O Frio da Morte - Paris Filmes

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma coisa é irmos conferir mais uma cabine de imprensa sem a menor expectativa que vamos ver um filme bom, outra coisa é sairmos dessa mesma cabine felizes pois o filme apresentado é bem melhor do que a maioria das porcarias que nos são empurradas semanalmente tanto pelos streamings quanto pelo cinema.

Com previsão de estreia para o dia 19 de fevereiro, O Frio da Morte é dirigido por Brian Kirk do também acima da média Crime Sem Saída. Ambos os roteiristas dessa produção, o compositor Nicholas Jacob-Larson (estranho não acham, um compositor se aventurando como roteirista?) e o ator Dalton Leeb estão estreando no cinema com o primeiro trabalho apresentado. Sabendo desse fato e vendo o filme pronto, vocês entenderão a nota que darei ao final dessa matéria.

Para o elenco principal foram escaladas a ganhadora do Oscar Emma Thompson, que venceu por Retorno a Howards End, Judy Greer do excelente Cadê você, Bernadette? e Laurel Marsden de O Exorcista do Papa.

O Frio da Morte nos traz uma interessante indagação: “Quando ninguém está olhando — e ajudar te coloca em risco — mesmo assim, você ainda ajuda?”

Emma Thompson vive uma viúva amarga e em luto não só pela perda do marido, mas não muito satisfeita até onde a vida a levou. E isso é sentido no filme sem a precisão de nenhum diálogo. O ambiente frio e nefasto do filme é um personagem a parte, mostrando um mundo totalmente impessoal que não passa a mão nem adula ninguém. Nevasca, isolamento, ausência de sinal e de comunidade transformam a paisagem numa espécie de tribunal sem juiz: só existem escolhas e consequências.

Em produções com temática de sequestro, normalmente já sabemos como as coisas vão acontecer, exceto uma surpresinha aqui e outra ali por mais inventivos que sejam os “plot-twists”. É exatamente nesse ponto que O Frio da Morte se diferencia de outras produções com a mesma temática. O roteiro aqui, nos empurra para para uma ética do cuidado: a protagonista não tem obrigação legal, não tem reforço do Estado, não tem plateia. A personagem de Emma Thompson é (desculpem-me) uma velha e totalmente fora do padrão dos heróis de ação que estamos acostumados a ver no cinema. Ela não a heroína por que quer ser, mas sim, por escolha. Isso é bastante interessante porque somos apresentados a um novo fator sem o gênero precisar ser reinventado.

Judy Greer também está entregando uma ótima vilã e bem mais condizente com o mundo real: repleta de dilemas, defeitos e com um instinto de sobrevivência que justificam (mesmo que errados) os seus atos.

Voltando a comentar sobre o cenário frio escolhido pelos roteiristas: bem escolhido para o que o diretor quis nos mostrar. A neve deixa tudo mais lento e desesperador. Cada movimento tem que ser pensado rapidamente, pois cada movimento pode sair muito caro e nos chega a uma indagação: Em um mundo frio e indiferente, o que resta ao indivíduo? A resposta: A dignidade da escolha. O Frio da Morte não é um filme sobre vencer, é um filme sobre agir.

Infelizmente O Frio da Morte dá uma escorregada no ato final e, mesmo reduzindo um pouco a credibilidade da produção o espectador ganha no impacto emocional. O Frio da Morte não reinventa o gênero de suspense/sequestro/clausura, mas nos surpreende em 3 pontos importantes: Uma protagonista e uma vilã totalmente fora dos padrões que não decepcionam, um heroísmo totalmente verossímil e a violência apresentada que não é glamourizada. Essa combinação gera interesse crítico, mesmo que o roteiro não seja revolucionário.

Minha nota para esse filme é: