
Richard Donner (Superman – O filme, A Profecia, Máquina Mortífera) dirigiu O Feitiço de Áquila em 1985, reunindo Michelle Pfeiffer (As bruxas de Eastwick), Rutger Hauer (Procurado vivo ou morto) e Matthew Broderick (Curtindo a vida adoidado) em uma fantasia medieval romântica que infelizmente até hoje não consigo entender o porque, fracassou comercialmente em seu lançamento, mas acabou se tornando um clássico cult para várias gerações. O filme custou cerca de US$ 20 milhões e arrecadou aproximadamente US$ 18,4 milhões nos cinemas, ficando abaixo do ponto de equilíbrio financeiro. Mas sua importância cinematográfica vai muito além dos números.
O Feitiço de Áquila é uma fábula medieval sobre o amor condenado pela incompatibilidade do tempo. A história acompanha Philippe Gaston, um ladrão que escapa das masmorras de Áquila e acaba envolvido na vingança de Etienne Navarre, antigo capitão da guarda. Navarre viaja acompanhado de um falcão, que na verdade é Isabeau, sua amada. Ambos foram amaldiçoados pelo Bispo de Áquila, que, consumido por desejo, ciúme e orgulho, prefere condená-los a vê-los felizes. Eles se veem, se acompanham, se protegem, mas quase nunca se encontram como humanos. A beleza da ideia está em sua simplicidade. É uma maldição visual, poética e imediatamente compreensível. O filme não precisa explicar demais: basta mostrar o amanhecer e o entardecer para que o espectador entenda a tragédia.
Richard Donner mostra com maestria ao espectador duas formas de amor: a de Navarre, que ama Isabeau como a pessoa que ela é e a do bispo de Áquila que deseja ter Isabeau como sua propriedade. Essa diferença é essencial. O Bispo não sofre porque ama; ele sofre porque não controla. Sua paixão é narcisista. Ele não quer a felicidade de Isabeau, ele quer que ela exista dentro do alcance do seu desejo. Navarre, ao contrário, sofre porque ama alguém cuja presença plena lhe foi retirada. Seu amor não é posse; é fidelidade. Essa oposição dá ao filme uma dimensão moral muito forte: amor verdadeiro preserva a liberdade do outro; amor corrompido tenta aprisioná-lo.
A força de O feitiço de Áquila vem do fato de que a maldição fantástica representa algo profundamente humano. Muitas pessoas vivem relações em que há amor, mas falta encontro. Existem casais que se amam, mas estão em tempos emocionais diferentes. Um está pronto; o outro não. Um quer permanecer; o outro precisa fugir. Um fala; o outro se fecha. Um lembra; o outro tenta esquecer. Navarre e Isabeau são a versão mítica desse desencontro. Eles estão sempre próximos, mas existencialmente separados. A maldição diz, em forma de fantasia: às vezes, amar alguém não basta para estar com alguém.

A escolha dos animais representando a maldição é brilhante. Richard Donner acertou em cheio quando tomou essa decisão. O lobo, que representa Navarre, mostra: solidão, força, instinto, exílio, violência contida. Ele é um cavaleiro nobre, mas sua forma animal revela sua dimensão selvagem. À noite, quando o mundo humano dorme, ele se torna criatura da escuridão. O falcão, que representa Isabeau, mostra: beleza, visão, elevação, liberdade, espiritualidade. Durante o dia, ela voa acima do mundo. Está livre no céu, mas aprisionada pela própria forma.
Michelle Pfeiffer aparece menos do que a memória afetiva do filme sugere. Isso é interessante: Isabeau é mais sentida do que vista. Rutger Hauer dá a Navarre uma mistura de dureza e melancolia. Ele não interpreta apenas um guerreiro. Interpreta um homem que continua vivo por disciplina, não por alegria. Matthew Broderick interpreta Philippe Gaston, o ladrão, bufão, sobrevivente e narrador involuntário. Ele é o elemento mais “moderno” do filme. Sua função é importantíssima: ele humaniza o drama da narrativa. Acho que o público de 1985 não estava preparado para tudo isso junto.
A fotografia é de Vittorio Storaro (O céu que nos protege, Apocalypse now), um dos grandes nomes da cinematografia. O filme usa paisagens, castelos, florestas, neve, pedra e luz para criar uma Idade Média mais poética do que realista. Ele busca encantamento. As locações europeias ajudam muito. A natureza não é fundo neutro; ela participa da maldição. O amanhecer e o crepúsculo são personagens.
Outro ponto que não podemos deixar de lembrar é a trilha sonora. Andrew Powell conseguiu mostrar o aspecto mais polêmico do filme. Em vez de uma música medieval tradicional ou uma orquestra épica clássica, o filme usa sintetizadores e uma sonoridade muito marcada pelos anos 1980. Para muitos espectadores, isso quebra a atmosfera. Para outros, dá identidade ao filme. Concordo com a segunda parte: a trilha chega a ser em alguns momentos irregular, mas fascinante. Em outros, cria uma sensação de sonho pop-medieval que nenhum outro filme tem. Ela envelheceu? Podemos dizer que sim. Mas envelheceu bem, não apenas como parte negativa.
O filme tem 121 minutos e às vezes sente o peso dessa duração. Foi bastante criticado por ser longo em demasia. Segundo a crítica “especializada da época”, há momentos contemplativos que fortalecem o romance, mas também há trechos em que a narrativa perde tensão. O roteiro alterna aventura, comédia, tragédia, romance e fantasia espiritual. Nem sempre o equilíbrio é perfeito. Esse é um dos motivos pelos quais parte da crítica (68%) apontou problemas de ritmo. O consenso crítico atual do Rotten Tomatoes também menciona problemas de andamento, embora reconheça a força romântica do filme. Mas, na minha opinião, O Feitiço de Áquila vai além disso, ele consegue ser uma balada medieval. Um poema em forma de aventura.
E com todas essas qualidades e esses poucos defeitos apontados, por que O feitiço de Áquila foi um fracasso comercial? Primeiro, porque era difícil de vender. Não era aventura pura, nem romance puro, nem comédia pura, nem fantasia infantil. Era uma fantasia romântica melancólica com humor moderno e estética medieval. Segundo, porque a fantasia dos anos 1980 era um território instável. Havia espaço para obras cult, mas nem sempre havia grande público para fantasia adulta de tom lírico. Terceiro, porque o filme talvez tenha sido caro demais para seu potencial comercial imediato. A incongruência é que justamente o que o tornou difícil de vender foi exatamente o que o tornou memorável.
O Feitiço de Áquila não é um filme perfeito. Tem alguns problemas de ritmo, uma trilha controversa e personagens secundários que poderiam ser mais profundos. Mas é um filme raro. Sua premissa é poeticamente brilhante. Seu imaginário é forte. Seu romantismo é sincero. Sua melancolia é duradoura. A maior qualidade do filme é transformar uma ideia fantástica em uma verdade humana: há amores que não sofrem por falta de sentimento, mas por falta de tempo comum. No fundo, O Feitiço de Áquila não fala apenas de uma mulher-falcão e de um homem-lobo. Fala de pessoas que se amam, mas vivem separadas por ciclos, culpas, poderes e desencontros. É por isso que o filme permanece. Porque sua fantasia é medieval, mas sua dor é contemporânea.
O feitiço de Áquila está disponível nos seguintes streamings: Disney + e Flat.
Minha nota para esse filme é:
