
Mesmo com todos os meus mais de 30 anos analisando filmes, ainda é estranho sair de uma sala de exibição com a sensação de que você viu um filme completamente diferente do esperado e do que foi vendido. Marty Supreme é um filme biográfico sobre a vida de Marty Reisman, exímio jogador e campeão de tênis de mesa estadunidense que era uma pessoa extremamente inteligente, um marginal social e um jogador compulsivo. Todos esses “adjetivos” lhe foram atribuídos por escolha própria. Nada veio por acaso em sua vida. E acho que essa produção, também não.
De uma coisa podemos ter a mais absoluta certeza, o diretor Joshn Safdie acertou em cheio quando escolheu Timothée Chalamet para o papel principal. Atuação que lhe rendeu o Globo de Ouro 2026 de melhor ator na categoria filme de melhor filme musical ou comédia e possivelmente também a ele será agraciado o Oscar de melhor ator nesse ano, caso seja indicado. Provavelmente será.
Timothée Chalamet já há alguns projetos deixou de ser um promissor ator para marcar seu lugar na história do cinema mundial. Ele conseguiu se fincar como um corpo simbólico do cinema contemporâneo.
O tênis de mesa nessa produção não é o tema central, é apenas o meio usado pelo diretor para mostrar a metáfora de uma vida que é: rápida demais para pensar, técnica demais para improvisar, barata demais para ser respeitada, e competitiva em demasia para ser saudável. São por esses e alguns outros motivos os quais não revelarei para não dar spoilers que o protagonista não busca por troféus, ele almeja controlar um mundo que o ignora quase que completamente. Existe uma diferença brutal entre vitória e continuidade, e quase ninguém percebe isso a tempo. Ganhar encerra ciclos. Continuar exige tensão permanente. Marty Reisman escolhe a segunda opção — e paga por ela com o corpo, com a sanidade, com qualquer ideia possível de um futuro saudável porque ele não foge do fracasso, ele foge do silêncio.
Há algo profundamente atual nisso: a incapacidade de existir fora do estímulo, da disputa, do risco. Parar virou sinônimo de desaparecer. Descansar nos faz parecer covardes. Estabilidade soa como morte simbólica.

É muito interessante e gratificante ver como Timothée Chalame consegue entregar um personagem que não é um viciado em apostas, jogo ou competição e sendo isso tudo ao mesmo tempo. Ele é viciado em estado de tensão. A calma, para ele, é uma forma de morte. Marty joga compulsivamente porque essa é a única maneira dele ficar à beira do colapso, e esse é o único lugar onde ele se sente real.
Marty Supreme não é um filme sobre vencer, é um filme sobre não saber parar e as consequências disso. Não é um filme sobre sucesso, é um filme sobre os frutos colhidos do preço a ser pago da precisão de se precisar existir intensamente. Resumindo, Marty Supreme é o retrato de um homem que confunde intensidade com identidade. Ele não sabe quem é quando não está em jogo. E talvez por isso jogue como quem luta contra o apagamento. E, infelizmente é também, um filme que se o papel principal tivesse sido entregue a qualquer outro ator, o resultado teria sido completamente diferente. Marty Reisman queria apenas não ser esquecido, mesmo tendo sido muito pouco comemorado.
Outro ponto de destaque escolhido pelo diretor que funcionou, mas que eu não acatei completamente, foi o uso de músicas e trilha sonora instrumental dos anos 80 para uma produção que se passa na década de 50. Ele poderia ter oferecido outro arranjo do melhor que essa época teve a oferecer. Tanto na parte instrumental quanto das canções.
Minha nota para esse filme é:

Parabéns!!!!