
Os anos 80 e 90 foram para o cinema, quando surgiram as ideias mais originais em termos de quantidade que temos notícia seja qual for o orçamento da produção. E no clássico das quintas de hoje vamos comentar justamente uma dessas produções de ideia original: F/X – Assassinato Sem Morte.
Lançado em 1986 e comandado por Robert Mandell dos interessantes O substituto e Código de Honra. F/X trazia em seu elenco o Australiano Bryan Brown de Cocktail e o falecido e grande ator Brian Denehy de A Marca da Corrupção e Acima de Qualquer Suspeita.
O roteiro de F/X foi escrito por Robert T. Megginson e Gregory Fleeman de F/X 2 que partia de uma ideia simples, mas original: um especialista em efeitos especiais de cinema é contratado pelo FBI para simular um assassinato — mas acaba envolvido em uma conspiração real. F/X foi lançado na época certa nos cinemas quando o gênero policial buscava novas formas de reinvenção, incorporando tecnologia, paranoia e metalinguagem ( que nada mais é que a linguagem que descreve sobre ela mesma. Ou seja, ela utiliza o próprio código para explicá-lo).
F/X é uma daquelas produções auto sustentável que repousa sobre uma ideia central engenhosa: a manipulação da realidade por meio da ilusão. Rollie Tyler (Bryan Brown), o protagonista, não é um detetive tradicional nem um herói de ação — ele é um criador de “falsidades verossímeis”. E isso melhora a qualidade dessa produção, pois não se trata apenas de descobrir a verdade, mas de compreender como a verdade pode ser fabricada. O roteiro surpreende e constrói tensão ao inverter expectativas: o homem que domina o controle da cena passa a ser vítima de um roteiro que ele não escreveu.
F/X antecipa, de certo modo, a ideia de que a simulação não apenas imita o real, mas o substitui. O assassinato encenado, que deveria ser falso, desencadeia consequências reais, mostrando que a linha entre ficção e realidade é mais porosa do que se imagina. Outro ponto levantado pelo roteiro é sobre o poder da imagem. O cinema é apresentado como forma de manipulação — não apenas artística, mas política e institucional. O FBI, no filme, utiliza a encenação como estratégia, sugerindo que até mesmo instituições que deveriam representar a verdade podem operar através da ilusão ( quando lhes é conveniente). Isso levanta uma questão ética importante: quem controla a narrativa controla a percepção da realidade.

F/X antecipa também produções posteriores que explorariam tecnologia e simulação, como Vidas em Jogo (1997) e até mesmo Matrix (1999). Sua ousadia está em está em trazer o backstage do cinema para o centro da ação, algo que era incomum à época.
No aspecto financeiro, F/X – Assassinato Sem Morte foi um sucesso moderado, especialmente considerando seu orçamento relativamente baixo (aproximadamente US$ 10 milhões). O filme arrecadou cerca de US$ 21 milhões nas bilheteiras norte-americanas, o que o coloca como um produto rentável dentro do padrão de produções de médio porte dos anos 80. Esse desempenho evidencia uma boa relação custo-benefício, reforçando a ideia de que conceitos originais, mesmo sem grandes estrelas, podem gerar um bom retorno financeiro. E mais, o filme teve vida longa no mercado de vídeo doméstico, que na época começava a se consolidar como uma fonte importante de receita. O sucesso relativo levou à produção de uma sequência (F/X2, em 1991) e até mesmo a uma série de televisão nos anos 1990 que durou 2 temporadas. Isso mostra como uma ideia forte pode ser explorada em múltiplos formatos, algo que hoje é prática comum na indústria, mas que naquela época ainda estava em desenvolvimento.
Mesmo sendo um filme essencialmente sobre efeitos especiais, F/X não depende de efeitos especiais caros — ironicamente, sendo um filme sobre efeitos especiais — mas sim de criatividade e engenhosidade, o tornando uma obra que transcende seu gênero ao propor uma reflexão sobre ilusão e poder. Se formos comparar com as produções do cinema atual, F/X prova que boas ideias podem ser mais valiosas do que grandes orçamentos.
F/X – Assassinato Sem Morte está disponível do streaming da Prime.
Minha nota para esse filme é:
