A Última Tentação de Cristo - Apple TV

A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ), dirigido por Martin Scorsese e baseado no romance de Nikos Kazantzakis, é um dos filmes mais complexos já feitos sobre Jesus. Não é um filme devocional no sentido tradicional, nem pretende substituir os Evangelhos. Ele opera em outro registro: o da meditação dramática, da hipótese espiritual, do conflito interior entre carne e transcendência, medo e missão, desejo e obediência.

Para podermos entendê-lo da melhor forma possível, vamos partir do princípio que ele não quer apenas “contar a vida de Cristo”, mas interrogar o mistério da Encarnação. E é exatamente por isso que ele foi tão amado por alguns e tão rejeitado por muitos.

Vamos começar essa crítica com a seguinte indagação: Qual o significado de afirmar que Jesus era plenamente homem e plenamente divino? Grande parte da tradição cristã afirma isso como dogma. O filme tenta fazer algo mais ousado: imaginar dramaticamente o peso existencial desse preceito. Se Cristo foi realmente homem, então ele conheceu angústia, dúvida, medo, atração, solidão, vontade de escapar da dor. O filme pega essa ideia e a leva ao extremo.

Mas há um detalhe incontestável: A Última Tentação de Cristo não é uma adaptação literal da Bíblia. Ele é uma interpretação literária e cinematográfica. Por isso, muitos dos conflitos mostrados não devem ser entendidos como “verdades bíblicas”, mas sim, como recursos artísticos para explorar a tensão entre: vocação e liberdade, corpo e espírito, desejo e renúncia, sofrimento e salvação e obediência e tentação. Nesse sentido, o filme é menos uma narrativa histórica e mais uma paixão abstrata.

O aspecto mais forte do filme é a insistência na humanidade perturbadora de Jesus. Aqui, Jesus não aparece sereno desde o início, perfeitamente consciente de tudo, como em muitas representações clássicas. Pelo contrário: ele surge dividido, nervoso, inseguro, quase esmagado pela consciência de ser chamado por Deus. Ele não “traz” sua missão; ele é trazido por ela.

Além de William Dafoe interpretando Jesus Cristo o elenco principal de A Última Tentação de Cristo conta com nomes como Harvey Keitel como Judas, Barbara Hershey como Maria Madalena, Verna Bloom como Maria, mãe de Cristo, Irvin Keshner como Zebedeu e Victor Argo como Pedro Apóstolo. Em termos de arrecadação.

Em termos financeiros, A Última Tentação de Cristo foi um fracasso total nas bilheterias mundiais. Com um orçamento de 7 milhões de dólares, conseguiu arrecadar apenas pouco mais que 8 nas bilheterias mundiais ( 8.866.550,00). E foi um fracasso maior ainda no mercado Americano conservador arrecadando desse total, “apenas” 492.288 no mercado estadunidense. Foi rotulado como herético e blasfemo por muitos grupos cristãos conservadores e líderes religiosos. A representação de Jesus (Willem Dafoe) como um homem dividido, com dúvidas, medos e desejos humanos  foi vista como ofensiva à figura bíblica tradicional. A Liga Católica dos Estados Unidos e outros grupos organizaram boicotes em massa. Protestos ocorreram em várias partes do mundo, com queima de rolos de filme e invasão de cinemas.

Devido à pressão e às ameaças, muitas redes de cinema se recusaram a exibir o longa-metragem. Em Paris, um cinema que exibia o filme foi alvo de um atentado a bomba, o que gerou medo tanto nos exibidores quanto no público. Apesar do fracasso comercial na época A Última Tentação de Cristo foi aclamado pela crítica, recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor para Scorsese e, com o tempo, tornou-se uma obra cultuada.

Scorsese não filma Jesus com a solenidade lisa dos épicos bíblicos tradicionais. Sua filmagem é inquieta, nervosa, humana, terrena. Ele mostra em quantidade poeira, suor, impulso, conflito. A câmera não quer adorar à distância; quer mergulhar. É por isso que em certos momentos a narrativa aparece menos “sagrada” no sentido decorativo da peça, mas mais sagrada no sentido dramático da história.

A Última Tentação de Cristo toca em um dos aspectos mais sagrados do Cristianismo: a pessoa de Jesus Cristo. Ao imaginar desejos e possibilidades íntimas de Jesus, o filme parece, para muitos, invadir um mistério sagrado com linguagem psicológica do cinema moderno.

A Última Tentação de Cristo está disponível nos serviços de Streaming da Apple TV, Prime Vídeo e Claro Vídeo.

Minha nota para esse filme é: