STREET FIGHTER 2026 – A NOVA ADAPTAÇÃO DO FAMOSO GAME ENTREGA O PIOR FILME DO ANO (ATÉ AGORA)

AVISO: ESTA ANÁLISE CONTÉM SPOILERS. APRECIE POR SUA CONTA E RISCO.

Street Fighter não é apenas uma adaptação ruim. É uma regressão. Depois de décadas em que Hollywood finalmente começou a compreender que filmes baseados em videogames precisam possuir personagens, narrativa, atmosfera e identidade próprias, a produção de 2026 parece saída do período em que bastava reunir atores fantasiados, inserir algumas referências conhecidas e esperar que a familiaridade da marca escondesse a ausência de cinema.

O novo filme é confuso, barulhento, infantil, excessivamente longo, mal montado e dramaticamente vazio. Possui um elenco numeroso, mas praticamente ninguém parece verdadeiramente interessado em interpretar. Todos disputam espaço, fazem caretas, pronunciam frases de efeito, exibem músculos, roupas e penteados, como se estivessem participando de uma convenção ou gravando vídeos promocionais individuais. Há lutadores profissionais, comediantes, músicos e celebridades. O que quase não há são atores. A franquia Street Fighter ultrapassou 60 milhões de unidades vendidas mundialmente até junho de 2026. Estamos falando de uma das propriedades mais influentes de toda a história dos videogames. Motivo esse da péssima qualidade em todos os sentidos desse novo filme, ser muito grave.

Não estamos diante de um material desconhecido ou impossível de adaptar. Os jogos possuem personagens visualmente marcantes, rivalidades claras, estilos de luta distintos e uma estrutura narrativa extremamente simples: competidores de várias partes do mundo participam de um torneio controlado por uma organização criminosa. Bastava apenas escolher alguns personagens, estabelecer suas motivações e construir lutas bem coreografadas dentro de uma história compreensível. O filme tenta fazer tudo ao mesmo tempo e não realiza satisfatoriamente quase nada. Em minha opinião, é o pior filme lançado em 2026 (até agora) e uma das mais desastrosas adaptações cinematográficas já produzidas a partir de um videogame de sucesso.

A narrativa começa em 1987, apresentada por meio de uma belíssima sequência animada.
Ryu e Ken foram criados praticamente como irmãos e treinados pelo mestre Gouken. Naquele ano, Ryu participou do primeiro torneio World Warrior e derrotou Sagat, mas a luta despertou dentro dele uma energia obscura. Akuma aparece e mata Gouken, provocando o afastamento entre os dois discípulos.
Seis anos depois, em 1993, Ryu vive isolado, tentando controlar a escuridão interior. Ken transformou-se em celebridade, desperdiçando seu talento em festas, propagandas e lutas promocionais.
Chun-Li aproxima-se dos dois e apresenta um convite para o novo World Warrior Tournament, organizado por M. Bison no território de Shadaloo.

A sinopse oficial afirma que Ryu e Ken são os protagonistas e que Chun-Li os recruta para o World Warrior Tournament. O filme, entretanto, não sabe onde concentrar sua atenção. Em determinados momentos, parece ser a história de Ryu e sua luta contra a energia obscura. Em outros, transforma-se na comédia de decadência de Ken. Chun-Li tenta assumir o centro por meio de sua investigação, enquanto Dan Hibiki inexplicavelmente recebe mais espaço do que personagens importantes da franquia. São muitos fios narrativos, mas nenhum é desenvolvido adequadamente.

Os personagens entram em cena como se estivessem sendo selecionados em uma tela de videogame. A câmera mostra o figurino, o penteado, uma pose característica e o golpe especial. Depois disso, a maioria desaparece até que o roteiro precise de outra referência. O filme confunde quantidade com riqueza.

É verdade que a produção preserva diversos elementos dos jogos. Mas fidelidade visual não significa fidelidade dramática. O espírito de Street Fighter está na clareza de seus confrontos. Cada lutador possui personalidade, nacionalidade, motivação e linguagem corporal próprias. Mesmo quando a narrativa dos jogos é simples, o jogador sabe quem está lutando, por que está lutando e o que diferencia aquele personagem dos demais. No filme, quase todos se transformam em caricaturas ruidosas.

Kitao Sakurai foi escolhido justamente porque não representava a alternativa convencional. Seu trabalho anterior estava muito associado à comédia absurda e às colaborações com Eric André.
Antes do lançamento, Kitao Sakurai afirmou que não queria realizar uma adaptação genérica e que pretendia recuperar a sensação infantil de brincar de filme de artes marciais com os amigos. Essa declaração explica perfeitamente o resultado.

O problema é que Street Fighter realmente parece um grupo de crianças brincando de cinema com recursos milionários. Não existe disciplina tonal. Uma cena tenta abordar culpa, morte e ressentimento; a seguinte apresenta uma piada sexual, uma pancada nos órgãos genitais ou alguém gritando diante da câmera. Kitao Sakurai filma praticamente tudo com a mesma intensidade.

O filme demonstra consciência de que os personagens são absurdos. Faz piadas com figurinos, penteados, frases e comportamentos. Mas, reconhecer que algo é ridículo não torna automaticamente esse elemento engraçado. Fazer uma piada sobre a pobreza de uma cena não melhora a cena.
O filme frequentemente parece dizer ao espectador: “Sabemos que isso é idiota”.

O longa de 1994 era involuntariamente engraçado em muitos momentos. O de 2026 tenta fabricar deliberadamente essa condição de “tão ruim que fica bom”. E não consegue, nem de longe, esse feitio. Uma obra cult nasce da combinação particular entre defeitos, sinceridade, personalidade e passagem do tempo. Não pode ser produzida por encomenda.

A sensação geral é de que os integrantes do elenco não estão contracenando. Estão competindo por atenção. Cada ator parece preocupado em criar um pequeno clipe capaz de circular isoladamente nas redes sociais. Há poses, caretas, gritos, entradas triunfais e tentativas desesperadas de produzir frases memoráveis. Não há construção conjunta de cena, continuidade emocional ou impressão de que aqueles personagens pertencem ao mesmo universo.

Não vou falar do elenco, que de tão ruim, não merece ser comentado como faço de costumes em minhas análises. Um filme chamado Street Fighter deveria ser julgado principalmente por suas lutas. E até nisso fracassa. A montagem corta excessivamente. A câmera aproxima-se demais. Os golpes especiais são interrompidos por efeitos digitais, câmera lenta e reações cômicas. Em vez de observarmos a técnica, recebemos uma sucessão de poses pré-ensaiadas.

O filme parece montado para um público incapaz de permanecer alguns segundos diante da mesma imagem. Há cortes constantes, músicas entrando e saindo, câmera lenta, mudanças de formato, vídeos televisivos e referências visuais aos anos 1990. Nada funciona. Esse ritmo deveria impedir o tédio, mas produz o efeito contrário. O excesso de estímulos torna-se monótono porque não existe encontro de nada com nada. Uma produção desastrosa e totalmente sem precisão.

O encerramento é uma das decisões mais desrespeitosas da produção.

M. Bison não é derrotado. Sua organização não é destruída. Akuma não recebe uma conclusão. O torneio perde completamente a importância. Chun-Li não realiza sua vingança. Os protagonistas simplesmente entram em um carro para perseguir o vilão. Corta. Acabou. Isso não é um gancho. É um filme interrompido antes do último ato. Uma produção pode preparar uma continuação, mas primeiro precisa concluir a própria história. O Império Contra-Ataca, De Volta para o Futuro e tantos outros filmes encerram conflitos específicos enquanto deixam caminhos abertos. Street Fighter exige que o público financie uma segunda parte para receber o final da primeira. O espectador não sai curioso. Sai enganado.

As melhores partes do filme são, sem qualquer dúvida, as sequências animadas. Elas contam a infância de Ryu e Ken, o treinamento com Gouken, o primeiro torneio, o surgimento de Akuma e os acontecimentos que separaram os dois protagonistas. A animação foi criada pelo estúdio Titmouse, utilizando desenho 2D inspirado deliberadamente nos animes da década de 1990. Entre as referências citadas pela produção estão Akira, Ghost in the Shell e Dragon Ball Z. Essas cenas possuem tudo aquilo que falta ao restante da obra. Os movimentos possuem impacto. Os enquadramentos comunicam escala. As cores criam uma ligação verdadeira com a estética dos jogos e animes daquele período. A conclusão é inevitável: Street Fighter deveria ter sido completamente animado.

É inevitável a comparação com Street Fighter de 1994, dirigido por Steven E. de Souza e estrelado por Jean-Claude Van Damme, Raul Julia, Ming-Na Wen e Kylie Minogue, que também está longe de ser bom. Ele descaracteriza vários personagens, transforma Guile no protagonista, reduz Ryu e Ken a contrabandistas, oferece lutas fracas e converte a história do jogo numa aventura militar. E mesmo assim, com tudo isso, ainda é bem melhor do que a produção de 2026. A maior vantagem do filme de 1994 é Raul Julia. Mesmo gravemente doente e trabalhando em sua última produção cinematográfica, o ator não trata o material com desprezo. Ele compreende que M. Bison é exagerado e interpreta esse exagero com convicção, autoridade e inteligência. Julia não tenta escapar do filme. Ele entra completamente nele. Seu Bison é ridículo, mas acredita em tudo aquilo que diz. Por isso, torna-se divertido, ameaçador e memorável.

Minha nota para esse filme é:

 

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