ESSE QUASE NINGUÉM LEMBRA – A MARCA DA CORRUPÇÃO – QUANDO UM ASSASSINO TRANSFORMA SEUS CRIMES EM LITERATURA

AVISO: ESSA ANÁLISE CONTÉM SPOILERS. APRECIE POR SUA CONTA E RISCO.

A Marca da Corrupção é um daqueles thrillers policiais dos anos 1980 que ficaram escondidos entre produções comercialmente mais poderosas, mas que merecem ser redescobertos. O filme reúne dois atores extraordinários em um confronto de personalidades quase perfeito. Brian Dennehy representa estabilidade, integridade, cansaço e peso moral. James Woods é velocidade, instabilidade, sedução e perigo.

Dennis Meechum (Brian Dennehy) é policial e escritor. Cleve (James Woods) é executivo e assassino procurado. Um procura transformar a verdade em narrativa. O outro quer usar a narrativa para reconstruir a própria verdade. A premissa parece simples: um matador profissional procura um policial escritor e oferece-lhe a história de como uma grande corporação foi construída por meio de assassinatos. Mas o roteiro de Larry Cohen transforma essa ideia em algo muito mais inquietante. O filme não trata apenas da investigação de uma empresa criminosa. Discute quem controla uma história, quem será apresentado como herói, até que ponto um escritor pode conviver com sua fonte e se a exposição pública consegue realizar aquilo que a Justiça formal não alcança.

Cleve não deseja apenas fornecer a história para Dennis, ele quer também ser compreendido, admirado e eternizado. A arma mais importante do filme não é uma pistola. É um livro. Dennis Meechum afirma que é policial antes de ser escritor. Essa declaração define sua identidade, mas A Marca da Corrupção passa toda a narrativa testando sua veracidade. Como policial, Denis Meechum deveria prender Cleve imediatamente. Como escritor, percebe que o assassino possui a melhor história de sua carreira. Dennis não é corrupto no sentido convencional. Não aceita dinheiro de Madlock nem abandona deliberadamente seus princípios. Entretanto, aceita conviver com um criminoso porque precisa das informações que ele possui. Ele também precisa do livro, pois está endividado, sofre pressão da editora e perdeu a capacidade de escrever depois da morte da esposa. Cleve oferece simultaneamente uma investigação, uma possibilidade de justiça e a solução para seu bloqueio criativo. Essa perigosa combinação torna sua decisão moralmente ambígua. Dennis sabe que está utilizando Cleve como fonte. Cleve, por sua vez, tenta utilizar Dennis como instrumento de vingança. Isso faz com que nenhum dos dois consiga controlar inteiramente a relação.

Brian Dennehy entrega uma atuação de enorme solidez.
Dennis não é apresentado como superpolicial. É um homem pesado, cansado, ferido e preocupado com a filha. Sua autoridade vem da experiência, não da velocidade ou da invulnerabilidade. BrianDennehy transmite a sensação de alguém acostumado a observar antes de agir.

Enquanto Cleve fala, provoca e se movimenta, Dennis permanece atento. Essa diferença permite que James Woods realize uma interpretação explosiva sem dominar completamente o filme. Brian Dennehy é o eixo moral da história. Seu rosto revela, muitas vezes sem diálogos, a mistura de repulsa, curiosidade e fascínio que sente por Cleve. A força da atuação está justamente nessa contradição. Dennis não é incorruptível porque não possui impulsos violentos. É incorruptível porque decide não obedecer a esses impulsos.

Cleve é um dos personagens mais interessantes da carreira de James Woods. Ele não se apresenta como criminoso comum. Usa ternos elegantes, fala como executivo e conhece perfeitamente os códigos sociais dos ambientes frequentados por milionários. Isso acontece porque Cleve não era apenas um pistoleiro contratado ocasionalmente. Ele fazia parte da estrutura do vilão do filme, Madlock (Paul Shennar). Ele era usado como qualquer empresa utiliza um departamento jurídico ou uma assessoria especializada. Quando uma pessoa se tornava obstáculo, Cleve resolvia o problema. Ele representa a violência física escondida por trás do sucesso empresarial. Cleve é cruel, imprevisível e narcisista. Chega a queimar a própria mão para demonstrar indiferença à dor. Cleve não teme em momento algum morrer. Tem mais receio de ser mal interpretado.

James Woods transforma Cleve em uma combinação de inteligência, ansiedade, carisma e ameaça.
O ator fala rapidamente, altera o tom sem aviso e utiliza pequenos sorrisos para tornar o personagem ainda mais perturbador. Nunca sabemos se Cleve está sendo sincero, manipulador ou ambas as coisas.
Sua violência é automática. Não exige preparação emocional. Em um momento conversa educadamente; no momento seguinte, mata alguém sem o menor arrependimento.
James Woods também permite que apareça uma vulnerabilidade quase infantil. Cleve busca a aprovação de Dennis como se procurasse o reconhecimento de um pai.

A princípio, Dennis considera Cleve apenas uma fonte. Gradualmente, surge uma forma desconfortável de respeito. Cleve salva sua vida mais de uma vez, fornece informações verdadeiras e protege Holly. Contudo, continua assassinando pessoas diante dele. Não existe redenção fácil. Nunca.
A amizade que se forma entre os dois é real, mas contaminada. Dennis pode reconhecer a humanidade de Cleve sem esquecer os crimes que ele cometeu.

Paul Shenar interpreta Madlock com elegância e frieza. O personagem não possui a instabilidade de Cleve. Não precisa levantar a voz ou sujar as mãos. Seu poder vem do dinheiro, dos advogados, dos seguranças e da respeitabilidade. Madlock é apresentado publicamente como empresário e filantropo. Entretanto, sua fortuna começou com dinheiro roubado de um depósito policial e cresceu por meio de assassinatos corporativos. Cleve é a violência visível. Madlock é a estrutura que o usa.

O crítico de cinema Jonathan Rosenbaum observou que essa relação lembra Bruno Anthony e Guy Haines em Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock, inclusive pela atração e repulsa entre dois homens moralmente opostos, porém ligados pelo crime. O crítico elogiou a eficiência da narrativa, a fotografia e a forma como Brian Dennehy serve de contraponto ao assassino simultaneamente assustador e sensível de James Woods.

O roteiro entende que a corrupção verdadeiramente poderosa raramente se apresenta com aparência criminosa. Ela usa ternos, promove eventos beneficentes e contrata advogados. A Kappa International não é apenas uma empresa administrada por um criminoso. É também e principalmente uma organização cujo crescimento econômico dependeu da eliminação física de obstáculos. Uma das ideias mais inteligentes do filme ocorre quando o advogado de Madlock oferece dinheiro a Dennis para escrever uma biografia oficial. A tentativa revela que o empresário compreende o poder da narrativa.
Ele não quer somente censurar o livro de Cleve. Deseja substituir a investigação por uma obra controlada, higienizada e legitimadora. A Marca da Corrupção antecipou vários debates atuais sobre a indústria do crime real.

A sequência de abertura utiliza máscaras de Richard Nixon para ocultar os assaltantes.
A escolha não é casual. Richard Nixon tornou-se uma das imagens definitivas da corrupção política norte-americana. Colocar seu rosto sobre criminosos que roubam dinheiro de um depósito policial cria uma associação imediata entre poder, disfarce e impunidade. O dinheiro roubado será utilizado para construir uma corporação aparentemente legítima.

O roteirista Larry Cohen (1936-2019) era mestre em transformar ideias absurdas em comentários sociais. Em Nasce um Monstro, utilizou um bebê assassino para falar sobre família, indústria farmacêutica e medo da parentalidade. Em A Coisa, transformou uma sobremesa em sátira ao consumismo. O roteiro de A Marca da Corrupção não possui realismo absoluto. Existem coincidências, facilidades investigativas e atitudes questionáveis. Larry Cohen trabalha em uma tradição de fábula criminal. A autenticidade psicológica importa mais do que a precisão processual.
O filme pergunta o que aconteceria se um criminoso percebesse que a literatura poderia torná-lo mais poderoso depois da morte do que foi em vida.

John Flynn dirige A Marca da Corrupção com objetividade. Ele é conhecido por produções como A Quadrilha e A Outra Face da Violência, em que compreendia personagens violentos, códigos masculinos e narrativas de vingança. O diretor privilegia a tensão, os atores e a clareza espacial. John Flynn afirmou que reescreveu consideravelmente o roteiro, mas não recebeu crédito porque a associação de roteiristas concluiu que suas alterações não correspondiam ao percentual necessário. Também declarou admirar a simplicidade narrativa de John Sturges, Jean-Pierre Melville e Clint Eastwood — influências notórias em seu estilo diretivo.

A recepção foi bastante dividida. Roger Ebert concedeu apenas uma estrela em quatro. Considerou que a premissa era melhor do que seu desenvolvimento e criticou o tempo que Dennis leva para aceitar evidências já aparentes. Jonathan Rosenbaum adotou a posição oposta, elogiando o roteiro, a economia da direção, a fotografia e o contraste entre James Woods e Brian Dennehy. Michael Wilmington, do Los Angeles Times, também destacou a combinação entre os atores. Para ele, a intensidade nervosa de James Woods era perfeitamente equilibrada pelo naturalismo sólido de Brian Dennehy, embora reconhecesse coincidências e saltos de lógica no roteiro.

A Marca da Corrupção teve um lançamento bastante modesto e estreou em apenas 253 cinemas norte americanos em 1987. Teve de enfrentar concorrentes fortíssimos como: Atração Fatal, Os Intocáveis, Máquina Mortífera, O Predador e Wall Street.

A Marca da Corrupção é muito mais do que um policial típico dos anos 1980. É uma história sobre dois homens disputando o direito de definir uma vida. É um thriller policial inteligente, tenso e injustamente esquecido, conduzido pelo extraordinário confronto entre James Woods e Brian Dennehy. Possui problemas de lógica e um clímax discutível, mas sua reflexão sobre corrupção, autoria, celebridade criminal e mercantilização da violência permanece surpreendentemente atual.

A Marca da Corrupção está disponível nos seguintes serviços de streaming: Apple TV, Prime Video e Looke.

Minha nota para esse filme é:

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