O anticristo sempre foi e ainda continua sendo motivo de curiosidade para muitas pessoas. Sabendo disso, o cinema vem produzindo filmes com essa temática desde a década de 60. O primeiro filme a ficar famoso a explorar esse tema foi O Bebê de Rosemary em 1968, dirigido por Roman Polansky. Na década de 70 a melhor produção a abordar esse tema foi, sem a menor sombra de dúvidas foi A Profecia. Dirigido por Richard Donner (Superman – O Filme) em seu primeiro filme para o cinema e estrelado por dois grandes atores ainda da era de ouro de Hollywood, Gregory Peck (Os Canhões de Navarone) e Lee Remick (O Telefone). A Profecia mostra que um roteiro aparentemente simples de David Seltzer usa passagens bíblicas do Apocalipse para construir um suspense mais psicológico do que sobrenatural . A ideia de que o mal pode se esconder sob uma aparência comum e respeitável, produziu um dos melhores filmes já feitos até hoje sobre o anticristo.

A Profecia solidifica o medo dos anos 70: a crise da fé, a desconfiança nas instituições religiosas e legislativas e o desassossego familiar. Surgiu em meio à onda de filmes de terror sobrenatural dos anos 1970, impulsionada pelo sucesso de O Exorcista (1973). A premissa é a seguinte: Um diplomata (Gregory Peck) substitui secretamente seu filho nascido morto por um bebê órfão que tem uma certa semelhança com a criança. Anos depois, após vários sinais e mortes “acidentais” levam a crer que a criança, na verdade, é o Anticristo.

A Profecia não é meramente um filme de terror. Vários temas são abordados de maneira profunda durante a projeção. O corrompimento da inocência, as várias falhas e a instrumentalização dos poderes, a luta da fé x razão. Tudo que vemos em A Profecia são efeitos práticos. Na cena dos babuínos, o medo estampado na face de Lee Remick é real. A paleta de cores de uma Grâ Bretanha fria e lúgubre dá o tom perfeito para várias cenas emblemáticas do filme.

Outro “ator” muito importante em A Profecia é a trilha sonora de Jerry Goldsmith (Jornada nas Estrelas – O Filme). O coro em latim (“Ave Satani”) ganhou o Oscar de melhor trilha sonora em 77.

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A Profecia dialoga diretamente com o imaginário cristão a cerca do Apocalipse. A ideia do “número da besta” (666), do falso profeta e do nascimento do Anticristo ganha forma moderna. A angústia entre fé e razão domina a narrativa. Robert Thorn (Gregory Peck) é um homem racional confrontado por algo que desafia toda lógica, sendo ele um político em ascensão, que é símbolo da elite ocidental.  O mal não vem do submundo, mas de dentro do poder político e familiar. Essa inversão é um dos pontos mais perturbadores em A Profecia.

Com A Profecia, Richard Donner prova a que veio no mundo do cinema, aderindo a um estilo clássico sem recorrer a sustos fáceis. O terror nasce da sugestão e do suspense crescente. O uso de enquadramentos amplos e sombrios cria um clima de quase que total paranoia. Outro ponto forte em A Profecia é o perfeito revezamento entre o cotidiano da família e as mortes brutais que os cercam. Cada morte é encenada quase como se fosse um ritual, com coreografias precisas dificilmente vista no cinema moderno de hoje.

A Profecia é um filme sobre o demônio que fala menos sobre o demônio e mais sobre a negação humana diante do mal. O terror não está apenas em Damien, mas na incapacidade de seus pais e da sociedade de enxergar o que está diante deles. É um retrato da fé em crise, da desintegração da família e da vulnerabilidade moral diante do poder. Por isso ainda é tão atual.

Minha nota para esse filme é: