O ano de 1973 terminou com gritos de dor ecoando em várias salas de cinema do mundo com o lançamento de O Exorcista. Lançado em um período de profundas transformações culturais nos EUA — Guerra do Vietnã, crise da fé, contracultura e declínio das instituições tradicionais — O Exorcista tornou-se um reflexo do medo coletivo da perda de valores espirituais e da invasão do mal no nosso cotidiano. O filme também surge num momento em que o terror americano se torna mais realista e psicológico, com obras como Psicose (1960) e O Bebê de Rosemary (1968) abrindo espaço para narrativas de horror doméstico, nas quais o mal não vem de fora, mas do nosso íntimo.

Durante os meus quase 30 anos como crítico de cinema, não lembro de nenhum outro filme que tenha me afetado tão profundamente. Um filme que nos faz sentir choque, pavor, repulsa, medo, sofrimento, renúncia e uma questão final de salvação tudo junto e ao mesmo tempo. Somos levados a testemunhar o intenso embate entre a ciência (Será que ela está mesmo doente?) e as explicações metafísicas (A possessão).

O Exorcista foi baseado em um caso real de um garoto de 14 anos que passou por vários rituais de exorcismo em 1949 que foi amplamente divulgado pela mídia da época e serviu de inspiração para o livro de William Petter Blatty que também foi roteirista do filme. William Petter Blatty leu os artigos sobre esse citado exorcismo e ficou intrigado a ponto de investigar o caso profundamente, o que o levou a escrever o livro o qual o filme foi inspirado.

O Exorcista tem seus 3 atos muito bem divididos e equilibrados. A manifestação do mal, quando Regan e sua mãe enfrentam o desconhecido, com progressiva escalada de eventos sobrenaturais. As dúvidas científicas e espirituais, quando os médicos e psiquiatras tentam explicar o inexplicável. E finalmente, o exorcismo e o sacrifício final dos padres.

Se analisarmos friamente e com sabedoria, o personagem principal do filme não é a garota Regan MacNeel e sim o Padre Karras (Jason Miller), um jesuíta em crise espiritual após a morte da mãe. O exorcismo funciona como metáfora para a luta interna entre fé e racionalidade, um duelo entre ciência e religião que marcava a sociedade dos anos 1970. A presença do mal em O Exorcista é tangível, carnal, visível, e não mais apenas um conceito teológico.

O Exorcista foi dirigido por um William Friedkin recém-saído do Excepcional Operação França com Gene Hackman e Roy Scheider. Filme o qual lhe rendeu o Oscar de melhor filme e melhor direção em 1972.

William Friedkin adotou uma abordagem que mistura o sobrenatural com um estilo quase documental, fazendo com que o extraordinário pareça crível. Isso aumenta o impacto, porque o espectador oscila entre o “isso pode estar acontecendo de verdade” e o horror propriamente dito. O uso perfeito da luz, dos sons e da ambientação é feito com bastante cuidado. Cenas escuras, uso de sombras, som ambiente sutil — tudo feito para enfatizar o medo e entregar nas telas o que foi prometido.

Uma das provas que torna O Exorcista tão grandioso foi o fato de sua fotografia principal ter durado mais de um ano. O cronograma inicial de produção era de 85 dias, mas problemas no set e diversos acidentes fizeram com que a duração das filmagens dobrasse, e  por melhor e mais cara que fosse a produção no cinema naquela época, ainda não existia o uso de computação gráfica. Tudo que vemos no filme são efeitos práticos que ainda dão medo até hoje.

Uma das principais polaridades do filme é o embate entre explicações racionais e científicas (psicologia x medicina) e explicações religiosas ou metafísicas (demônio, exorcismo). Chris (a mãe) recorre a médicos, exames e psiquiatras antes de admitir que algo sobrenatural está ocorrendo. O Padre Karras, por sua vez, tem dúvidas de sua própria fé e questiona seu papel e seu equilíbrio entre ciência e crença.

O Exorcista não oferece certezas simplistas. Existe uma tensão permanente entre essas visões, e parte do terror apresentado advém da possibilidade de que nem a ciência nem a religião possam dominar completamente o mistério do mal.

O Exorcista explora onde se traça a fronteira entre o humano e o monstro. Quando a menina Regan é possuída, a identidade humana dela é “subjugada” pelo demônio; mas ainda permanecem os resquícios da criança, como vozes, momentos de lucidez e comunicação com a mãe, e isso nos leva ao questionamento dos dualismos simples que cada indivíduo possui.

Em muitos momentos, quando o “demônio”  dialoga com os padres, ele zomba deles, explora seus medos e fragilidades, e isso sugere que o mal não é apenas “externo”, mas também interno, psicológico e espiritual.

O clímax de O Exorcista traz elementos quase cristãos de sacrifício, quando o padre Karras se oferece e arrisca a própria vida para salvar Regan. O ato final dele tem um sentido de entrega e heroísmo trágico. E isso nos faz tanto refletir quanto pensar nas narrativas religiosas (cruz, morte e ressurreição simbólicas) mostradas no filme.

O filme, por meio do confronto extremo com o mal, não dá soluções fáceis, mas sugere que a fé — mesmo quando equivocada — pode ter papel essencial frente ao inexplicável.

O Exorcista foi o primeiro filme de terror na história do cinema a concorrer ao Oscar de melhor filme. Foi ganhador nas categorias de roteiro adaptado e melhor som, e venceu o Globo de Ouro nas categorias de filme de drama, atriz coadjuvante para Linda Blair, roteiro – William Petter Blatty e melhor diretor – William Friedkin.

Um bom filme de terror não tem que se basear apenas em sustos. Ele pode e muitas vezes deve investir no medo daquilo que não entendemos. Não apenas dos nossos medos de fantasmas e demônios, mas da fragilidade humana frente ao mistério, à morte, à dúvida espiritual.

O papel de Jason Miller, o padre Karras, representa o crente quase descrente, alguém que convive com dúvidas intensas e tenta reconciliar seu papel de sacerdote com sua crise interior. sua trajetória é uma das mais dramáticas e simbólicas do filme.

O Exorcista é muito mais do que um “filme de possessão” ou de sustos — é uma obra que articula em suas camadas simbólicas conflitos entre fé, racionalidade, corpo e transcendência. Sua força está tanto no que mostra quanto no que sugere. A ambientação realista, o uso calculado de efeitos práticos, o equilíbrio entre tensão e calmaria e as motivações humanas tornam-no uma experiência perturbadora e rica. mesmo com o passar das décadas, continua a gerar debates, interpretações divergentes e ser uma referência inevitável no horror.

Minha nota para esse filme não poderia ser outra senão