
Pouquíssimas vezes na história do cinema um filme consegue alterar a percepção da indústria sobre aquilo que é possível fazer com pouco dinheiro. Em 1978, John Carpenter provou que um excelente roteiro, direção segura e atmosfera eficiente poderiam transformar um orçamento quase insignificante em um fenômeno mundial com Halloween. Quase cinquenta anos depois, Obsessão, escrito e dirigido por Curry Barker, repetiu esse feito sob circunstâncias completamente diferentes, tornando-se um dos maiores sucessos financeiros da década. Embora separados por quase meio século, ambos os filmes demonstram uma verdade que Hollywood frequentemente esquece: o público compra emoção, não orçamento.
A história acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem tímido apaixonado pela amiga Nikki ( Indi Navarrette). Incapaz de revelar seus sentimentos, ele utiliza um objeto sobrenatural conhecido como One Wish Willow, capaz de realizar um único desejo. O desejo parece ser simples e objetivo: “Quero que Nikki me ame mais do que qualquer outra pessoa.” Como em toda boa história de terror sobrenatural, desejos possuem consequências. O amor transforma-se em obsessão. A paixão converte-se em possessão. O romance vira pesadelo. O que inicialmente parece uma fantasia romântica rapidamente assume contornos demoníacos, psicológicos e violentos.
Enquanto muitos filmes de terror utilizam monstros, assassinos ou fantasmas, Obsessão utiliza algo infinitamente mais próximo da realidade: o amor doentio. É fato que um relacionamento deixa de ser saudável quando uma pessoa passa a existir exclusivamente para outra. Obsessão transforma essa ideia numa entidade física. Quanto maior o amor… mais monstruosa torna-se sua manifestação.
Obsessão é o segundo filme para o cinema do promissor diretor Curry Baker que também assina o roteiro desse longa. Ele demonstra um enorme domínio da linguagem cinematográfica. Existem diretores que levam todos os vícios da linguagem televisiva para o cinema. Curry Baker evitou quase todos. Ao invés de recorrer constantemente aos “jump scares”, ele prefere construir o desconforto. Os silêncios são longos. Os enquadramentos permanecem estáticos. A câmera frequentemente observa à distância. Isso cria sensação permanente de vigilância. O espectador nunca sabe quando algo acontecerá. Mesmo não sendo novidade, a maneira como essa técnica é usada é um dos grandes diferenciais dessa produção. Essa estratégia lembra bastante John Carpenter em Halloween. Ele sacou que o terror funciona melhor quando o público imagina mais do que vê. Da mesma forma que Carpenter jamais explicou completamente Michael Myers, Barker evita racionalizar o funcionamento do objeto sobrenatural. O desconhecido permanece assustador.

O ator Michael Johnston entrega um protagonista extremamente humano. Seu Bear não é um herói. Também não é exatamente um vilão. É alguém comum que toma uma decisão egoísta (quem nunca?). Já Inde Navarrette realiza talvez a interpretação mais difícil e brilhante do filme. Sua transformação ocorre lentamente. Ela inicia como garota comum. Depois torna-se apaixonada. Em seguida possessiva. Finalmente aterrorizante. Às vezes tudo junto e ao mesmo tempo. E essa progressão convence justamente porque nunca parece artificial. Outro aspecto interessante é que não existe alívio cômico em nenhum momento da projeção. O que existe são algumas situações engraçadas e nada mais que isso.
Comparando novamente com Halloween (é inevitável) de 1978 que teve um orçamento de 325.000 dólares e arrecadou mais de 50 milhões no mundo (215 vezes o valor investido), Obsessão foi produzido por “apenas” 750.000 dólares e até o fechamento dessa matéria já havia colocado mais de 380 milhões (quase 500 vezes o valor do orçamento) para os cofres da Blumhouse e da Universal. Esse orçamento é menor do que um único episódio de séries modernas e mais elaboradas. Halloween não revolucionou apenas o gênero terror slasher, revolucionou o modelo econômico do terror. Obsessão conseguiu fazer algo semelhante.
Halloween permaneceu durante décadas como exemplo máximo de rentabilidade. Obsessão conseguiu algo ainda mais impressionante. Mesmo considerando inflação, custos modernos de distribuição e marketing, seu retorno sobre investimento coloca o longa entre os casos mais extraordinários do cinema contemporâneo.
Esses dois filmes provam que: a criatividade supera o dinheiro. A atmosfera supera efeitos os especiais, e um bom roteiro supera qualquer espetáculo visual.
Mesmo faltando um pouco de experiência, Curry Baker não faz feio na direção e dá uma ou duas escorregadas no roteiro. Principalmente no desenvolvimento dos personagens secundários para que o filme tivesse um antagonista ao ator principal. O roteiro não soube aproveitar a pouca usada ideia do antagonista e o protagonista serem a mesma pessoa.
Obsessão é muito mais do que um acima da média filme de terror. É uma demonstração prática de que criatividade continua sendo o maior ativo da indústria cinematográfica. Assim como Halloween redefiniu o terror independente no fim dos anos 1970, Obsessão mostra, em 2026, que um cineasta com uma boa ideia ainda pode desafiar grandes estúdios e conquistar o mundo. Curry Barker é um um diretor que tem de ser acompanhado de perto.
Minha nota para esse filme é:
