
Segundo alguns dicionários consultados, a expressão “ponto de vista” significa o seguinte: significa tanto o lugar físico de onde se observa algo quanto a perspectiva, opinião ou modo de entender uma situação. E é a primeira (pelo menos que eu me lembre) que eu vejo o filme do ponto de vista de um cachorro. Outras produções como Quatro vidas de um cachorro, Marley e eu não contam porque mesmo mostrando o lado canino, ainda sim é a visão humana do que achamos que seria a reação deles.
O diretor Ben Leoberg escolheu um tema diferente e ousado para sua estreia no cinema e o resultado foi um dos filmes mais interessantes desse ano: Bom Menino. Um terror com uma história já vista em dezenas de outras produções, mas com um diferencial único até hoje. Tudo é visto do ponto de vista de um cachorro. Os humanos do filmes são os coadjuvantes.
O roteiro, escrito pelo próprio Ben Leoberg e por Alex Cannon, ambos estreantes em longa-metragens não poderia ser mais simples: o cãozinho Indy se muda com seu dono Todd para uma antiga casa de campo da família, onde forças sobrenaturais se manifestam — e ele é, de certo modo, o único capaz de ver o que está acontecendo. Pronto, basta só isso para entrarmos na visão única e original do diretor, que mesmo entregando um filme um pouco confuso, ainda sim consegue ser uma visão interessante e única.

Um dos pontos mais interessantes dessa produção é acompanhar tudo pelo olhos de Indy, o que faz de Bom Menino não apenas mais um daqueles filmes sobre a boa e velha “mansão assombrada”, mas como um experimento narrativo que pode trazer um novo frescor ou, alternativamente, tropeçar nos desafios de manter empatia e tensão. Sendo apresentado assim, parte da construção do suspense não se dá pelo que o protagonista humano faz ou vê, mas sim pelo que Indy percebe — sons, sombras, comportamento estranho de seu dono e os acontecimentos sobrenaturais ao seu redor.
Na minha opinião, isso demonstrou um grande desafio em mostrar emoções e percepções que não são humanas. Um dos acertos do roteiro é saber quando “ousar”, não exagerar no sobrenatural, não transformando essa produção em mais um terrorzinho básico da semana. Outro ponto que os roteiristas acertaram foi em quase não mostrar rostos humanos, apenas seus corpos são mostrados para que não haja nenhuma empatia e o foco fique exclusivamente no ator principal do filme, que é o cachorro Indy.
Ao invés do terror superficial, o diretor aborda os temas como perda, lealdade e vulnerabilidade, dando um “upgrade” e elevando Bom Menino alguns degraus acima do “horror genérico” que estamos tão acostumados a ver. o terror aqui funciona como uma metáfora para condições humanas mais universais, como as que citei.
Por ter um cão como protagonista, essa produção tem um ritmo um tanto quanto mais lento do que estamos acostumados a conferir e também pode ser que o espectador não esteja preparado para todo esse ajuntamento de novas ideias. Se você gosta de terror que mistura afeto e assombração, e não se importa de um ritmo mais lento, este filme parece uma excelente aposta. Agora, se preferir terror puro, direto e com muitos sustos rápidos, procure outra produção para investir o dinheiro do ingresso.
Minha nota para esse filme é:
