Às vezes eu acho que quanto mais filmes eu assisto e leio sobre todos os aspectos de uma produção, menos eu sei sobre a complexidade da sétima arte. Esse sentimento se torna mais pulsante dentro de mim quando boa parte dos críticos detona uma produção que não é perfeita, sim, admito, mas também não é de longe a bomba relatada pelos “críticos”. Também é um pouco difícil que críticos e comentaristas cuja faixa etária está abaixo dos 45 entenda, mesmo vendo a obra prima original, os verdadeiros desígnios da obra atual, principalmente quando ela nos remete bem mais a obra raiz.

Esse é exatamente o caso com o novo lançamento da Disney, Tron Ares. Terceira parte da saga iniciada em 1982 e que teve uma tardia sequência em 2010. Cada um dos capítulos dessa cinessérie mostrou ser ousado e inovador, além de nos apresentar a novos e ousados efeitos visuais e especiais.     O capítulo que mais chocou nessa mudança foi o primeiro: Tron – Uma Odisseia Eletrônica chegou “chegando” em 1982 quando o cinema ainda estava descobrindo o uso da computação gráfica nos efeitos especiais e visuais no cinema. Foi dirigido pelo também roteirista Steve Lisberger e estrelado por um ainda jovem Jeff Bridges, um pouco conhecido Bruce Boxleitner e o veterano David Warner.  Um filme caro para os padrões da época. Teve um custo de 17 milhões de dólares e arrecadou pouco mais de 33 milhões (só nos EUA). Um resultado considerado fraco para a época. Arrecadou pouco porque foi um filme ousado que somente conseguiu ser compreendido vários anos depois de seu lançamento. A tardia sequência veio somente em 2010: Tron – O Legado, agora comandada por Joseph Kosinski de Top Gun Maverick. Jeff Bridges e Bruce Boxleitner retornam juntamente com Cillian Murphy (Batman Begins), Garret Hedlund (Ela é a Poderosa) e Olivia Williams (O Preço do Amanhã). Novamente igual ao seu predecessor, Tron O Legado repete o visual e os efeitos inovadores e arrebatadores, mas também comete o pecado de não aprofundar muito o seu roteiro. Lembrando quem nem só de trilha, som e efeitos vive o cinema. É preciso algo com um pouco mais de consistência.

E agora em 2025, 15 anos depois, chega aos cinemas Tron Ares, terceira parte dessa saga cinematográfica a qual quanto mais eu comparo o que eu acho com o que a maioria está achando, eu vejo que só existem dois lados para essa cinessérie: ou você gosta, ou não.

A direção de Tron Ares ficou sob o comando do Norueguês Joachim Ronning que também comandou a segunda parte de Malévola e o quinto capítulo da cinessérie Piratas do Caribe. Do elenco original só Jeff Bridges volta em uma pequena, mas importante participação. Para completar o elenco temos o ótimo ator mas inconstante Jared Leto (Blade Runner 2049), Greta Lee (da série Morning Show), Evan Peters (X-Men Fênix Negra) e Gillian Anderson (Arquivo X).

Tron Ares é um filme que será bem melhor absorvido se você conhecer bem mais o primeiro filme do que o segundo, pois as referências à primeira parte são infinitamente maiores que ao segundo capítulo. O maior trunfo dessa produção é sua estética, seu visual e sua trilha sonora. Mas infelizmente, isso só não basta e esse também é o grande erro dos produtores. Tron Ares acerta quando traz um novo vilão (a franquia estava precisando) que é muito bem representado por Evan Peters e um um universo ampliado nos convidando a repensar o que é “real” num mundo cada vez mais híbrido. Também é um update importante para uma franquia que sempre ousou falar sobre o futuro — mesmo que esse futuro, ainda esteja na versão beta.

o filme procura atualizar o imaginário do “mundo digital” para um público de 2025, obcecado por IA, dados e simulações. Tron Ares não é apenas uma sequência: é uma tentativa de redefinir o código genético da franquia, quando traz a Grade para o mundo físico, e junto com ela, os dilemas digitais para bem mais perto de todos nós em uma das produções da Disney com o visual mais sofisticado dos últimos tempos. Tron Ares tem o visual mais pesado, mais tátil, mais sujo. A Grade não é mais um espaço abstrato é sim um “bug” inevitável.

Tron Ares mistura elementos de Frankenstein e ChatGPT, aonde um ser feito de linhas de comando, começa a sentir culpa, compaixão e curiosidade. Os temas ética da IA, corporativismo tecnológico e os limites da realidade, estão presentes, mas infelizmente não são abordados  com a devida profundidade.
As ideias estão todas ali — programas como vida, humanos como dados e o amor como erro de sistema. Mas, o roteiro optou preferiu sugerir do que desenvolver. Mesmo assim, o filme funciona como uma ponte entre nostalgia e reinvenção. Seu enredo falha em alguns momentos, é verdade, mas o filme tem a coragem  de inovar em estética, técnica e na arte conceitual. A fotografia alterna o azul (bem) e o vermelho (mal) simbolizando a disputa entre ENCOM e  a Dillinger Systems.

No final das contas, Tron Ares nos lembra que a fronteira entre homem e máquina nunca foi o código,  sempre foi a escolha. E essa escolha, felizmente, ainda pertence aos humanos.

Um aviso importante: Procurem apreciar Tron Ares em uma sala IMAX 3D ou similar. É realmente uma experiência fantástica se apreciado nesse formato.

Mesmo com todos esses pormenores, minha nota para esse filme foi: