OS FAROFEIROS 3 – SOMENTE A PRAIA MUDOU

Trocar uma casa de praia pela Bahia e depois levar os personagens ao Caribe não representa uma verdadeira evolução enquanto o roteiro continuar fazendo exatamente a mesma viagem. Em Os Farofeiros 3, o passaporte é novo. O filme, infelizmente, não. A terceira parte da franquia nacional repete o elenco, as características dos personagens, os conflitos matrimoniais, os constrangimentos sociais, as confusões em hotéis, as piadas envolvendo falta de dinheiro e o chamado “jeitinho brasileiro”. Até a estrutura narrativa permanece praticamente intacta: um grupo de famílias recebe a promessa de férias inesquecíveis, chega ao destino e descobre que a viagem dos sonhos se transformou em uma sucessão de perrengues.

A mudança para uma ilha caribenha amplia os cenários, a logística e o acabamento visual. Entretanto, a produção continua dramaticamente aprisionada ao primeiro filme. Existem algumas risadas. Seria injusto afirmar que nenhuma situação funciona. O elenco possui entrosamento, Cacau Protásio e Maurício Manfrini conhecem profundamente seus personagens e o diretor Roberto Santucci sabe organizar uma comédia popular acessível.  Mas uma terceira parte não deveria existir apenas para repetir aquilo que o público já conhece. Ela precisa ampliar o universo, modificar relações, inverter expectativas ou levar os personagens a algum lugar novo, não somente a um espaço físico novo. Os Farofeiros 3 leva todos ao Caribe sem conseguir levar a franquia adiante.

O enredo é extremamente simples: Rocha decide realizar o casamento da filha Anita na fictícia ilha de San Martinez, no Caribe. Ele convida Alexandre, Lima, Diguinho e suas respectivas famílias, prometendo uma celebração em um resort paradisíaco, com todas as despesas pagas. Naturalmente, a promessa é boa demais para ser verdadeira.

O primeiro Os Farofeiros, lançado em 2018, apresentava um grupo de colegas de trabalho obrigado a dividir uma casa de praia com suas famílias. A graça estava no reconhecimento: muita gente já viveu ou conhece alguém que passou por férias coletivas nas quais faltam quartos, comida, privacidade e paciência. O segundo filme, lançado em 2024, transferiu o grupo para a Bahia. A casa problemática foi substituída por hotel em condições precárias, praias lotadas, parque aquático e novos acidentes. O terceiro internacionaliza a viagem, mas não transforma a dinâmica.

A repetição não seria necessariamente um problema se cada capítulo desenvolvesse os personagens. Séries de comédia sobrevivem justamente pela familiaridade. O público retorna porque gosta daquelas figuras. Mas familiaridade e estagnação são coisas diferentes. No terceiro filme, os personagens não parecem pessoas que atravessaram duas experiências anteriores. Comportam-se como se precisassem voltar às configurações iniciais para que as mesmas piadas possam acontecer novamente.

A divulgação definiu o terceiro filme como o mais ambicioso da franquia. A produção realmente cresceu: parte das filmagens aconteceu na República Dominicana, além das gravações realizadas no Brasil, e foram organizadas sequências envolvendo aeroporto, atividades aquáticas e diferentes locações caribenhas. Esse crescimento é bem mostrado na tela.

As águas cristalinas, as praias, a vegetação e os espaços turísticos conferem ao longa uma dimensão visual superior à dos capítulos anteriores. Não parece apenas uma viagem simulada em estúdio. Contudo, a ambição de produção não corresponde à ambição criativa. O Caribe funciona mais como cartão-postal do que como parte indispensável da narrativa. Com pequenas alterações, quase todas as confusões poderiam acontecer novamente na Bahia ou em qualquer cidade litorânea brasileira. O cenário muda, mas a dramaturgia, que é o mais importante em uma franquia já estabelecida, não reage a essa mudança.

Os Farofeiros 3 | Trailer oficial

O entrosamento do elenco é uma das poucas qualidades do filme. Isso evita que o filme seja completamente desastroso. Mesmo quando a piada é fraca, o elenco consegue manter algum movimento. Por outro lado, parte das atuações parece automática. Não porque os artistas tenham perdido talento, mas porque o roteiro não lhes oferece terreno desconhecido. Eles repetem expressões, tons de voz e reações que já funcionaram anteriormente. O mesmo elenco não é o problema. Grandes franquias dependem da permanência de seus intérpretes. O problema é chamar as mesmas pessoas para fazer as mesmas coisas e considerar que a mudança de locação será suficiente.

Toda comédia depende de expectativa e ruptura. O espectador precisa compreender uma situação e, no instante seguinte, ser surpreendido por uma reação, consequência ou interpretação inesperada. Em Os Farofeiros 3, grande parte das expectativas não é quebrada. Elas são confirmadas.

Não há nada de errado com humor físico, popular ou escrachado. O problema nunca foi a simplicidade. Uma queda pode ser extremamente engraçada quando a encenação, o tempo e a consequência são criativos. O problema é a previsibilidade. O filme não fracassa por querer atingir um público amplo. Fracassa porque acredita que esse público não precisa de novidade.

Lima e Jussara são apresentados como representantes do brasileiro capaz de sobreviver a qualquer situação por meio de improvisação, insistência e ausência de vergonha. O chamado “jeitinho brasileiro” nunca é verdadeiramente questionado. Ele provoca problemas, mas também oferece soluções. O roteiro utiliza o comportamento para gerar humor sem examinar a fronteira entre criatividade, irresponsabilidade e desrespeito.

Roberto Santucci conhece o funcionamento industrial da comédia brasileira. Ele sabe posicionar muitos atores em um mesmo espaço e manter a narrativa acessível. O público nunca perde completamente a noção de quem está brigando com quem. O problema é que a direção raramente se arrisca visualmente. Parece ter medo de ousar. Mesmo no Caribe, poucas sequências utilizam verdadeiramente a geografia para construir humor que não pudesse existir em outro lugar. A direção é funcional, mas excessivamente segura.

A montagem procura evitar silêncio e manter uma sucessão constante de acontecimentos. Confusão leva a discussão, que leva a acidente, que leva a nova mentira, que leva a outro constrangimento. Esse movimento impede que o filme fique completamente parado, mas também produz cansaço. Quando todas as cenas são construídas para terminar com uma reação exagerada, o ritmo deixa de ter variação. Não existe pausa suficiente para que os personagens revelem algo inesperado ou para que uma situação cômica amadureça.

Outro fator que não trabalha a favor dessa produção é a duração. Com aproximadamente 1h42, a repetição do roteiro faz a projeção parecer mais longa. A comédia precisa respirar. Aqui, o filme parece temer que alguns segundos sem barulho revelem a fragilidade do roteiro.

Como nos capítulos anteriores, os conflitos conduzem a uma afirmação sobre amizade, família e solidariedade. Apesar das discussões, os personagens unem-se quando alguém realmente precisa deles. A mensagem é legítima e adequada ao público da franquia. O problema é que já foi transmitida praticamente da mesma maneira. Em uma terceira parte, seria necessário tornar essa união mais difícil, colocar uma amizade em risco verdadeiro ou obrigar alguém a assumir consequências permanentes. O roteiro aqui procura conforto, não transformação.  O primeiro Os Farofeiros levou aproximadamente 2,6 milhões de espectadores aos cinemas em 2018. A continuação alcançou cerca de 1,9 milhão em 2024. São números importantes para uma produção brasileira, especialmente em um mercado dominado por lançamentos estrangeiros. Bilheteria não deve ser confundida com qualidade, mas qualidade também não precisa ser inimiga da bilheteria.

Produzir e distribuir um filme no Brasil envolve riscos consideráveis. Um elenco conhecido, uma marca estabelecida e uma fórmula testada facilitam publicidade, financiamento e ocupação de salas. Mas a segurança excessiva gera desgaste. O público passa a receber filmes diferentes apenas no título, enquanto as estruturas, conflitos e piadas permanecem quase idênticos.

A televisão brasileira formou grandes comediantes e criou programas extraordinários. O problema não é a origem televisiva. O problema surge quando um longa-metragem é tratado como episódio estendido. Na televisão, personagens podem retornar ao estado inicial porque precisam funcionar na semana seguinte. No cinema, esperamos uma trajetória completa. Existe uma visão equivocada de que a comédia popular precisa ser previsível para alcançar grande público. O público não rejeita inovação. Rejeita sim, histórias nas quais não encontra qualquer conexão.

O Auto da Compadecida, Saneamento Básico, Minha Mãe é uma Peça, Cine Holliúdy, O Palhaço e diferentes momentos das chanchadas demonstram que identidade popular e criatividade podem caminhar juntas. O cinema brasileiro não sofre com ausência de talento cômico. Sofre com uma estrutura industrial que frequentemente prefere repetir sucessos em vez de permitir novas tentativas.

Minha nota para esse filme é:

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