O diretor David Frankel preferiu apostar no óbvio e apenas atualizou a trama de O diabo Veste Prada para o mundo da moda atual. Preferiu apostar no óbvio lucrativo do que na ousadia da incerteza financeira. Mesmo trazendo e concentrando a trama no mesmo quarteto do filme original lançado a exatos 20 anos.

Quem nasceu para ser rainha, jamais perderá a majestade. Meryl Streep retorna como a insuportável Miranda que aprendemos a amar e que ainda está mais amarga com o passar dos anos. Anne Hathaway nos traz uma Andrea meio que sem nenhuma novidade. O destaque mais interessante fica por conta das participações de Stanley Tucci e Emily Blunt. O elenco de novidades, está recheado de ótimos atores mas, infelizmente, em participações totalmente apáticas e que se não fizessem parte da trama, não atrapalhariam em nada o andamento da produção. Kenneth Branagh do excelente Voltar a Morrer tem muito pouco tempo de tela. Lucy Liu de Kill Bill nem se fala e os coadjuvantes Simone Ashley e Caleb Hearon estão lá porque o roteiro exige, mas nem como alívio cômico eles são usados.

As roteiristas Aline Brosh McKenna de Cruella e Lauren Wisberger, cujo outro único trabalho como roteirista foi O diabo Veste Prada 1 preferiram o óbvio ao novo (como citei no início da matéria) e nada acrescentaram a não ser uma atualização da trama para uma versão 2.0. Se o primeiro filme capturava a entrada de um indivíduo no sistema da moda, a sequência inevitavelmente desloca o foco para algo mais complexo: a permanência, a adaptação e, sobretudo, o custo psicológico e moral dessa permanência.

O diabo Veste Prada 2 tenta provar que não existe saída do “sistema”, apenas diferentes formas de participação nele. Meryl Streep mostra, com a perfeição de sempre, que Miranda se tornou a personificação do poder. Seu problema não está na sua dureza, mas na impossibilidade de existir fora desse papel.

Um dos acertos do diretor David Frankel foi tentar mostrar que o mundo digital da moda de hoje está cada vez menos nas mãos de pessoas como Miranda e cada vez mais nas mãos dos influencers, das plataformas digitais e dos algoritmos de tendência. Ou seja, mesmo que o mais visto, visitado e vendido seja de péssimo gosto em qualidade ou visual, é esse mais visto quem vai ditar o rumo da moda. A moda não deixa de ser um instrumento de poder — ela apenas muda de operador. Eu, sinceramente, nunca vi tanto mal gosto visual na moda de hoje.

Para justificar sua existência, O Diabo Veste Prada 2 precisaria abandonar o conforto narrativo do original e assumir um tom mais ambíguo, mais crítico e, sobretudo, mais realista. Deveria entrar no tema do preço invisível do sucesso que todos pagam quer queiramos ou não e a impossibilidade de sermos neutros quando o poder está em nossas mãos.

Minha nota para esse filme é:

Caso seja do seu interesse, confira abaixo o trailer de O diabo Veste Prada 2.