade do conteúdo é recebida de forma passiva. E é justamente esse contraste que Toy Story 5 conseguiu mostrar. Brinquedos representam a imaginação construída pela criança. As telas representam um universo pronto, previamente elaborado por outras pessoas. Um mundo quase que totalmente impessoal.
Mas será que com Toy Story 5, a Pixar está tentando criticar sublinarmente e de maneira agressiva a tecnologia? Não. A proposta apresentada é que o filme não demonize celulares, tablets ou videogames, mas apresente uma reflexão sobre o equilíbrio de seu uso, pois é inegável que a tecnologia faz parte da vida moderna e oferece benefícios inegáveis. O problema reside quando ela passa a substituir completamente experiências fundamentais da infância.
Partindo desse princípio, Toy Story 5, tenta propor uma convivência saudável entre esses dois mundos. Não é uma questão de escolher entre brinquedos ou tecnologia, é a quase obrigatoriedade de compreender que ambos podem coexistir. Woody e Buzz sempre simbolizaram valores como amizade, lealdade e companheirismo. Ao chegarem na era digital, os personagens vivem algo semelhante ao que muitos adultos experimentam atualmente: a sensação de que o mundo mudou mais rápido do que eles conseguiam acompanhar. É por esse motivo que Toy Story 5 consegue muito bem dialogar tanto com as crianças quanto com seus pais. Esse é, ao meu ver, o maior mérito de Toy Story 5.
No primeiro filme, o tema foi o medo de ser substituído. No segundo, a descoberta da própria identidade. No terceiro, a despedida da infância. No quarto, a busca por propósito. Agora, em Toy Story 5, o tema é a adaptação a um novo mundo. Ao transformar esse fenômeno em uma aventura emocionante, a Pixar demonstra mais uma vez sua capacidade de utilizar personagens aparentemente simples para discutir questões humanas profundas.
Ao abordar a relação entre crianças e dispositivos digitais, a Pixar toca em uma das maiores preocupações da sociedade moderna. A animação promete mostrar que a tecnologia não precisa ser uma inimiga, mas também lembra que a imaginação, a criatividade e as brincadeiras presenciais continuam sendo elementos essenciais para o desenvolvimento infantil. Em um mundo cada vez mais conectado, Woody, Buzz e seus amigos podem estar prestes a ensinar uma das lições mais importantes de toda a saga: nenhuma tela é capaz de substituir completamente o poder da imaginação.
Minha nota para esse filme é:
