De vez em quando eu costumo usar a seguinte frase: “Poucas são as coisas que me impressionam no mundo de hoje” principalmente quando falamos em termos cinematográficos. E afirmo com o coração cheio de comprazimento que o cineasta Baz Lurhmann conseguiu me impressionar com sua mais nova produção: E.L.V.I.S – Elvis Presley In Concert.

Vamos começar dizendo que fui ao cinema preparado para assistir mais um documentário sobre Elvis com algumas cenas inéditas, conforme foi anunciado. Material encontrado quando ele estava fazendo a pesquisa para o filme Elvis de 2022 com Austin Butler e Tom Hanks. O que Lurhmann entregou foi algo completamente diferente de um documentário. Foi uma experiência que ao invés de falar sobre Elvis, que era o que todos estavam esperando ver, acabamos por ver Elvis “acontecer” diante de nós.

Já vi muitos documentários com imagens restauradas nesses últimos anos que também mostraram material inédito sobre Os Beatles, David Bowe, Freddie Mercury e outros artistas e bandas. Mas a restauração e a montagem que Baz Lurhman fez beira a perfeição. Agora, é muito importante que E.L.V.I.S ser conferido no cinema em uma sala IMAX ou o similar parecido. Baz Lurhmann trabalhou para priorizar a exibição nesse formato. O impacto e a percepção será muito, mas muito maior e muito melhor se a experiência for nesse formato.

Baz Lurhmann preferiu fazer um “filmentário” (filme+documentário) – me perdoem se essa palavra não existir –  aonde ele troca argumento por aparição. A verdade aqui não é o conjunto de fatos sobre Elvis, mas sim uma mas uma verdade fenomenológica: como é estar diante dele, e o que isso faz com a gente. Tenho de confessar que não sou muito fã do estilo de Baz Lurhmann e não gostei muito de Elvis – o filme de 2022. Mas tenho certeza que se ele tivesse escolhido outro diretor para esse projeto, o resultado teria sido completamente diferente.

A tecnologia da restauração está de parabéns, pois conseguiu trazer de volta e transformar essa produção em um evento único. Elvis não é apenas pessoa; é propriedade cultural disputada por indústria, fãs, crítica, tabloides, memória familiar. O filme nasce de material “desenterrado” e restaurado: rolos/caixas de filmagens raras de performances (Las Vegas/turnês) que passaram por um trabalho de recuperação meticuloso.
E Luhrmann opta por um Elvis que contraria o clichê do “fim decadente” (gostei bastante dessa escolha) e do personagem-caricatura: ele consegue mostrar um Elvis potente, preciso, carismático, musicalmente ligado, com um domínio de palco que pouco se viu até hoje  — um Elvis que recoloca o fim de carreira sob outra luz. A interação dele com a banda é incrível.

Baz Lurhmann consegue humanizar Elvis Presley mostrando humor, vulnerabilidade, bastidores, pequenas hesitações, um Elvis que existe no intervalo entre o homem e o ícone. Ele nos mostra que o mito é uma forma social do humano — e o humano, no caso de Elvis, foi devorado pela necessidade social de mito. Em momento algum Baz Lurhman usou deepfake (até onde as fontes descrevem, é arquivo restaurado e montagem). E toda essa montagem e restauração mudam e ampliam a nossa experiência: vemos aqui um Elvis “novo”, mais próximo, mais nítido do que a maioria viu na época.

A montagem de Luhrmann tende a valorizar a arte e a potência de Elvis. Mas é justamente por isso que o contraste fica ainda mais dramático. Quanto mais o filme prova que Elvis era grande ali, performando,  mais sentimos o absurdo de um sistema que precisa que a grandeza seja ininterrupta. É como se o humano não tivesse direito ao limite.

Em resumo: E.L.V.I.S é um filme sobre o desejo impossível dentro de todo fã: querer que algo acontecido continue acontecendo. E talvez seja essa a definição mais honesta de quem ama cinema: a arte de transformar tempo em presença, mesmo sabendo que presença nenhuma vence a morte, mas algumas conseguem, por instantes, fazê-la recuar.

Outro ponto que gostaria de acrescentar é também parabenizar ao público que conferiu junto comigo a E.L.V.I.S na sessão do IMAX. Um público maduro que se comportou como todo público deveria se comportar. Isso faz a experiência cinematográfica ser ainda melhor. Fiquei emocionado de ver fãs mais velhos, famílias e também fãs solitários. Espero que o público responda e que os responsáveis pela sala IMAX deixem esse ótimo filme pelo menos mais uma semana em cartaz. O Público merece. Irei rever no cinema, com certeza.

Minha nota para esse filme é: