Meet the Full Cast of the Film Adaptation of 'Verity' (with Pictures) - IMDb

Verity tinha todos os elementos necessários para se transformar num suspense psicológico eficiente.   A história oferece uma escritora misteriosa, uma casa isolada, um casamento aparentemente perfeito, uma tragédia familiar, um manuscrito secreto, uma narradora pouco confiável e um triângulo erótico no qual desejo, inveja e ambição se confundem. Há ecos de Rebecca, Garota Exemplar, Instinto Selvagem, Misery e até A Criada. Também existia a possibilidade de recuperar o thriller erótico adulto que Hollywood praticamente abandonou depois dos anos 1990.

O elenco de Verity parece ser até promissor, mas o único destaque fica mesmo só por conta de  Anne Hathaway que possui energia e presença suficientes para tornar Verity Crawford simultaneamente sedutora, ameaçadora e indecifrável. Josh Hartnett, coitado,  atravessa uma fase interessante da carreira, assumindo homens aparentemente gentis que escondem alguma coisa. Dakota Johnson, ao menos teoricamente, poderia utilizar sua frieza como parte da personalidade retraída de Lowen.
Nada disso se transforma num filme realmente convincente. Ela conseguiu provar sua singularidade absoluta nessa produção.

A adaptação dirigida por Michael Showalter sofre com uma trama confusa, personagens mal desenvolvidos, e um suspense que vai de nada a lugar algum. Uma narrativa confusa, que acumula comportamentos sem lógica, abandona personagens, apressa investigações e depende de documentos encontrados exatamente quando o roteiro necessita de uma nova reviravolta. Quando Anne Hathaway aparece, existe filme. Quando desaparece, sobra uma adaptação sofisticada na aparência, mas vazia por dentro.

Anne Hathaway é, com grande distância, o melhor elemento de Verity. O mais impressionante é que a atriz recebe pouco tempo efetivo de atuação no presente. Em várias cenas, precisa permanecer imóvel, utilizando apenas olhos, respiração e pequenas alterações no rosto. E mesmo assim ainda consegue produzir mais tensão do que todo o restante da narrativa. Nos flashbacks associados ao manuscrito, Anne Hathaway pode finalmente expandir a personagem. Sua Verity é sedutora, cruel, narcisista e emocionalmente instável. A atriz compreende que essa versão não precisa ser inteiramente naturalista porque estamos assistindo a uma representação possivelmente construída por um texto. Anne Hathaway também trabalha muito bem com a dúvida. Até quando Verity parece indefesa, existe algo em seu olhar sugerindo cálculo. O grande problema é justamente sua participação reduzida.

O filme vende Anne Hathaway como uma das protagonistas, mas a mantém afastada durante longos períodos. Sua voz e sua imagem nos flashbacks ajudam, porém não compensam a falta de confronto direto.

Já Josh Hartnett parece estar trabalhando no automático. O ator possui presença física e carisma suficientes para fazer o personagem funcionar superficialmente. É fácil compreender por que Lowen sente atração. Falta complexidade. O personagem é tão profundo quanto um pires.

Michael Showalter demonstrou habilidade em comédias e romances, inclusive em Uma Ideia de Você, também estrelado por Anne Hathaway. Em Verity, entretanto, parece não dominar completamente a linguagem do thriller erótico. Ele hesita entre levar o material a sério e assumir sua verdadeira natureza. Se abraçasse completamente o exagero, o filme poderia tornar-se um suspense perverso e divertido. As primeiras críticas também foram notórias à essa falta de domínio sobre o thriller erótico e a incapacidade de transformar o material em suspense consistente.

Outra grande falha do roteiro é enfermeira de Verity deveria possuir enorme importância. Ela acompanha a condição da paciente, conhece suas limitações físicas e poderia perceber sinais de fingimento. Entretanto, desaparece de maneira conveniente. Essa ausência expõe um defeito recorrente: personagens secundários não possuem vida própria; entram apenas para cumprir determinada função e são retirados quando poderiam fazer perguntas perigosas para o roteiro. Afinal, uma boa história de mistério precisa controlar cuidadosamente suas testemunhas.

O filme deseja funcionar como thriller erótico. Existem corpos, olhares, cenas de sexo, desejo proibido e invasão de intimidade. Contudo, erotismo depende de tensão, não apenas de exposição.
Dakota Johnson e Josh Hartnett possuem alguma presença conjunta, mas a relação avança de maneira previsível. Falta o perigo moral necessário.

A recepção inicial foi predominantemente negativa, embora parte do público ligado ao livro provavelmente encontre diversão na fidelidade aos principais acontecimentos. As críticas concentraram-se na falta de coerência, no suspense pouco desenvolvido, na fragilidade do terceiro ato e no desperdício do elenco.

Verity é uma grande oportunidade desperdiçada.O material possuía todos os ingredientes de um thriller psicológico perturbador: uma autora possivelmente monstruosa, uma escritora fracassada desejando ocupar seu lugar, um marido que pode ser vítima ou assassino e dois documentos oferecendo versões incompatíveis da verdade. Michael Showalter, porém, não consegue transformar esses elementos numa experiência consistente. A trama torna-se confusa não porque seja profundamente complexa, mas porque os personagens tomam decisões sem lógica e o mundo ao redor reage de maneira completamente artificial. Dakota Johnson volta a demonstrar suas limitações. A atriz oferece praticamente o mesmo registro durante todo o filme. Josh Hartnett também não consegue elevar o material. Jeremy deveria ser um homem indecifrável, mas frequentemente parece apenas uma presença atraente cumprindo funções que o roteiro exige. Anne Hathaway salva aquilo que pode.
Mesmo imóvel, com poucas falas e participação inferior ao esperado, produz ameaça, erotismo e mistério. Nos flashbacks, finalmente entrega ao filme a energia que deveria atravessar toda a narrativa.
O maior erro da produção é possuir Anne Hathaway e utilizá-la tão pouco.

Minha nota para esse filme é: