Um aviso logo de cara: se o espectador mais velho espera algo ao menos parecido com o filme de 1987 estrelado por Arnold Schwarzenegger, nem se dê o trabalho de ir ao cinema. A nova versão de O Sobrevivente é bem mais fiel ao livro de Stephen King do que ao filme de 87, o qual foi feito especificamente para a truculência de Arnold Schwarzenegger nos anos 80.

Mesmo não sendo o melhor trabalho do diretor Edgar Wright e estar recheado dos clichês habituais que estamos acostumados a ver, O Sobrevivente ainda consegue ser uma crítica ferrenha a nossa sociedade que aceita todo tipo de porcaria televisiva que nos é empurrada goela abaixo. E também as escolhas das grandes emissoras de TV da atualidade as quais optam pela audiência ao invés da qualidade.

O filme parte de uma premissa bastante simples: um homem comum, Ben Richards, que foi banido de quase todo trabalho pelo simples fato de querer ajudar seus colegas, se vê em circunstâncias desesperadoras precisando urgentemente de dinheiro para salvar sua família. Ele então, é obrigado a ingressar no “show” mais assistido, brutal e espetacular de uma sociedade ficcional que não é muito diferente da sociedade em que vivemos hoje: o participante deve sobreviver por um período de 30 dias sendo caçado por assassinos profissionais, numa arena global aonde quase nada é o que realmente é mostrado na TV, que por ser a única opção de entretenimento, pode mostrar o que bem quiser.

O Sobrevivente foca no espetáculo da caça, no público que consome cada vez mais a violência gratuita. Quem define o valor das nossas vidas? Quem lucra com a dor alheia? O jogo é na TV, mas reflete estruturas muito reais e completamente plausíveis e compatíveis com o mundo em que vivemos.

Edgar Wright, conhecido por filmes com ritmo, edição ágil, humor e um estilo visual distintivo como nos foi mostrado em Ritmo de Fuga. Aqui ele mergulha em uma ficção distópica com muita ação e crítica social pesada. Temas como os mostrados tanto no livro de 1982 como no filme de 1987 são revitalizados para essa nova versão: mídia social, streaming e vigilância global são levados ao extremo. Isso foi infelizmente o acerto na escolha e o erro na forma como foi mostrado.

Gleen Poweel (Top Gun – Maverick) tem até uma certa empatia com o público, e mesmo trazendo mais humanidade ao personagem, não consegue entregar uma boa atuação, se tornando cada vez mais um ator totalmente linear. Para o público que prefere a combinação de ação em grande escala + crítica social explícita, pode ir para o cinema que a diversão está garantida.

Na minha opinião, o sucesso de O Sobrevivente vai depender do público tentar compreender o quão bem ele equilibra espetáculo e a mensagem — e de quão original essa versão consegue ser em relação à versão de 1987 e até mesmo ao próprio livro de Stephen King. Edgar Wright mostra (ou pelo menos tenta) a crise econômica pela qual estamos passando, o colapso social , protestos, vigilância extrema dos governos poderosos , e a precarização da nossa fragilidade. Ele teve a chance de mostrar que o mundo apresentado no filme é perfeitamente  crível, sujo, urbano e imediatista ao fazer uma crítica atualizada para o mundo do streamings, das redes sociais, algoritmos e reality shows extremos. Mas infelizmente, preferiu dar ênfase a ação e a violência, mesmo tentando mostrá-la como consequência de um sistema cruel e corrupto.

Minha nota para esse filme é: