DENTRO DA BALEIA – QUANDO O LUTO PRECISA SER DIGERIDO

Existem filmes que utilizam uma metáfora como uma camada complementar. Dentro da Baleia faz algo diferente: praticamente toda a produção é construída dentro de uma única metáfora. O jovem Jay Gardiner não é apenas engolido por um cachalote. Ele é engolido pelo luto que se recusou a enfrentar, pelas palavras que nunca disse ao pai, pelas lembranças que tentou abandonar e, principalmente, pelo arrependimento de ter acreditado que ainda haveria tempo para resolver tudo.

Dentro da Baleia é dirigido por Brian Duffield e possui uma premissa extraordinária: um mergulhador fica preso no sistema digestivo de um cachalote e dispõe de aproximadamente uma hora de oxigênio para encontrar uma saída. Seria material suficiente para um suspense de sobrevivência direto, claustrofóbico e angustiante.  Brian Duffield, contudo, não está interessado apenas em saber se Jay conseguirá escapar da baleia. Sua pergunta principal é outra: ele conseguirá sair emocionalmente do lugar em que ficou preso desde a morte do pai?

A proposta é ambiciosa e tecnicamente impressionante em vários momentos. Austin Abrams sustenta praticamente sozinho grande parte da projeção, Josh Brolin constrói um pai contraditório e a recriação do interior da baleia produz algumas sequências verdadeiramente sufocantes. O problema é que o filme não confia plenamente na força de suas próprias imagens. Aquilo que já estava claro por meio da baleia, da falta de ar, da escuridão e do processo de digestão passa a ser excessivamente explicado no terceiro ato. O que poderia permanecer como uma experiência emocional aberta transforma-se em uma espécie de sessão de terapia repleta de alucinações, diálogos e conclusões prontas.

Dentro da Baleia trata menos de uma perda que chega tarde e mais de um luto que começa tarde demais. Mitt já morreu quando a narrativa começa, mas Jay ainda não aceitou plenamente essa morte. Durante algum tempo, ele conseguiu tratar a ausência do pai como uma questão prática: existe um corpo desaparecido, uma família esperando e um mergulho que precisa ser realizado. Essa racionalização esconde a verdadeira ferida. Tanto que encontrar os restos mortais de Mitt não permitiria que Jay mudasse a relação entre eles, não criaria uma conversa final, não apagaria os momentos de humilhação e não devolveria ao filho a oportunidade de dizer aquilo que guardou. A busca pelo corpo do pai representa o desejo humano de transformar uma ausência abstrata em algo concreto. Se houver um corpo, talvez seja possível enterrá-lo. Se houver um túmulo, talvez seja possível encerrar a história. Mas determinadas histórias não possuem um encerramento satisfatório. Jay não está sofrendo apenas porque perdeu o pai. Ele sofre porque perdeu definitivamente a possibilidade de melhorar a relação que tinha com ele. Esse é o verdadeiro arrependimento do filme.

A baleia não é a vilã da história. Ela não caça Jay nem age movida por alguma inteligência maligna. É uma criatura que segue seu comportamento natural e que, por circunstâncias extraordinárias, transforma-se no espaço em que o protagonista fica preso. O próprio Daniel Kraus, autor do livro e também corroteirista da adaptação, descreveu a baleia como o cenário da narrativa, e não como sua antagonista. Essa distinção é fundamental. O luto também não é um vilão que possa simplesmente ser derrotado. É sim um espaço que precisa ser atravessado.

O interior da baleia possui duas funções simbólicas aparentemente opostas: primeiro, é um túmulo. Jay encontra-se cercado pela possibilidade da morte, em um ambiente escuro, úmido e fechado. A baleia parece uma extensão do oceano que recebeu o corpo de seu pai. Ao mesmo tempo, o animal funciona como um ventre.
Jay fica isolado do mundo, retorna a uma condição de vulnerabilidade quase infantil e precisa atravessar uma experiência dolorosa antes de renascer. Quando finalmente consegue voltar à superfície, a imagem sugere um segundo nascimento. Essa combinação entre túmulo e ventre resume a mensagem do filme: aceitar uma morte pode ser o primeiro passo para recuperar a própria vida.

O título brasileiro, Dentro da Baleia, descreve corretamente a situação física, mas elimina uma das ideias mais importantes da obra. “Whale fall”, que é o título original, é também nome dado ao processo em que o cadáver de uma baleia afunda até o fundo do oceano. A carcaça transforma-se em fonte de alimento e pode sustentar diferentes comunidades marinhas durante anos. A morte da baleia gera vida. Esse fenômeno contém toda a estrutura temática da história.

Mesmo Mitt tendo morrido,  algumas de suas experiências e ensinamentos continuam vivos em Jay. Mesmo tendo sido um pai imperfeito, agressivo e emocionalmente limitado, deixou ferramentas que ajudam o filho a sobreviver.
O conceito é poderoso porque não exige a santificação do morto. Mitt não precisa transformar-se subitamente em um grande pai para que alguma coisa deixada por ele possua valor. Jay pode rejeitar sua violência e, simultaneamente, reconhecer aquilo que aprendeu. O terceiro ato tenta explicar tudo isso de maneira muito direta, quando o próprio título original e as imagens já seriam suficientes.

A referência bíblica a Jonas é  clara e evidente. Jonas é engolido por uma grande criatura marinha, permanece isolado em seu interior e passa por uma transformação espiritual. A travessia funciona como período de reflexão, arrependimento e reencontro com o sentido de sua existência. Jay vive uma versão contemporânea e secular desse percurso. Ele não está fugindo propriamente de uma missão divina, mas de uma responsabilidade emocional: admitir que amou o pai, que o odiou em determinados momentos e que agora precisa conviver com a impossibilidade de consertar a relação. A baleia torna-se uma espécie de confessionário orgânico. A grande diferença é que Jay não precisa pedir perdão apenas ao pai. Precisa também perdoar a si mesmo por não ter sido capaz de resolver uma situação que talvez nunca pudesse ser plenamente resolvida.

O roteiro acerta ao não apresentar Mitt apenas como monstro ou como vítima. Ele é competente, experiente e capaz de transmitir conhecimento. Existe amor em sua relação com o filho. Contudo, esse amor aparece deformado por uma masculinidade baseada em resistência, dureza, silêncio e humilhação. Mitt acredita que pressionar Jay significa prepará-lo. Sua tragédia está em não perceber que, ao tentar tornar o filho mais forte, também o afasta. Ele ensina Jay a sobreviver no oceano, mas não sabe ensiná-lo a permanecer emocionalmente próximo.

Austin Abrams assume a responsabilidade de conduzir quase toda a produção. O ator passa longos períodos sozinho, parcialmente imobilizado pelo equipamento de mergulho, coberto por água, sangue, secreções e elementos cenográficos. Em grande parte das cenas, depende mais da respiração, do olhar e da movimentação corporal do que de diálogos convencionais. Nas cenas de flashback o ator apresenta outro Jay: retraído, desconfortável e incapaz de responder ao pai com a mesma agressividade. Quando as duas versões se encontram, compreendemos que a sobrevivência depende justamente da parte do pai que permaneceu dentro dele.
Mesmo quando o roteiro se torna repetitivo ou excessivamente sentimental, Abrams preserva a humanidade do personagem.

Josh Brolin possui presença suficiente para dominar o filme mesmo aparecendo principalmente através de lembranças. Josh Brolin explora sua força, sua voz e sua postura para criar alguém acostumado a comandar ambientes. Mas a atuação não se limita à brutalidade. Pequenos momentos revelam cansaço, medo, doença, frustração e incapacidade de admitir fragilidade.

Brian Duffield toma uma decisão importante: trata o roteiro com seriedade. O filme poderia facilmente transformar-se em uma aventura absurda, autoconsciente e repleta de humor. Brian Duffield recusa seguir esse caminho. Ele deseja que o público acredite emocionalmente na situação, mesmo reconhecendo sua improbabilidade científica. Essa sinceridade produz bons resultados no início. O mergulho, o encontro com a lula gigante, o momento em que Jay é engolido e seu despertar no interior da baleia possuem tensão, escala e sensação de perigo.

O diretor também demonstra coragem ao sustentar uma narrativa praticamente inteira dentro de um espaço escuro e biologicamente desconhecido. No terceiro ato, o diretor tenta garantir que ninguém deixe de compreender a metáfora. A sutileza cede lugar a conversas imaginárias, visões, explicações e uma resolução excessivamente organizada. É justamente no terceiro ato que o diretor e o roteirista explicitam a fragilidade do filme.

Uma relação marcada por anos de amor, ressentimento, distância e violência emocional não se resolve facilmente.
Ao sincronizar a aceitação do pai com a fuga da baleia, o roteiro cria uma solução dramaticamente eficiente, mas psicologicamente simplificada.

O interior da baleia é a maior realização do filme. A equipe comandada pelo designer de produção Ramsey Avery pesquisou a anatomia de cetáceos, criou modelos digitais baseados em dimensões reais e construiu quatro estruturas em tamanho natural. Algumas foram instaladas sobre plataformas de movimento e outra podia girar como uma máquina de lavar. Sete profissionais movimentavam manualmente partes do cenário, enquanto cordas de LED programáveis simulavam bioluminescência. A equipe de efeitos visuais ainda desenvolveu um sistema com câmera infravermelha para acompanhar a constante movimentação do ambiente. Esse trabalho impede que a produção pareça inteiramente digital. As paredes respiram, contraem-se e reagem à presença de Jay. Água, secreções, membranas e restos orgânicos possuem textura. A baleia parece um espaço vivo.

Mesmo tentando mostrar a máxima verossimilitude possível, o filme não consegue muito transformar a sobrevivência do protagonista em algo biologicamente plausível. A combinação de cenários físicos com efeitos digitais funciona melhor nas cenas internas. Como Austin Abrams realmente interage com paredes, líquidos e estruturas móveis, seus movimentos possuem peso. Ele não parece simplesmente flutuar diante de um fundo criado por computador. As imagens externas da baleia variam mais em qualidade. Algumas comunicam adequadamente escala e ameaça; outras deixam a artificialidade digital mais evidente. Entretanto, o grande desafio não era criar uma baleia realista vista de longe. Era sustentar quase um filme inteiro dentro de seu corpo. Nesse aspecto, a produção obtém um resultado respeitável.

O som do filme é essencial para o ambiente claustrofóbico. A respiração de Jay, o regulador de mergulho, a movimentação dos líquidos, as contrações dos órgãos, o atrito do equipamento e os sons graves produzidos pela baleia criam uma atmosfera sufocante. O espectador passa a acompanhar o estado físico de Jay pelo som antes mesmo de observar o medidor de oxigênio. O problema surge em algumas falas pronunciadas com o equipamento de mergulho. A busca por realismo torna certos diálogos difíceis de entender. Mesmo assim, o som é um dos elementos que mais aproximam o público da experiência sensorial do protagonista.

A sobrevivência de Jay exige uma suspensão considerável da descrença. Pressão, ausência de espaço, contrações musculares, falta de oxigênio e fluidos digestivos tornariam a situação fatal em condições reais. O filme sabe que parte de uma ideia praticamente impossível. Isso não constitui necessariamente um defeito. Gravidade, Perdido em Marte, Enterrado Vivo e outras narrativas de sobrevivência também reorganizam probabilidades para produzir tensão. O problema não está na impossibilidade do conceito, mas sim na oscilação das regras. Quando a produção procura parecer extremamente realista em sua anatomia e, ao mesmo tempo, encontra soluções cada vez mais convenientes para preservar o protagonista, o público percebe a grande falha do roteiro. Jay não precisa derrotar a baleia. Precisa compreender o espaço, adaptar-se e encontrar uma saída. A natureza não é maligna; é indiferente.

Como o filme ainda não estreou no circuito mundial, as primeiras impressões liberadas estão destacando o trabalho de Austin Abrams, a claustrofobia e a coragem de tratar seriamente uma premissa absurda. Outros consideraram a relação entre pai e filho repetitiva, o terceiro ato melodramático e a metáfora excessivamente explícita. Não é um filme ruim. Também não alcança a grandeza que sua premissa parecia prometer.
É uma experiência tecnicamente respeitável, emocionalmente sincera e tematicamente clara, porém prejudicada por um terceiro ato que não confia no silêncio, na imagem nem na inteligência do público.

Minha nota para esse filme é:

 

 

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