MULHER MARAVILHA 1984 – O DESEJO, A MENTIRA E O PREÇO DE NÃO ACEITAR A PERDA

Mulher-Maravilha 1984 é um filme de grandes ideias, boas intenções e execução profundamente irregular. Patty Jenkins tenta construir muito mais do que uma aventura convencional de super-herói.

O que funciona em Mulher Maravilha 1984: O reencontro entre Diana e Steve possui emoção. Maxwell Lord representa de maneira interessante a mentalidade de que nada é suficiente. Barbara Minerva oferece um bom contraponto à protagonista. A trilha de Hans Zimmer é grandiosa, os figurinos são excelentes e a decisão de derrotar o vilão por meio da verdade, e não simplesmente pela força, combina perfeitamente com a essência da Mulher-Maravilha.

O que decepcionou: o roteiro não consegue integrar todos esses elementos com clareza. Com 151 minutos, a produção é excessivamente longa, possui regras mágicas mal definidas, demora a conectar seus conflitos e chega ao terceiro ato dependendo de uma solução emocionalmente sincera, mas narrativamente pouco convincente. Além disso, a maneira escolhida para trazer Steve Trevor de volta cria um grave problema de consentimento que o filme simplesmente ignora. O resultado está muito abaixo de Mulher-Maravilha de 2017. Ainda assim, não é uma obra desprovida de valor. É uma continuação ambiciosa, romântica e idealista, cuja maior fragilidade está justamente na distância entre aquilo que deseja dizer e a maneira como desenvolve suas ideias.

O filme começa em Themyscira, durante a infância de Diana. A jovem amazona participa de uma competição contra guerreiras adultas. Depois de cair do cavalo e perder parte do percurso, encontra um atalho e retorna à disputa. Embora atravesse a linha de chegada, Antiope impede que seja declarada vencedora. Diana protesta, argumentando que teria ganhado. Antiope responde que ela não cumpriu corretamente o percurso. A lição é direta: nenhuma verdadeira heroína nasce da mentira. Esse início nos mostra todo o tema do filme. O desejo de vencer não torna legítimo o uso de um atalho. Uma vitória construída sobre uma falsidade não é uma vitória. A competição entre as amazonas funciona como uma miniatura de toda a narrativa.

O problema desse prólogo não está em sua função, mas no excesso de explicação. A lição sobre verdade e mentira é repetida diversas vezes durante o filme. Em vez de permitir que o espectador a descubra, o roteiro frequentemente transforma o tema em discurso. A sequência, entretanto, é visualmente vigorosa e apresenta uma rara competição baseada em resistência, equilíbrio, precisão e inteligência, não apenas em combate.

A ideia central é que desejar algo não transforma esse desejo em direito. Diana deseja Steve porque sofre. Barbara deseja confiança porque é humilhada. Maxwell deseja sucesso porque passou a infância sentindo vergonha da pobreza, da violência doméstica e da própria origem. Nenhum deles é condenado simplesmente por desejar. A condenação surge quando se recusam a reconhecer que seus desejos produzem consequências sobre outras pessoas.

A Diana de 1984 ainda é generosa, corajosa e comprometida com a humanidade. Entretanto, sua vida emocional está paralisada. Ela trabalha, estuda, salva pessoas e convive socialmente, mas evita intimidade. O filme mostra que a imortalidade não é apenas um privilégio. Diana vê as pessoas envelhecerem e morrerem enquanto permanece fisicamente inalterada. Steve não foi simplesmente um namorado. Ele foi o primeiro homem que a fez conhecer o mundo, experimentar o amor e perceber a complexidade da humanidade. Sua morte marcou a passagem entre a inocência de Themyscira e a experiência adulta. O desejo de recuperá-lo é compreensível. O roteiro acerta ao permitir que Diana seja egoísta durante algum tempo. Uma heroína perfeitamente altruísta, incapaz de cometer erros, seria emocionalmente distante.

No primeiro filme, Diana desconhecia o mundo de 1918. Steve precisava explicar roupas, guerras, relações sociais e convenções humanas. Em 1984, os papéis se invertem. Steve maravilha-se com escadas rolantes, trens subterrâneos, aviões modernos, roupas, arte e a chegada do homem à Lua. O encantamento de Chris Pine oferece leveza à narrativa e permite que o filme observe os anos 1980 sem depender exclusivamente de referências nostálgicas. Chris Pine também confere humanidade ao personagem. Steve percebe antes de Diana que sua existência tem um preço insustentável. Sua segunda despedida confirma sua natureza altruísta: mais uma vez, ele aceita desaparecer para que Diana e o restante do mundo possam continuar.

Os dois antagonistas representam partes diferentes da protagonista. Barbara espelha sua força. Ela quer ser Diana fisicamente. Maxwell espelha sua recusa da verdade. Assim como Diana não aceita a morte de Steve, Max não aceita ser um empresário fracassado. A diferença moral aparece na reação ao preço. Diana finalmente renuncia ao que mais deseja para proteger desconhecidos. Max e Barbara inicialmente aceitam que outras pessoas sofram para preservar suas conquistas. O filme afirma, portanto, que heroísmo não é possuir poder. É estar disposto a abrir mão de uma vantagem injusta.

A escolha de 1984 permite reunir consumismo, Guerra Fria, propaganda televisiva, petróleo, corrida armamentista e cultura dos grandes centros comerciais. O shopping da sequência inicial não é apenas cenário. É um templo do desejo. Produtos, vitrines e dinheiro cercam a primeira aparição da Pedra dos Sonhos. A produção também sugere críticas ao ideal econômico segundo o qual riqueza prova mérito individual. Max aprendeu a considerar qualquer fracasso uma vergonha pessoal. Sua resposta é vender aos outros a mesma fantasia que vendeu a si próprio. O presidente norte-americano, nunca identificado pelo nome, lembra a iconografia política da era Reagan.

A passagem pelo Egito é uma das partes mais frágeis. A tentativa de criticar fronteiras, petróleo e autoritarismo acaba reproduzindo uma representação bastante simplificada do Oriente Médio — aspecto também apontado em leituras críticas sobre diversidade e estereótipos da produção.

O filme possui méritos importantes. Diana continua sendo uma heroína cuja maior qualidade não é a capacidade de matar. Ela protege crianças, tenta conter os adversários e derrota Maxwell por meio da verdade. O laço ocupa o lugar que, em outras aventuras, seria destinado a uma arma letal. Mulheres ocupam o centro da narrativa, e a história interessa-se pelas consequências sociais de beleza, confiança, desejo e invisibilidade.

Patty Jenkins abandona o tom relativamente sóbrio do primeiro filme e aproxima a continuação das aventuras de super-heróis das décadas de 1970 e 1980. Há influência do cinema de Richard Donner: heroísmo luminoso, romance idealizado, humor ingênuo, voo como símbolo de liberdade e crença de que a bondade pode transformar o mundo. Mulher-Maravilha 1984 não parece uma repetição das produções sombrias que marcaram parte do antigo universo da DC. Patty Jenkins demonstra grande afinidade com Diana, Steve e os ideais da heroína. Porém, sua atenção aos sentimentos não é acompanhada pela mesma disciplina com o que está no roteiro do filme.

Podemos resumir os três atos de Mulher Maravilha 1984 da seguinte maneira: O prólogo (1º ato) é o momento mais elaborado em termos de movimento e geografia. A perseguição no deserto possui boas ideias, especialmente no uso do laço, mas combina efeitos práticos e digitais de maneira irregular. A batalha na Casa Branca (2º ato) é eficiente porque evidencia a mudança de Barbara e a fragilidade crescente de Diana. O combate final contra Cheetah (3º ato) é decepcionante. O cenário escuro, a chuva, a movimentação digital e o desenho visual da criatura dificultam a leitura. Depois de duas horas de preparação, a luta termina rapidamente.

O jato invisível é uma das referências mais reconhecíveis aos quadrinhos. Diana utiliza uma técnica aprendida com Zeus para ocultar uma aeronave do radar e da visão humana. A sequência permite resgatar um elemento clássico que poderia parecer estranho em uma produção contemporânea. A cena em que Diana e Steve atravessam fogos de artifício é romanticamente bonita. Contudo, a explicação surge convenientemente quando o roteiro precisa dela e praticamente não volta a ser utilizada. É uma combinação de homenagem aos fãs e ferramenta narrativa criada para resolver um problema imediato.

O diretor de fotografia Matthew Jensen procura diferenciar o filme da atmosfera da Primeira Guerra Mundial utilizada em 2017. Washington é filmada com cores quentes, vitrines, superfícies brilhantes e grandes espaços públicos. Os tons dourados acompanham Diana, enquanto Maxwell é cercado por luzes artificiais, estúdios televisivos e imagens multiplicadas por telas. A produção utilizou película de 35 mm na maior parte da narrativa. O prólogo em Themyscira e o epílogo de inverno foram registrados em IMAX 65 mm, com mudança de proporção da imagem, reforçando o caráter grandioso dessas passagens.

Gal Gadot mantém a dignidade, a presença física e a compaixão que definiram sua interpretação anterior. Seus melhores momentos são silenciosos: observar uma fotografia de Steve, perceber a perda dos poderes e tentar adiar a despedida. A atriz transmite a solidão de alguém que continuou existindo sem realmente seguir em frente. Nos longos discursos do terceiro ato, o desempenho sofre com diálogos excessivamente explicativos. Ainda assim, sua sinceridade impede que o idealismo de Diana pareça completamente artificial.

Chris Pine oferece a interpretação mais natural do elenco. Seu humor é leve, a química com Gal Gadot permanece excelente e a despedida carrega emoção mesmo repetindo uma situação do primeiro filme. O ator transforma Steve em mais do que interesse romântico: ele é a pessoa capaz de dizer a Diana aquilo que ela não quer aceitar.

Kristen Wiig é especialmente convincente antes da transformação completa. Pequenos gestos, risos nervosos e mudanças de postura tornam crível a passagem da insegurança para a confiança. Mas quando Barbara se converte em vilã convencional, o roteiro e os efeitos diminuem bastante a qualidade de seu trabalho.

Pedro Pascal assume o exagero do material. Maxwell poderia tornar-se insuportavelmente caricatural, mas o ator encontra medo por trás da ostentação. Seu desespero revela um homem convencido de que será abandonado se admitir fraqueza. A interpretação divide opiniões justamente porque não procura naturalismo. É uma atuação grande para um filme que deseja representar uma década lotada de excessos.

A trajetória comercial não pode ser analisada como a de um lançamento convencional.

O filme deveria ter chegado aos cinemas antes, mas foi sucessivamente adiado devido à pandemia de Covid-19. Nos Estados Unidos, estreou em 25 de dezembro de 2020 simultaneamente nos cinemas e na HBO Max, permanecendo inicialmente um mês na plataforma. Com orçamento estimado em aproximadamente US$ 200 milhões, arrecadou cerca de: US$ 46,8 milhões nos Estados Unidos e Canadá; US$ 122,8 milhões nos demais mercados; US$ 169,6 milhões mundialmente. Em circunstâncias normais, esses números representariam um enorme fracasso comercial. Entretanto, grande parte dos cinemas estava fechada ou operava com capacidade reduzida, e o lançamento também tinha a função estratégica de impulsionar a HBO Max. Portanto, não é possível comparar diretamente seu desempenho com o de Mulher-Maravilha de 2017, que arrecadou aproximadamente US$ 822 milhões mundialmente.

As primeiras reações destacaram o otimismo, o romance, a química entre Gal Gadot e Chris Pine e o tom de aventura clássica. Com a expansão do lançamento, a recepção tornou-se bem mais dividida. Essa divisão faz sentido. O filme possui uma mensagem bem-intencionada e momentos emocionais genuínos, mas nem sempre consegue transformar essas intenções em narrativa convincente.

Uma terceira aventura dirigida por Patty Jenkins e estrelada por Gal Gadot chegou a ser anunciada, mas deixou de avançar após a reorganização da DC Studios. A partir de 2025, uma nova encarnação cinematográfica da Mulher-Maravilha começou a ser desenvolvida para o universo reorganizado da DC, separada da versão de Patty Jenkins e Gal Gadot. Em 2026, Gal Gadot indicou que não retornaria ao papel.

Mulher Maravilha 1984 está disponível no streaming da HBO MAX.

Minha nota para esse filme é:

 

 

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