
No final dos anos 80, em 1987 para ser mais específico o cinema estava precisando se reinventar no quesito filmes de parceria. A era dos famosos “buddy cops” como dizem os estadunidenses já estava ficando saturada. Essa súplica foi atendida quando a junção do talentosíssimo diretor Richard Donner de Superman – O Filme e do mega produtor Joel Silver (a época) que tinha acabado de entregar O Predador e estava preparando a entrega de Duro de Matar no ano seguinte aconteceu. O resultado dessa junção: Máquina Mortífera.
Eu sempre gosto de dizer que: não é o que você tem, é como você usa o que tem. Um roteiro “aparentemente” simples, mas filmado com comprometimento, seriedade e um ponto de vista único não poderia ter outro resultado senão o de um filme divisor de águas que mesmo com os modismos e situações típicas dos anos 80 que alguns acham inviáveis até hoje, Máquina Mortífera ainda é um filme atual e perpetuado que fincou seu lugar no hall dos grandes filmes policiais do cinema moderno.
A primeira vista, Máquina Mortífera é apenas mais um típico filme policial dos anos 80. Mas essa produção é muito mais que um simpes filme de ação, drama, aventura com leves pitadas de comédia. É também um filme sobre aceitação do luto, suicídio e total desprezo pela vida, e que, uma nova amizade, quando ela é sincera, honesta e dentro dos valores corretos pode tirar você do fundo do poço. Um filme bem fiel ao biênio final da era Reagan (Vietnã, traumas, drogas, mercenarismo, soldados vindo da guerra usando suas habilidades tanto para construir quanto para destruir). E é essa mistura de emoções e situações que torna esse filme muito mais do que apenas mais um filme de ação e aventura.

A maneira como o diretor Richard Donner introduz os dois personagens principais é fantástica: de um lado temos Martin Riggs (Mel Gibson) que é apresentado de forma caótica, sozinho, bêbado, vivendo num trailer bagunçado, a famosa cena em que ele coloca a arma na boca, chorando, revela um sujeito que não está brincando com a ideia de morrer; ele é, de fato, um suicida em potencial. No outro lado da moeda, temos o policial Roger Murtaugh (Danny Glover) que é totalmente o oposto e começa sendo mostrado no banho, em seu aniversário de 50 anos, com a família entrando no banheiro. Ele personifica a família tradicional, o pai provedor, envelhecendo, com a sensação ambígua de que “ Será que já fiz tudo o que tinha que fazer?”. O choque entre esses dois mundos também é um dos altos pontos desse filme. O homem que quer sobreviver para poder desfrutar de todos os momentos com sua família e o homem que não se importa em morrer, se arriscando a todo e qualquer custo. É esse entrosamento entre esses dois polos totalmente opostos que move o filme.
A medida que a amizade e o companheirismo entre os dois vai se aprofundando e Riggs começa a ser acolhido, ele passa a experimentar um tipo de lar adotivo, ele descobre que talvez exista um lugar para ele no mundo e que ele não seja apenas a função de “máquina mortífera”. um dos diálogos mais impactantes do filme é quando Riggs fala para Murtaugh o que sabe fazer de melhor na vida. Esse diálogo é fundamental para que possamos compreender o espírito desse filme. A motivação de cada personagem.
Máquina Mortífera consegue nos mostrar que o sentido da vida pode ser reconstruído na relação com o outro, pois a “saída” para essa situação não vem de um discurso, vem de ser necessário para alguém. Richard Donner ousou quando decidiu mostrar um homem totalmente quebrado por dentro que encontra uma saída.
Uma outra pergunta frequentemente feita ao longo das quase 2 horas da projeção de Máquina Mortífera é uma pergunta que jamais irá envelhecer: os fins justificam os meios? Se o nosso inimigo é mal e faz de tudo para que nós soframos, é legal e moral fazermos o mesmo com eles?
Muito do público e também da crítica não consideram Máquina Mortífera como um filme de Natal. Mas além de se passar na época de Natal, o filme fala sobre a família, a reconciliação consigo mesmo, o nascimento da esperança de quem não tem nada nem ninguém para celebrar.
A genialidade do diretor é mostrada de várias formas. Em Máquina Mortífera, Richard Donner usa uma filmagem mais nervosa, mais ágil, com cortes rápidos e enquadramentos que ilustram a instabilidade quando as cenas são com Mel Gibson e uma filmagem mais estável, com planos que valorizam o lar e a união quando Danny Glover é o destaque.
Eu sempre gosto de filosofar um pouco nos meus comentários e aqui vai uma pergunta para um futuro debate sobre essas questões: quem é realmente a máquina mortífera que dá título ao filme? O indivíduo ou o sistema que o fez se tornar dessa maneira. Martin Riggs é útil até o momento em que ele cumpre com suas obrigações fazendo da linha que separa o herói do vilão bem fina e frágil, podendo ser rompida a qualquer instante.
Em resumo, Máquina Mortífera é uma produção bem a frente do seu tempo pois funciona como cinema entretenimento, funciona também como drama contando a história de um suicida que encontra a redenção, o abandono que o estado dá aos seus veteranos de guerra que lutaram por um ideal falido e meramente frugal, e acaba sendo um mito moderno sobre morte, amizade e redenção – encenado com armas, explosões e piadas, porque essa era (e ainda é) uma das linguagens preferidas da cultura de massa para falar de coisas que doem demais se ditas diretamente.
Antes de dar minha nota, gostaria de fazer um pequeno adendo: foi disponibilizado a alguns anos em DVD somente no mercado americano uma versão com vários minutos adicionais incorporados ao filme. A famosa versão do diretor. Eu tive acesso a essa versão e posso dizer com certeza que é ainda mais interessante pois ela é mais profunda na construção dos personagens e consegue tornar o que já era bom, muito melhor.
minha nota para esse filme não poderia ser outra senão:
