Refilmar um clássico não é uma tarefa fácil. Muitos produtores e diretores tentam, poucos acertam. Na crítica especial de hoje vamos falar sobre um desses acertos. A versão mais recente de um clássico do cinema de 1947 que teve uma nova versão para os cinemas em 1994 – Milagre na Rua 34.

Dirigido por Les Mayfield do interessante Um Tira Meio Suspeito. O objetivo  de Les Mayfield com essa versão era atualizar a história dos anos 40 para os anos 90, mantendo seu encanto natalino e reforçando o embate entre fé, tradição, capitalismo e ingenuidade infantil.

Les Mayfield optou por um tom mais suave e sentimental do que o original, com uma estética acolhedora e “pura” típica dos filmes natalinos dos anos 90. O grande trunfo desse remake é a escalação de Richard Attenborough de Jurassic Park como Kris Kringle, que além do acerto principal dessa produção, foi uma presença calorosa, cativante e absolutamente convincente como papai Noel.

Não foi muito bem recebido nem pelo público com cerca de 62% de aprovação nem pela crítica com uma aprovação de 59%. Não encontrei o valor da sua produção, mas sua arrecadação no mundo foi de aproximadamente 55 milhões de dólares. – Números de 94.

Essa produção trabalha com a ideia de que acreditar em algo maior — seja no papai Noel, na bondade das pessoas (algo que está ficando cada vez mais difícil nesse nosso caótico mundo de hoje) ou em milagres, é parte essencial da experiência humana. A mãe de Susan – Elizabeth Perkins representa o ceticismo dos adultos, enquanto que a filha, a maravilhosa Mara Wilson de Matilda encarna a pureza da crença com o olhar inocente das crianças. Assim como o original, esse remake critica o aspecto comercial do Natal. A trama destaca o conflito entre espírito natalino genuíno e os interesses corporativos, tornando Kris Krinkle (Richard Attenborough) em uma espécie de símbolo de integridade em um mundo cínico que pouco mudou nesses últimos 31 anos.

O filme tem um ritmo calmo, às vezes até um pouco lento e isso pode afastar espectadores mais jovens ou acostumados com narrativa mais dinâmica. O que não prejudica em nada essa produção.

A direção de Les Mayfield é competente, embora um tanto quanto segura demais. O filme prefere a simplicidade ao risco — o que combina com sua mensagem tradicionalista – uma fórmula que nem sempre funciona seja qual for a época, a situação ou a realidade que o filme pretende mostrar.

A ousadia é um negócio arriscado e difícil, principalmente quando há milhões de um dinheiro que quase nunca é seu em risco.

O filme original de 47 explora com mais ousadia os temas de consumismo e da hipocrisia corporativa. O remake de 94 preferiu ser mais sentimental procurando focar na emoção e no encanto.

Milagre na Rua 34 é um filme aconchegante, emocional e encantador, especialmente impulsionado pela atuação magnífica de Richard Attenborough e pelo entrosamento do elenco. Uma reflexão de como o mundo moderno e louco de hoje lida com o que não consegue explicar.

Os filósofos William James e Paul Ricoeur argumentavam que a fé não precisa funcionar como substituta da razão — ela opera em outro patamar, ligado à experiência subjetiva, Milagre na Rua 34 encarna essa ideia: não coloca fé e lógica como inimigas, mas como duas formas complementares de interpretar o mundo.

Milagre na Rua 34 mesmo tendo mais de 30 anos ainda é atualíssimo quando falar que grande parte das pessoas são guiadas pelo ter e não pelo ser. O mundo comercial tanto dos 90 e principalmente o de hoje se torna incapaz de compreender algo que não se traduz em lucro, controle ou formas métricas de medir algo que não se mede.

Milagre na Rua 34 deixa no ar uma indagação muito interessante: será que a verdade é apenas aquilo que pode ser provado? Ele pende para o lado de que algumas verdades — especialmente as relacionadas à esperança, ao sentido e ao afeto — não podem ser tratadas como objetos científicos, principalmente em um mundo cada vez mais cínico como o que vivemos aonde a bondade chega a ser um ato de resistência. Richard Attenborough desafia essas normas simplesmente sendo uma pessoa gentil. E faz isso não por bondade, mas por pura convicção.

Outra pergunta que Milagre na Rua 34 faz em suas entrelinhas é: mesmo que o mundo em que vivemos é um lugar sujo, frio e cético, vale mesmo a pena ser bom? E ele mesmo responde de forma linda, clara e objetiva: sim.

Tanto o clássico de 1947 quanto o remake de 1994 são uma reflexão sobre o que significa continuar acreditando — não em figuras mágicas necessariamente, mas em valores que dão sentido à vida.

Link para o vídeo no Youtube:

Minha nota para esse filme é: