
24 Horas no Limite não é apenas um filme sobre automobilismo. É um manifesto. Um experimento sensorial. Uma tentativa quase suicida de capturar a obsessão humana pela velocidade, pela permanência e pela transcendência.
Os irmãos André e Salomão Abdala criaram algo raro no cinema brasileiro: uma obra que pensa menos em “contar uma história” e mais em fazer o espectador sentir fisicamente uma experiência. E justamente por isso o filme divide opiniões. Alguns enxergam um marco técnico revolucionário. Outros, um espetáculo vazio emocionalmente.
Mas talvez a verdade esteja exatamente nessa contradição. 24 Horas no Limite foi o filme mais arriscado da história recente do cinema brasileiro, pois ele nasce num território perigosíssimo para o mercado nacional. Ele ousa em ser documentário híbrido sobre automobilismo, totalmente filmado para o formato IMAX usando uma linguagem experimental sem nenhum autor famoso e usando uma narrativa muito pouco usada. Isso é praticamente o oposto do que o mercado brasileiro costuma financiar.
Mesmo sem ainda termos os números públicos oficiais de orçamento e bilheteria até agora, o projeto já representa uma vitória industrial enorme por vários motivos: Foi o primeiro filme brasileiro concebido para IMAX. Só isso sozinho muda a percepção internacional do cinema nacional. O IMAX não é apenas um formato: é um selo de legitimidade técnica.
O cinema Brasileiro sempre nos entregou: dramas sociais, comédias, filmes de favela ou cinema político ne maioria de seus lançamentos. Mas raramente exporta Experiência cinematográfica.
24 Horas no Limite tenta entrar no mesmo território de: “Top Gun: Maverick”, “Ford v Ferrari” e “Rush” sem nenhuma presunção nem falsa modéstia. E isso tudo com orçamento de cinema brasileiro.

A associação com Porsche Motorsport não foi apenas para efeitos de marketing. Ela transformou esse filme em: uma produção de conteúdo premium automotivo e também em produto de nicho internacional. Isso abre possibilidades futuras para: o mercado de streaming internacional, o circuito de festivais automotivos e o competitivíssimo mercado de experiências IMAX.
Ouso dizer até que financeiramente, talvez, esse filme não precise virar um blockbuster tradicional.
Na minha opinião ele já venceu ao: abrir o mercado Brasileiro para esse tipo de produção, criar reputação de que sabemos fazer bem feito ao provar nossa capacidade técnica.
Eis aqui está um ponto que eu considero central nessa produção: Muita gente criticou o filme porque esperava um drama esportivo clássico. Mas 24 Horas no Limite não quer ser nem é sobre isso. O filme quer passar o seguinte para o espectador: sensação, ansiedade, fadiga, ruído, adrenalina e desorientação.
Vários críticos concordam numa coisa: o som desse filme é extraordinário. E isso faz todo sentido porque Le Mans não é apenas visual. Le Mans também é: vibração, o som dos motores, a chuva, a frequência e a fadiga auditiva.
Nas suas devidas proporções, o som no filme funciona tão bem quanto em Dunkirk, de Christopher Nolan: O espectador é “agredido” pela grandeza do som. O IMAX aqui não é exibicionismo, é pura filosofia visual. A escala gigante do IMAX transforma carros em projéteis, chuva em ameaça existencial e velocidade em vertigem.
Os melhores momentos dessa produção nos levam a concluir que: “o ser humano criou máquinas rápidas demais para o próprio cérebro compreender.” Nada pode ser mais cinematográfico do que isso.
O piloto Felipe Nasr não é tratado como “personagem”. Ele representa: obsessão, disciplina, repetição, ego e obstinação pelo desempenho. 24 Horas no Limite faz uma importante pergunta em filmes dessa natureza: “O que faz alguém arriscar a vida por alguns segundos de vantagem?”. E essa é a mesma pergunta que fazemos a: gladiadores, alpinistas, astronautas e pilotos de guerra.
24 Horas no Limite provou que o Brasil pode: produzir cinema técnico de altíssimo nível, competir visualmente, criar uma experiência premium jamais vista em nossos cinemas e sair do eixo “novela social”. Isso abre portas para: o cinema esportivo brasileiro e o cinema IMAX nacional. Até mesmo as falhas nessa produção são importantes. Porque se você ousa, você erra, e defeitos ambiciosos valem mais que acertos covardes.
No resumo da ópera, 24 Horas no Limite não é mais um filme sobre carros. É também um filme sobre homens tentando vencer o tempo e seus próprios limites. Le Mans dura 24 horas porque ela simboliza uma vida inteira comprimida. E os pilotos correm nesse que é um dos maiores desafios automobilísticos mundiais porque querem provar algo impossível: que o caos pode ser dominado.
Mas quase ninguém consegue. Porque o carro quebra, a chuva cai, o corpo falha e a mente cansa. E o mais impressionante e humano em tudo isso é que eles continuam, não desistem.
24 Horas no Limite não é um filme perfeito. Mas é a imperfeição que eu admiro: a imperfeição ambiciosa. Pois em alguns momentos ele tenta ser drama e tenta ser pretensioso um pouco demais. Mas em compensação ele é revolucionário tecnicamente, cria uma imersão pouca vezes vista, dá novos ares ao cinema Brasileiro. Em um cenário dominado por filmes seguros, previsíveis e algoritmizados, 24 Horas no Limite escolhe correr risco real — exatamente como é em Le Mans. E é talvez seja por isso que esse filme tenha chamado tanto a minha atenção.
Minha nota para esse filme é:
