
É maravilhoso quando vamos ao cinema e nossas expectativas são superadas. Com Hamnet – A Vida Antes de Hamlet que está programado para estrear em nossos cinemas em 15 de Janeiro do vindouro 2026 é exatamente isso que acontece. Hamnet não é um filme sobre Shakespeare no sentido biográfico tradicional. Shakespeare aqui é usado como intermediário para outra coisa: um estudo intrínseco sobre luto, casamento, maternidade e paternidade e sobre a ideia, por mais perigosa e interessante que possa parecer, de que a arte nasce do trauma e o converte em sentido. Essa ligação entre a morte do filho e a criação de Hamlet é o eixo dramático bastante aprofundado pela recepção e pela própria leitura crítica do filme.
A diretora Chloé Zhao tenta (e consegue) reduzir os sentimentos mostrados ao extremo nesse filme à escala doméstica, ao quarto, ao quintal, à respiração curta depois da pior notícia que um pai ou uma mãe podem receber ainda em vida – a morte de um filho. E isso, em momento algum não desvaloriza Shakespeare; pelo contrário, tenta mostrar que a grandeza cultural pode nascer do que há de mais comum e devastador: a perda. E é aí aonde entra o ponto mais interessante implícito no filme: Chloé Zhao tenta nos mostrar que há dores que não se resolvem, elas são eternas dentro de nós e apenas nós a carregamos de outro modo.

Quero destacar aqui também a entrega e as performances de todo o elenco de Hamnet. Em especial a Jessie Buckley que interpreta com magia, sentimento, emoção e perfeição Agnes, principalmente nas passagens quando nos mostra a relação com o corpo, com o cuidado com os filhos e a família, com a comunidade e com o oculto(a intuição e o pressentimento).
O elenco infantil também é um show a parte nessa produção. Eva Wishart, Effie Linnen e James Lintern conseguem impressionar o público e demonstrar que serão grandes atrizes e ator e que todos tem um futuro bastante promissor no cinema. E devemos não deixar de dizer aqui que todos eles tem como Hamnet seu primeiro trabalho para o cinema.
Analisando com bastante clareza, Hamnet nos faz uma indagação bastante incômoda e que não gostamos quase nunca de responder: Quando a arte transforma a dor em beleza, ela está honrando a perda e respeitando-a — ou está negociando com ela?
Hamnet é um filme que tem de ser sentido muito além de ser entendido. E essa é a tragédia a ser entendida em Hamlet: ninguém vence.
Agnes, a esposa, não falha. William, o marido, também não falha. A morte simplesmente acontece, pois ela é algo inevitável e que quase nenhum de nós está preparado para lidar com a chegada dela. Após a grande perda vivida pelo casal central, o casamento não entra em crise por falta de amor, entra em crise pelo excesso de dor vivida de formas completamente diferentes, pois nenhum dos dois está errado. E muitas vezes, a separação de um casal que se ama nem sempre vem do conflito ou das diferenças, ela vem porque a dor se comunica conosco em diferentes idiomas. Agnes aprende a conviver com a dor e William tenta transformá-la e a transforma em uma das peças mais famosas do mundo não porque superou essa dor, mas justamente pelo fato de não ter conseguido superá-la.
Minha nota para esse filme é:
