Prime Video: Chuva Negra

Agora toda quinta-feira é dia de voltar no tempo. Nesta coluna, revisito filmes marcantes das décadas de 60, 70, 80 e 90 — obras que ajudaram a moldar o cinema e continuam ecoando até hoje. Entre curiosidades, contexto e impressões pessoais, a proposta é redescobrir grandes histórias e relembrar por que certos filmes nunca envelhecem. Prepare a pipoca e venha revisitar esses clássicos comigo.

E hoje vamos revisitar: Chuva Negra do diretor Ridley Scott.

Um somatório de fatores fez com que essa produção desse bastante certo. Vamos começar pelo diretor: Ridley Scott, que até então já nos tinha entregue o incompreendido Perigo na Noite, Alien – o oitavo passageiro,  que foi um dos primeiros filmes a alinhar perfeitamente os gêneros terror e ficção, A Lenda, outro excelente filme que foi lançado na época errada, pois estava a frente do seu tempo e por isso foi mal recebido a época, e o hoje clássico e também não muito bem recebido quando foi lançado – Blade Runner – Caçador de Androides.

Para o elenco de Chuva Negra, foram escalados 4 atores principais que estavam em seu auge na época: Michael Douglas, recém saído de Atração Fatal. Andy Garcia que tinha lançado a pouco tempo Os Intocáveis e ainda em começo de carreira. O pouco conhecido do público americano ator Japonês Yusaku Matsuda que entregou um grande vilão e Ken Takakura, um excelente ator japonês que trabalhou muito bem em Um Peixe Fora D’água e Operação Yakuza. Também fez parte do elenco a atriz Kate Capshaw fazendo uma rápida participação.

Chuva Negra foi escrito por Craig Bolotin, que foi um dos redatores da famosa série Miami Vice e Warren Lewis de O 13º Guerreiro. Chuva Negra fala do choque cultural entre Japão e Estados Unidos quando as polícias desses dois países tem que colocar de lado as diferenças e se ajudarem na caça de um sádico assassino da Yakuza que comete um crime na américa e tenta se safar desse crime no Japão.

Hans Zimmer não faz feio na trilha sonora e Jan de Bont arrasa na fotografia trabalhando em conjunto com Ridley Scott mostrando o brilho das luzes de neon nas ruas de Ozaka e o tom sombrio do submundo de Nova York.

Chuva Negra - Apple TV

Mais do que um simples filme policial, Chuva Negra funciona como um estudo sobre identidade, decadência moral e fronteiras culturais em um mundo globalizado no final da Guerra Fria. Demorei um pouco para perceber porque essa produção foi mais odiada do que elogiada. O público do final dos anos 80 e começo dos anos 90 que era ávido por filmes de ação ininterruptas, ficou um pouco decepcionado com o ritmo imposto por Ridley Scott a essa produção, pois os espaços longos entre as perseguições e tiroteios que eram não eram “normais” nas produções daquela época do cinema.

Chuva Negra foi feito em uma época de efeitos práticos onde o cgi (imagens geradas por computador) ainda estava bem no início e não era muito usado porque era caro. Perseguições filmadas nas ruas mesmo e sem aquela artificialidade de se gravar tudo em estúdio que findou alguns anos depois conseguindo tornar bons filmes em produções medíocres devido a sua artificialidade. Essa técnica só veio melhorar lá por meados dos anos 2000. e mesmo assim com toda a modernidade dos efeitos ainda é uma técnica cara e notável.

Ridley Scott aborda muito o modus operandi das culturas policialescas do oriente e do ocidente mostrando a obediência e burocracia dos japoneses que por muitas vezes atrapalha as investigações e a pressa dos americanos em querer resolver tudo mais rápido. Enquanto o americano é completamente impulsivo e guiado por seus sentimentos, o japonês é totalmente fiel ao sistema social e profissional ao qual pertence. É aquela velha máxima: quando culturas diferentes tentam aplicar seus próprios sistemas de ordem ao mesmo problema, surgem conflitos inevitáveis. E essas diferenças são amplamente usadas pela Yakuza, que se aproveita bastante disso para sair ilesa de seus crimes no Japão.

Chuva Negra fala sobre corrupção policial e os motivos que levam um bom policial a cometer tais atos. Um problema que nunca deixamos nem deixaremos de ouvir nem ler, principalmente em um país como o que vivemos onde a desonestidade das castas que deveriam nos proteger se sobressaem nos noticiários locais e nacionais dos grandes telejornais.

Chuva Negra teve um orçamento de cerca de 30 milhões de dólares e sua arrecadação no mercado americano foi de 46, 2 milhões. O resto do mundo elevou essa arrecadação para 134.212.055,00. ou seja, se pagou e deu lucro mas não teve uma arrecadação digna para a qualidade de sua produção.  Também teve boa recepção no Japão, onde figurou entre os filmes estrangeiros mais rentáveis do ano. Chuva Negra recebeu cerca de 52% de aprovação no Rotten Tomatoes.

Não obstante a tudo isso, Chuva Negra acabou sendo favorecido com o tempo. Hoje ele é frequentemente lembrado por:

  • a cinematografia de Jan de Bont.

  • a trilha sonora de Hans Zimmer.

  • a direção estilizada de Ridley Scott.

  • a atmosfera neo-noir que lembra um pouco Blade Runner.

Em retrospecto, Chuva Negra é um exemplo clássico de filme em que a forma supera o conteúdo — mas de maneira fascinante.

Como mencionei anteriormente, a época de seu lançamento, Chuva Negra recebeu críticas mistas. Um dos fatores que mais pesou para o filme não arrecadasse o tanto quanto deveria foi a reclamação dos críticos e boa parte do público sobre a atenção em demasia dada ao personagem de Michael Douglas e o subaproveitamento dos personagens de Andy Garcia, Ken Takakura e Kate Capshaw. concordo, parte com essa afirmação.

Alguns críticos também reclamaram da forma como o Japão foi mostrado no filme chamando essa escolha da produção de superficial e esteriotipada. Mas isso é culpa de como o Japão era mostrado para os turistas na época. Essas criticas são bastantes comuns quando se tem uma riqueza cultural imensa, mas não a deixam ir muito longe. Ainda bem que isso mudou com o passar desses quase 40 anos.

Resumindo –  Chuva Negra é um filme que reflete perfeitamente o espírito do cinema de ação do final dos anos 80: visual exuberante, protagonistas moralmente ambíguos e um mundo urbano dominado pela violência e pela globalização do crime.

Chuva Negra está disponível nos seguintes serviços de Streaming: Apple TV, Pluto TV e Amazon Prime Vídeo.

minha nota para esse filme é: