Dia D | Crítica: Steven Spielberg vai te fazer acreditar… em cinema de  novo! – ArrobaNerd

Steven Spielberg passou quase cinquenta anos filmando o desconhecido. De Contatos Imediatos do Terceiro Grau a E.T., de Guerra dos Mundos a A.I., poucos cineastas transformaram o encontro com o “outro” em algo tão profundamente humano. Com Dia D, Spielberg retorna ao território que ajudou a definir, mas o faz sob uma perspectiva radicalmente diferente: não mais a descoberta do extraterrestre, mas a revelação pública de sua existência e as reais consequências dessa revelação. O resultado é uma obra ambiciosa, fascinante, irregular em seu segundo ato e profundamente pessoal. Um filme que será bem melhor compreendido pelo público se o espectador conhecer toda a carreira do diretor. Um dos pontos mais interessantes em Dia D, é que também funciona simultaneamente como thriller , ficção científica, comentário político e reflexão filosófica sobre verdade, fé e humanidade.

O grande mérito do roteiro de David Koepp é mostrar que o alienígena não é o centro da narrativa. O centro aqui é a reação humana. Spielberg consegue transformar o conceito de “divulgação” em uma bomba filosófica. A pergunta não é se os extraterrestres existem, mas sim quais as consequências quando não podemos mais negar a existência deles. Essa mudança de foco dá ao filme uma identidade própria dentro da filmografia do diretor.

Dia D mostra um Spielberg amadurecido com o tempo, pois aqui ele coloca toda sua filmografia em prática sem usar o “copia e cola”. Ele faz uma atualização de tudo que ele já usou. Se Contatos Imediatos falava sobre esperança, Dia D fala sobre paranoia. Se E.T. falava sobre amizade, Dia D fala sobre informação. Se Guerra dos Mundos falava sobre sobrevivência, Dia D fala sobre verdade.

Spielberg escolheu um elenco de ótimos atores que que entregaram um grande e espetacular resultado. Emily Blunt e Colin Firth entregam as melhores atuações do elenco sem a menor sombra de dúvida. A atuação dela oscila entre o medo, o fascínio, a dúvida e a transcendência. E Colin Firth nos entrega um antagonista particularmente interessante. Em vez de um general militar ou político corrupto, Spielberg escolhe um executivo corporativo. Não é acidente. O filme sugere que o poder contemporâneo não está mais nos governos. Está nas corporações.

A fotografia de Janusz Kamiński faz Dia D ser visualmente magnífico. A mudança do uso da luz, nos faz lembrar diretamente Contatos Imediatos, mas agora com tonalidades mais frias e melancólicas.  E colaborando pela 30ª vez com o diretor, John Williams entrega uma trilha diferente. Procurando não repetir os mesmos trabalhos entregues em seu passado, a trilha de Dia D é algo mais zen, menos espetaculoso e um tanto quanto mais melancólico. John Williams conseguiu captar com sua sabedoria que Dia D é um filme que mostra um Spielberg octogenário olhando para os mesmos céus que observava em 1977, mas agora carregando décadas de experiência e desencanto.

O conceito central do filme é brilhante. Normalmente imaginamos a verdade como libertação. Spielberg nos mostra justamente o contrário: a verdade pode ser traumática. Quando uma revelação muda toda a estrutura da realidade que fomos induzidos a acreditar, ela produz caos antes de produzir conhecimento. Steven Spielberg David Koepp mostram que nós não somos nem especiais nem únicos nesse universo.

Uma das abordagens mais interessantes em Dia D é que a revelação alienígena não elimina a religião. O filme sugere que fé e ciência podem não ser inimigas, pois ambas tentam responder à mesma pergunta: Quem somos nós?

Mas, infelizmente, nem tudo é perfeito em Dia DSpielberg foi “obrigado” a entregar sequências totalmente hollywoodianas para satisfazer ao estúdio que poderiam muito bem ter ficado de fora. Há sequências inteiras de fuga e espionagem que parecem pertencer a outro filme. O segundo ato é particularmente irregular e um tanto quanto excessivamente longo. O terceiro ato é onde o filme mais claramente vai dividir opiniões. Spielberg optou pela emoção em vez da explicação. Os espectadores que buscam respostas concretas sairão frustrados, e os que procuram uma experiência espiritual provavelmente sairão encantados. Mesmo com essas poucas falhas aqui por mim apontadas, o encerramento é coerente com toda a carreira do diretor: o mistério importa menos do que a transformação humana produzida por ele.

Resumo da ópera: Dia D não é o melhor Spielberg porque: não possui a perfeição de Tubarão, não possui a emoção devastadora de A Lista de Schindler, não possui a magia pura de E.T., mas talvez seja seu filme de ficção científica mais ambicioso desde A.I.. É uma obra madura, reflexiva e surpreendentemente atual. Um filme que troca invasões por revelações. Monstros ao invés de perguntas. Troca espetáculo por inquietação, mas que ainda sim consegue ser uma ficção científica grandiosa, filosófica e emocional que funciona.

Minha nota para esse filme é: