A MELHOR DEFESA….É O ATAQUE – UMA SÁTIRA INTELIGENTE DEMAIS PARA O RETORNO QUE RECEBEU

10 Things to Know About 'Best Defense' (1984) | Geeks

A ANÁLISE A SEGUIR CONTÉM SPOILERS. SE VOCÊ JÁ ASSISTIU À ESSA PRODUÇÃO, SEM PROBLEMAS. MAS, SE VOCÊ AINDA NÃO VIU, SINTA-SE AVISADO.

A Melhor Defesa… É o Ataque entrou para a história como um dos filmes mais atacados da carreira de Eddie Murphy. A reputação negativa foi repetida durante décadas, frequentemente sem que sua estrutura, seus temas ou sua inteligência satírica fossem examinados com a atenção necessária. O filme não é uma comédia convencional. Também não é a aventura protagonizada por Dudley Moore e Eddie Murphy que sua divulgação sugeria.

É uma sátira sobre o complexo industrial-militar construída em duas épocas diferentes. Uma linha narrativa mostra como um equipamento defeituoso é desenvolvido, aprovado e vendido. A outra acompanha um militar que, dois anos depois, precisa sobreviver utilizando essa mesma tecnologia. Wylie Cooper e o tenente T. M. Landry não precisam se encontrar. A comunicação entre eles acontece através da máquina. Wylie representa a causa. Landry enfrenta a consequência.

Essa é justamente a grande inteligência da narrativa — e também a origem de sua incompreensão. O público esperava uma comédia de parceiros; recebeu uma história de causalidade, irresponsabilidade técnica, corrupção corporativa, espionagem e sobrevivência militar. O humor não nasce apenas de piadas ou quedas. Surge do conhecimento que o espectador possui sobre a relação entre duas épocas. Quando uma pequena decisão é tomada em 1982, sabemos que alguém poderá morrer por causa dela em 1984. Cada erro burocrático funciona como uma bomba-relógio. O filme é organizado como uma piada cuja preparação acontece em 1982 e cuja conclusão surge em 1984.

Não se trata apenas de duas histórias intercaladas. Uma narrativa comenta a outra. Quando vemos Landry sofrer dentro do tanque, compreendemos o verdadeiro peso das decisões aparentemente pequenas tomadas nos escritórios da Dynatechnics. Uma assinatura, um teste manipulado ou uma informação escondida podem parecer detalhes administrativos. Dois anos depois, esses detalhes decidem quem vive e quem morre.

A ausência de uma cena entre Dudley Moore e Eddie Murphy foi interpretada como prova de que o filme era desorganizado. Dentro da lógica dramática, porém, o encontro seria totalmente desnecessário.
Wylie não conhece Landry, assim como milhares de engenheiros jamais conhecem os soldados, motoristas, pilotos ou trabalhadores que dependem dos equipamentos que projetaram. Landry não sabe quem desenvolveu o sistema. Não conhece as mentiras, o roubo intelectual, a chantagem, a corrupção nem a solução criada de última hora.
Essa distância é o coração da sátira. O grande trunfo e diferencial do filme foi justamente o motivo de seu fracasso.

A Melhor Defesa é o Ataque (1984)

A atuação de Dudley Moore utiliza a fragilidade de seu personagem de maneira absolutamente brilhante. Seu corpo transmite permanente desconforto: Wylie parece pequeno diante das máquinas, dos executivos, da esposa, da chefe, do FBI e dos espiões. Dudley Moore era especialmente eficiente interpretando homens cuja inteligência não eliminava a imaturidade. Wylie entende de engenharia, mas é incapaz de organizar a própria vida.

Eddie Murphy interpreta Landry com sua energia característica dos anos 1980. Landry parece inicialmente mais um militar atrapalhado. Porém, uma análise cuidadosa mostra que ele não é propriamente incompetente. Está operando uma máquina defeituosa, cercado por uma tripulação pouco preparada e recebendo ordens contraditórias. O tanque erra a direção, destrói estruturas e entra em território hostil. Landry precisa improvisar diante de problemas que não criou.

Os dois atores trabalham em registros diferentes. Dudley Moore pratica uma comédia de ansiedade, constrangimento e deterioração moral. Eddie Murphy utiliza velocidade verbal, indignação e improvisação. A frustração do público veio principalmente da expectativa de vê-los contracenando que recebeu e não entendeu ou não quis entender os dois protagonistas separados quando os cartazes e anúncios sugeriam uma dupla. O filme não entregou a experiência comercial prometida, mas isso não significa que sua construção paralela seja artisticamente vazia.

O principal alvo de A Melhor Defesa… É o Ataque não é o Exército. É o sistema econômico e burocrático que transforma armamentos em produtos comerciais. A Dynatechnics precisa vencer o contrato. Se o equipamento funciona ou não, torna-se uma preocupação secundária. A piada mais sombria do filme é que o equipamento não chega ao campo de batalha por ser confiável. Chega porque muitas pessoas dependem financeiramente de sua aprovação. Nesse sentido, a comédia antecipa obras como The Pentagon Wars, que também mostraria equipamentos militares comprometidos por interesses políticos, empresariais e burocráticos.

O filme realiza uma observação rara para uma comédia: projetar alguma coisa é assumir responsabilidade pelas consequências de seu funcionamento. Wylie tenta justificar-se alegando que não criou o sistema. Entretanto, aceitou a autoria, os benefícios e o prestígio. Portanto, também herdou a responsabilidade. O roteiro faz uma distinção importante entre autoria e responsabilidade. Wylie não é o verdadeiro inventor, mas torna-se responsável no momento em que: aceita os créditos pelo projeto e impede que a verdade seja conhecida; participa de todos os testes e permite que todos os testes avancem.

Wylie é celebrado como gênio porque todos desejam acreditar no surgimento de um gênio. Ninguém verifica de onde veio o projeto. O filme mostra que a falsa autoria não é sustentada apenas pelo mentiroso. É sustentada por uma estrutura que considera a verdade inconveniente. Quando Wylie finalmente confessa, a empresa não o pune. Oferece-lhe uma promoção.

A Melhor Defesa é o Ataque (1984)

A presença da KGB situa a narrativa no clima da Guerra Fria. O roteiro ridiculariza os dois lados. O agente estrangeiro é perigoso, mas a maior ameaça ao tanque não vem da espionagem soviética. Vem da própria empresa norte-americana, que aprova conscientemente um equipamento defeituoso. Essa escolha impede que o filme se transforme em propaganda patriótica. O inimigo externo quer roubar a tecnologia; o sistema interno está disposto a vender uma tecnologia que talvez não funcione.

Willard Huyck dirige o filme como uma combinação de farsa corporativa, comédia sexual, sátira política, filme de espionagem e aventura militar. Essa mistura foi considerada desorganizada. Entretanto, a instabilidade tonal corresponde completamente ao universo apresentado. O diretor não procura naturalismo. Os personagens são propositalmente exagerados, as máquinas parecem ameaçadoras e ridículas, e as instituições funcionam segundo uma lógica burocrática levada ao absurdo. O problema é que nem todas as mudanças de tom são igualmente suaves. Em determinados momentos, o filme passa de adultério a assassinato e de sátira corporativa a ação militar sem preparar emocionalmente o espectador. Ainda assim, a direção preserva velocidade e não permite que a trama permaneça tempo demais em um único registro.

O roteiro baseia-se no romance Easy and Hard Ways Out, de Robert Grossbach, publicado em 1974. Os direitos chegaram a ser adquiridos por Peter Falk em 1977, e o projeto passou por tentativas anteriores de adaptação antes de chegar a Katz e Huyck. A grande força do texto está na relação de causa e consequência.

A montagem de Sidney Wolinsky e Michael A. Stevenson é muito bem apresentada. As duas épocas não são equilibradas em duração. A linha de Wylie ocupa a maior parte do filme, enquanto Landry aparece em intervalos que funcionam como antecipações da consequência. Essa assimetria foi interpretada como prova de que a participação de Eddie Murphy estaria “colada” ao filme. Mesmo assim, ela produz um efeito narrativo inteligente. Na conclusão, a montagem aproxima as duas linhas. Wylie apresenta a solução e Landry, dois anos depois, depende dela. Eles nunca dividem o quadro, mas finalmente participam da mesma ação.

A história dessa produção é um pouco mais complicada do que a versão frequentemente repetida. Durante décadas, afirmou-se que o filme teria sido concluído apenas com Dudley Moore, recebido péssimas avaliações em sessões-teste e ganhado posteriormente cenas de Eddie Murphy numa tentativa de salvamento. Entretanto, o AFI registra que, ainda em 1984, Gloria Katz e o empresário de Murphy contestaram a história. Segundo eles, o ator assinou contrato em agosto de 1983, antes do início das filmagens em outubro, e a narrativa paralela já fazia parte do planejamento. O que está documentado é que Eddie Murphy aparece por aproximadamente 15 a 20 minutos, recebeu nos créditos a curiosa designação de “participação estratégica”, teve seu nome colocado acima do título e foi destacado na publicidade. A única cena na qual Eddie Murphy e Dudley Moore apareciam juntos foi retirada da versão final. Donos de cinemas chegaram a acusar a Paramount de exagerar a importância do ator na campanha. Portanto, a conclusão mais responsável é que a participação de Eddie Murphy foi desenvolvida ou ampliada como elemento comercial, mas a extensão exata das alterações continua cercada por versões conflitantes. De qualquer maneira, a publicidade estabeleceu uma expectativa que o filme não poderia cumprir.

O público não entrou no cinema esperando uma sátira estrutural sobre engenharia militar. Entrou esperando Dudley Moore e Eddie Murphy juntos. A propaganda ensinou o público a assistir à obra de maneira errada. O fracasso de comunicação ocorreu antes mesmo da primeira cena. A crítica norte-americana foi extremamente negativa. O filme foi descrito como confuso, desorganizado e sem graça. O fato de Dudley Moore e Eddie Murphy não contracenarem tornou-se o principal símbolo de sua suposta incompetência.

Eddie Murphy também ajudou a perpetuar a má reputação. Em uma participação no Saturday Night Live, brincou que aceitou o trabalho pelo dinheiro e chamou o filme de um dos piores já realizados. Depois disso, tornou-se mais fácil repetir que o filme era ruim do que reavaliá-lo.

A Melhor Defesa… É o Ataque estreou em segundo lugar nos Estados Unidos, arrecadando aproximadamente US$ 7,87 milhões no primeiro fim de semana. O resultado inicial foi forte, mas a arrecadação caiu cerca de 60% na semana seguinte. O total doméstico chegou a aproximadamente US$ 19,26 milhões.

Defender o filme como incompreendido não exige fingir que ele é perfeito. A linha de Landry poderia ter recebido maior desenvolvimento. Sua tripulação é pouco caracterizada e o conflito no Kuwait surge de maneira abrupta.
A transformação moral de Wylie ocorre rapidamente. Durante boa parte da história, ele é tão egoísta que sua redenção precisa trabalhar contra a antipatia acumulada. A montagem paralela é conceitualmente inteligente, mas algumas transições parecem resultado de cortes e compressões. O filme possui apenas 94 minutos para acomodar comédia matrimonial, fraude, engenharia, espionagem, FBI, ação e guerra. Uma restauração em alta definição produzida a partir de uma digitalização em 4K do negativo original foi lançada pela Kino Lorber, acompanhada de comentários históricos. Isso cria uma oportunidade para que o filme seja visto fora da antiga reputação.

A Melhor Defesa… É o Ataque foi menos compreendido do que propriamente fracassado como obra. O filme foi vendido como uma aventura estrelada conjuntamente por Dudley Moore e Eddie Murphy. Quem entrou esperando essa parceria encontrou dois homens separados por dois anos, dois países e duas formas de comédia.
Mas essa separação é justamente o diferencial desse filme. É uma comédia absurda porque o sistema retratado também é absurdo. Não é apenas uma comédia com um tanque desgovernado. É uma sátira sobre uma sociedade inteira desgovernada — e sobre as pessoas comuns que precisam sobreviver às decisões tomadas por quem jamais entrará no veículo. A Melhor Defesa… É o Ataque  acaba sendo uma comédia ousada, inteligente e injustamente condenada: imperfeita na montagem e marcada por escolhas datadas, mas brilhante ao transformar engenharia, corrupção empresarial e causalidade em uma grande piada de consequências potencialmente fatais.

A melhor defesa…é o ataque está disponível no streaming da Apple TV

Minha nota para esse filme é:

 

 

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