O Nome da Rosa , dirigido por Jean-Jacques Annaud (A Guerra do Fogo) e baseado no célebre romance homônimo de Umberto Eco, é uma das adaptações literárias mais ambiciosas da década de 1980. Muito mais do que um suspense medieval, o filme é uma profunda reflexão sobre conhecimento, religião, poder, intolerância e a eterna disputa entre razão e fanatismo. Sob a aparência de um thriller investigativo, esconde-se uma discussão filosófica extremamente rica sobre a natureza humana e os perigos da censura. Para quem aprecia cinema de qualidade, trata-se de uma obra que continua atual quase quarenta anos depois de seu lançamento.

O Nome da Rosa se passa em 1327, durante a Idade Média. O frade franciscano William de Baskerville (Sean Connery) chega a uma abadia beneditina acompanhado de seu jovem noviço Adso de Melk (Christian Slater) para participar de uma reunião entre representantes da Igreja. Antes mesmo do encontro acontecer, diversos monges começam a aparecer mortos em circunstâncias misteriosas. William passa então a investigar os assassinatos utilizando lógica, observação científica e dedução, despertando a desconfiança da própria Igreja. Enquanto isso, a Inquisição chega ao mosteiro, liderada pelo terrível inquisidor Bernardo Gui (F.Murray Abraham), transformando uma investigação policial em um julgamento religioso.

Poucos filmes conseguem reconstruir a Idade Média com tamanho realismo. Não existe  romantização. Não existe heroísmo. Existe lama. Frio. Doenças. Ignorância. Superstição. Medo. A Igreja dominava praticamente toda a produção do conhecimento. Os livros eram raríssimos. Quem controlava os livros controlava o pensamento. Esse é justamente o grande tema do filme.

O conhecimento é mesmo perigoso?

Essa talvez seja a principal pergunta da obra. O Monge William de Baskerville acredita que: quanto mais conhecimento, mais liberdade. Já Jorge de Burgos acredita exatamente no contrário. Para ele o conhecimento produz dúvida. E a dúvida destrói a fé. Esse conflito permanece atual até hoje nas redes sociais, nas universidades, nos meios de comunicação e até dentro das famílias. Quem controla a informação controla a sociedade.

A verdade pode ser proibida?

Toda a biblioteca funciona como uma metáfora. Livros importante são escondidos, proibidos. Durante séculos, diversos governos tentaram controlar aquilo que poderia ser lido. O Nome da Rosa mostra que: não existe censura sem medo. Quem censura teme perder poder (frase bastante atual em nossos dias).

A Inquisição usava o medo como instrumento político e nunca buscava apenas ir atrás dos culpados. Ela precisava também produzir exemplos. O medo mantinha todos obedientes. Essa estratégia ainda é usada nos dias de hoje. O que mudou foram os métodos utilizados. O cerne intelectual do filme gira em torno de um livro perdido de Aristóteles. Mais especificamente o segundo volume da “Poética”, que é dedicado à comédia. Jorge acredita que o riso destrói o temor religioso, pois se o homem rir da autoridade… ele deixará de temê-la. Portanto, deixará também de obedecê-la. É uma ideia absolutamente brilhante.

O personagem de Sean Connery, William de Baskerville, representa uma mentalidade quase renascentista. Ele observa. Experimenta. Questiona. Formula hipóteses. Age praticamente como um detetive moderno. Enquanto todos procuram demônios… ele procura provas. Podemos compará-lo a um Sherlock Holmes vivendo na Idade Média. Aliás, isso não é coincidência. Umberto Eco se inspirou em Sherlock Holmes para criar William de Baskerville.

O Nome da Rosa não critica a fé em momento algum. Critica sim,  o fanatismo religioso. Existe uma enorme diferença. William de Baskerville é profundamente religioso, mas imensamente sensato. Ele entende que: Deus não teme perguntas. Já Jorge acredita que perguntar já é pecado. Essa oposição continua extremamente atual.

A direção de fotografia é simplesmente magnífica. O Italiano Tonino Dellicolli foi muito feliz em usar tons de marrom, cinza, preto e a iluminação através de velas. Tudo para transmitir a decadência necessária que dá tom ao filme. Poucos filmes conseguiram representar tão bem a ausência de luz da Idade Média.

Jean-Jacques Annaud realizou um trabalho monumental. Seu maior mérito foi adaptar um romance extremamente complexo para o cinema. O Nome da Rosa usa centenas de referências: Aristóteles, Tomás de Aquino, Guilherme de Ockham, Santo Agostinho, filosofia medieval e a semiótica. Transformar tudo isso em um thriller acessível parecia impossível. Jean-Jacques Annaud conseguiu e conseguiu com um êxito fenomenal, pois o fez em um tempo aonde a computação gráfica era inexistente.

O Nome da Rosa foi provavelmente um dos melhores, senão o melhor trabalho da carreira de Sean Connery no cinema. Na minha opinião ele deveria ter sido indicado a pelo menos o Oscar de melhor ator e o filme ao prêmio de melhor filme, direção e fotografia. Mas infelizmente não foi completamente esquecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Uma grande injustiça.

O Nome da Rosa teve um orçamento de cerca de 17 milhões de dólares. Que foi considerado até elevado por se tratar de um drama histórico europeu de época. Sua arrecadação mundial foi de aproximadamente 78 milhões de dólares. Foi um enorme sucesso internacional. Foi um fracasso nos EUA onde desses 78 milhões só conseguiu faturar 8. Foi um enorme sucesso comercial na Alemanha, Itália, França e Espanha. Foi recebido mornamente pela crítica (72%) e melhor um pouco pelo público que o assistiu (82%).

Em resumo: O Nome da Rosa permanece como uma das mais inteligentes produções do cinema europeu dos anos 1980 e uma das adaptações literárias mais bem-sucedidas já realizadas. Jean-Jacques Annaud equilibra suspense policial, drama histórico e reflexão filosófica sem sacrificar a acessibilidade da narrativa. A investigação conduzida por William de Baskerville é apenas a superfície de um debate muito mais amplo: quem detém o poder sobre o conhecimento, quem decide o que pode ser lido e até onde instituições são capazes de ir para preservar sua autoridade.

Mesmo quarenta anos após sua estreia, o filme continua surpreendentemente atual. Em uma era marcada por disputas em torno da informação, da desinformação, da censura, dos algoritmos e da liberdade de expressão, suas perguntas permanecem vivas: o conhecimento deve ser limitado? O medo pode justificar a supressão da verdade? O humor ameaça o poder? A obra responde sem oferecer soluções fáceis, convidando o espectador a refletir.

Mais do que um excelente suspense medieval, O Nome da Rosa é uma celebração da curiosidade intelectual e uma defesa da liberdade de pensar. É um filme que recompensa revisões constantes, pois cada nova exibição revela camadas simbólicas, filosóficas e históricas antes despercebidas. Seu legado é o de um clássico atemporal, capaz de entreter, inquietar e ensinar, reafirmando que nenhuma sociedade permanece verdadeiramente livre quando o conhecimento é aprisionado.

O Nome da Rosa está disponível no streaming da: Flat HD.

Minha nota para esse filme é: