Em 1968, o diretor Peter Yates (Os Canhões de Navarone, Krull, Sob Suspeita) lançou um filme que seria um marco no cinema e que ainda continua atual. Esse filme foi Bullit. Essa produção mudou os moldes de como encaramos o cinema policial de ação dos anos 70 em diante. Bullitt é menos um “policial de ação” e mais um retrato seco da ética individual cercada por instituições corruptas, vaidosas ou burocráticas. Frank Bullitt (Steve McQueen) não é heroico por falar muito, ele é heroico porque continua funcionando moralmente num mundo onde política, polícia, mídia e crime já se misturaram.  Frank Bullit apenas tenta cumprir uma verdade mínima: descobrir os fatos e a verdade. O filme antecipa o policial moderno dos anos 1970: solitário, desencantado, urbano e moralmente ambíguo.

A narrativa em Bullit é bem simples. O diretor Peter Yates optou por trabalhar com observação, deslocamento, espera e procedimento. A câmera não “explica” demais; ela acompanha corpos, carros, corredores, hospitais e ruas. Tudo o mais próximo do real possível. A cena da perseguição de carros é revolucionária porque é totalmente física, imperfeita e perigosa. Não é apenas espetáculo; é montagem, geografia, som, e o melhor de tudo: não existe o uso de computação gráfica nem tela verde.

Bullit conseguiu envelhecer muito bem porque sua crítica permanece atual: instituições adoram narrativa pública (pelo menos a grande maioria delas); a verdade costuma depender de gente cansada fazendo trabalho difícil. É um filme sobre velocidade, mas também sobre silêncio; sobre carros, mas também sobre consciência; sobre polícia, mas principalmente sobre integridade num mundo administrado por interesses.

Bullit foi filmado em locações reais em São Francisco, estreou nos EUA em 17 de outubro de 1968, custou em torno de 4 milhões de dólares originalmente e ultrapassou quase 2 milhões de dólares desse valor, conseguindo arrecadar cerca de 42,3 milhões no mercado doméstico segundo o site The Numbers. Bullit nasceu numa época em que o cinema americano também estava mudando. O velho policial de estúdio, moralmente claro, começava a dar lugar a personagens mais ambíguos, urbanos e desencantados. Essa produção conseguiu antecipar muito dos filmes policiais que veríamos nos anos 1970: Operação França, Perseguidor Implacável, A conversação. 

A trama parece ser bem simples: Bullitt precisa proteger uma testemunha ligada ao crime organizado. A missão falha, a testemunha é atacada, e Bullitt passa a investigar o caso enquanto enfrenta pressão política. Mas sua estrutura é bem mais sofisticada que isso. A testemunha não é exatamente quem parece ser, o político Chalmers (Robert Vaughn) usa a justiça como espetáculo, Bullitt parece apático, mas está sempre moralmente em estado de alerta.

A escolha de Steve McQueen foi perfeita para o papel principal. Ele não precisava explicar sua ética porque ela estava aparente no modo como ele age. Ele é profissional, reservado, desconfiado e resistente à teatralidade política. O diretor e o roteirista optaram por criticar o uso político da justiça. Robert Vaughn tenta transformar a testemunha em capital eleitoral. Para ele, a morte de pessoas importa menos do que o efeito público do caso. E essa crítica continua atual. O filme mostra como instituições podem absorver tragédias e convertê-las em performance. Não é exatamente “corrupção” no sentido vulgar de dinheiro escondido; é uma corrupção mais refinada: a substituição da verdade pelo benefício de imagem.

Bullit foi planejado para ser rodado em locações reais. Segundo o catálogo da AFI, São Francisco foi escolhida como principal locação no lugar de Nova York e Boston, e a produção usou residências reais, delegacia e hospital da cidade. Também houve filmagens no aeroporto de São Francisco. Essa escolha foi essencial. São Francisco oferece risco físico e simbólico.

A cena da perseguição de 11 minutos ainda hoje não foi superada e foi imensamente copiada. Frank P. Keller venceu o Oscar de melhor montagem pelo filme. A perseguição foi tão influente que estabeleceu um novo modelo: o carro não mais como acessório, mas sim como extensão do personagem. E outro ponto interessante da montagem: ela alterna com perfeição a lentidão investigativa e  a explosão das cenas de ação. Isso torna a ação mais impactante. O ritmo pode surpreender os espectadores atuais. Bullitt é mais lento do que muitos imaginam. Quem chega esperando ação constante talvez estranhe um pouco.

Bullitt foi incluído no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos EUA em 2007, reconhecimento reservado a filmes considerados cultural, histórica ou esteticamente significativos. Deixou também um legado imenso: redefiniu a perseguição automobilística, consolidou Steve McQueen como ícone absoluto, transformou San Francisco em espaço cinematográfico mítico, influenciou o policial urbano dos anos 1970 e elevou o realismo de locação no cinema de ação.

A trilha de Lalo Schifrin (Missão:impossível) mistura jazz, tensão urbana e modernidade. Ela não está presente o tempo todo e aparece com precisão durante todo o filme.

Bullit está disponível nos streamings da Amazon, Looke e Apple TV.

Minha nota para esse filme é: